Perguntar não ofende

O exercício da democracia presume um permanente aprendizado de todos os cidadãos, governantes ou governados.

Infelizmente, o retorno de figuras caricatas como Sarney, Renan Calheiros, Michel Temer, José Genoíno, Jader Barbalho e tantos outros traficantes do poder demonstra que o povo, na hora de eleger, de fazer escolhas, ainda tem muito a aprender.

Esses “eleitos” com base numa planilha de interesses – sempre escusos! – ficam quatro, mais quatro e tantos outros quatro anos gozando de mordomias impensadas aos seus próprios eleitores, adquirem fazendas, ilhas, imóveis e guardam dinheiro em paraísos fiscais. E, ano após ano, as amebas e os carneiros que votam neles, os reconduzem aos seus cargos mais do que privilegiados.

Quando saem, por decrepitude ou outra causa, colocam a filha, um parente, a mulher ou um apaniguado, capacho ou títere preparado para a ocasião.

A cada eleição, fazem, religiosa e eficientemente, sua parte: distribuem reles empregos (os melhores vencimentos ficam para eles mesmos e seus mais chegados), camisetas, chaveirinhos, folhinhas de parede e outras quinquilharias.

A verdade é que nunca fizemos determinadas perguntas antes de sairmos casa para depositar o nosso voto nas urnas.

Essas perguntas são, pelo menos, estas:

“Quem pode fazer leis por mim?”

Se estou votando para deputado ou vereador, no mínimo, o candidato deve ter alguma intimidade com a atividade parlamentar, com o múnus legislativo. Não precisa ser advogado, mas, ao menos, deve ter conhecimentos da Lei Orgânica (tem vereador que nunca e leu!) e, se não sabe diretamente fazer leis, que contrate bons assessores.

“Quem pode ordenar a ocupação do solo urbano?”

O que o candidato sabe sobre isso, sobre ocupações dos sem-teto, sem-terras, sem isso e sem aquilo. O que sabe sobre desafetação (mudança de destinação de uma área pública), planejamento urbano e assim por diante?

“Quem pode cuidar do meio ambiente?”

As decisões sobre mananciais, sobre recursos hídricos, sobre coleta, seleção e tratamento do lixo, sobre destinação dos resíduos urbanos da construção civil, dos restaurantes, dos hospitais serão tomadas pelo parlamentar. Mas… o que ele sabe sobre isso?

“Quem pode decidir matéria tributária?”

Se meu candidato vai decidir por mim a coleta, partilha e destinação dos tributos, quero saber se ele tem alguma ideia da importância do tema. Tem vereador que não sabe o que é fato gerador.

“Quem pode legislar sobre educação?”

Projetar os investimentos em educação significa a sobrevivência de uma cidade! Os parlamentares, não-raramente, querem saber apenas quanto ganharão de propina se os uniformes das escolas públicas forem fabricadas em Minas Gerais ou São Paulo. Basta ver o recente escândalo da merenda escolar, ocorrido sob as barbas dos parlamentares.

“Quem pode cuidar do Tesouro por mim?”

Quem pode administrar a fortuna arrecadada em impostos, com honestidade, seriedade, em meu nome e a meu favor? O governo federal faz trapaças com o cartão corporativo, o Senado faz lambanças com os cargos de confiança e todos, sem exceção, querem mamar nas tetas generosas da República.

“Quem vai fiscalizar o Executivo por mim?”

Não falo de trocar torpedinhos pelo Facebook sobre a administração municipal. Falo de fiscalização séria, com conhecimento de causa. Ao contrário, é a própria Câmara que chama o Tribunal de Contas para “fiscalizar” o prefeito! Atualmente, como se fosse um parquinho de diversões, a Câmara se dedica a “cassar” o prefeito (versão oficial) e a trocar favores e cargos com ele pelo voto no processo (versão subterrânea).

Há quatro ou cinco vereadores com seus mandatos por um fio, frequentando a Câmara sob liminares. Basta ao prefeito alegar inidoneidade e suspeição desses vereadores e o processo se alongará pelos próximos dez anos.

Assim, perguntar “quem vai cuidar da cidade enquanto eu trabalho”, “quem vai ordenar o trânsito”, quem “cuidará da saúde” ou quem vai “economizar recursos” por mim me dará uma boa pista de quem vai merecer meu voto. Não será qualquer pé-rapado, empurrado por acordos partidários, que há de me representar nas Câmaras ou na Assembleia.

