Milhões de órfãos

Um candidato se apresenta ao voto popular, pede votos, promete um programa de trabalho e no fim recebe 1 milhão de votos. Vira senador.

Toma posse, freqüenta o Senado por seis, oito meses, um ano e vem outra eleição. Lá vai ele em busca de um mandato para governador, prefeito, abandonando o mandato que lhe foi conferido.

Abandonando suas promessas. Deixando o trabalho no início, quando muito, ao meio. Alguns nem satisfação oferecem aos eleitores! Simplesmente passam o bastão para o suplente, não-raro uma figura descolorida, sem passado, sem futuro e com um presente de aprendiz.

Um milhão, quinhentos mil, duzentos mil eleitores são desrespeitados, são oferecidos como moeda, como quirera, como lixo ao suplente. “Aí vai, companheiro. Tome conta desse espólio, desse rescaldo de incêndio, desses despojos de guerra”, diz o parlamenta fujão.

Uma tristeza. Infelizmente, já vimos esse filme em todos os partidos. O próprio Serra já teve seu capítulo de fuga.

Lamentavalmente, a Justiça Eleitoral não veda esse comportamento desonesto, vergonhoso. Os eleitores são surpreendidos e, pior, quanto mais expressiva é a votação, mais o candidato se qualifica a alçar outros voos.

É claro que em matéria eleitoral, no Brasil, não se deve mesmo pedir ética, posto que é matéria desconhecida dessa corja lobotomizada de Brasília. Mas o tema serve para reflexão, no momento.

No Espírito Santo, um senador com 1 milhão de votos disputa a cadeira de governador. Deixou o mandato para uma irrelevante, desconhecida, inexpressiva suplente, que não sabe para que veio nem para onde vai.
Ganhou na loteria e não tem idéia de quem é esse contingente de 1 milhão de almas, de órfãos. De prático, sabe ela que ninguém lhe deu um mísero voto daquela fenomenal cesta de sufrágios. Maria-ninguém.

Quando haverá respeito pelo eleitor? Quando deixaremos de ser apenas essa massa de manobra que, de quando em quando, comparece às urnas para dar um emprego qualificado e bem remunerado a um grupo de sanguessugas, de aproveitadores, de gente rosada, bem alimentada à nossa custa?

Pelo andar das coisas vai demorar até criarmos vergonha na cara e fazermos uma mobilização contra esses safados que nos enganam, que nos empulham, que nos fazem de trouxas a cada eleição.

Não digo que alguém, de boa índole, bom administrador, uma vez eleito para um cargo parlamentar, não possa lograr ser governador ou prefeito. É possível e até desejável em alguns raros casos.

Defendo, ao menos, nesses casos, um plebiscito. Certamente que um milhão de eleitores que votaram nesse deputado ou senador não lhe negarão a vaga de governador. Pode até ser que o desejem lá. O problema é que eles não consultam, sequer avisam que vão fazer essa patranha.

O partido tal decidiu que a vaga é do Zé da Silva e pronto.
A democracia e seus cargos de governo são vergonhosamente loteados, como se fossem bananas de feira.

A verdade é que, a cada eleição, sinto-me menos cidadão.

Em troca, todo político me parece, a cada dia, um crápula indigno de confiança.