Vamos aprender com os filósofos, para quem, cada povo tem o governo que merece.

 

Ameaça vazia

Ser eleitor no Brasil não é nenhum privilégio, não traz honra nem dignidade e manter um Congresso como o nosso causa grandes prejuízos ao País.

Então, por que votar ou não votar é tão importante para a Justiça Eleitoral?

Nos últimos dias, a mídia foi inundada com advertências ao eleitor que não votou nas últimas eleições, não pagou a multa nem justificou. São como as penas do inferno e estão todas no Código Eleitoral, art. 7º, § 1º:

“O eleitor que deixar de votar e não   justificar perante o juiz eleitoral até trinta dias após a realização da eleição, incorrerá na multa de três a 10 dez por cento sobre o salário-mínimo da região”.

Assim, o eleitor relapso não poderá inscrever-se em concurso ou prova para cargo ou função pública, investir-se ou empossar-se neles.

Mas, considerando aquele eleitor comum, o homem simples, do bairro distante, em que cargo ou função pública ele poderá se inscrever se todos estão tomados e ocupados pelos políticos que ele elegeu no passado, quando ainda votava?

O mesmo se diga de “receber vencimentos, remuneração, salário ou proventos de função ou emprego público, autárquico ou paraestatal, bem como fundações governamentais, empresas, institutos e sociedades de qualquer natureza, mantidas ou subvencionadas pelo governo ou que exerçam serviço público delegado, correspondentes ao segundo mês subsequente ao da eleição”.

Ele não-só está fora do emprego público, tem de ralar o dia inteiro para ganhar a vida com seus minguados bicos, como ficou esperando aquela “boquinha” prometida pelo candidato e, ao que parece, vai morrer sem ver cumprida a promessa.

Alguns, como os famosos garçons e copeiros do Senado, são recompensados com altos salários (segundo o noticiário, salários de 15 mil para servir cafezinho aos senadores), mas esses votam religiosamente ao comando do chefe. Se não votarem, perdem a mamata.

Nem se diga que haverá prejuízo ao Zé da Silva se ele não “participar de concorrência pública ou administrativa da União, dos Estados, dos Territórios, do Distrito Federal ou dos Municípios, ou das respectivas autarquias”. Se um dia ele comparecer a alguma concorrência ou licitação, com seu chinelo havaiano, sua calça puída, sua camiseta do Banco do Brasil, será expulso da sala.

“Obter empréstimos nas autarquias, sociedades de economia mista, caixas econômicas federais ou estaduais, nos institutos e caixas de previdência social, bem como em qualquer estabelecimento de crédito mantido pelo governo, ou de cuja administração este participe, e com essas entidades celebrar contratos” seria possível se o pobre-diabo não estivesse no SPC por uma prestação das Casas Bahia que deixou de pagar quando ficou desempregado.

Empréstimo da Caixa Econômica sem avalista? Ou com empenho de sua bicicleta velha? Até aqui, nada mais grave poderá ser imputado ao eleitor relapso além de seu próprio dia-a-dia miserável.

Empréstimos do BNDES e do Banco do Brasil são para Eike Batista ou Júnior do FRIBOI ou, ainda, para países africanos falidos amigos de Lula. Eleitor matusquela verá o Juízo Final e não terá acesso a essa grana. Dinheiro do Banco do Brasil ou de cofres oficiais são para shows de Zezé di Camargo ou Ivete Sangalo e não para o bico do descamisado.

O que é uma multa a mais ou a menos para quem não consegue uma simples senha no Posto de Saúde do bairro mais remoto ou não tem dinheiro para comprar remédios quando lhe são receitados?

Para que, também, “obter passaporte” se a última viagem que ele fez foi a Terenos para visitar a sogra doente? Não vai a Las Vegas, e à Disney só vão os filhos do deputado em quem ele “não votou” nas últimas eleições.

Deputado, aliás, acompanha Dilma em seu Air Force 51 ou em missões “oficiais” pelo mundo todo, com passaporte diplomático (como o filho de Lula) e ainda pode trazer muamba sem apresenta-la na alfândega.

O eleitor comum nasce, vive e morre sem ver a capa de um passaporte.

Já ficar “sem identidade” é rematada tolice pois se ele era eleitor, já era identificado.

Ameaçar o Zé Mané com a proibição de “renovar matrícula em estabelecimento de ensino oficial ou fiscalizado pelo governo” é inútil, pois isso ele já sofre todo ano, tendo votado ou não, nas filas de espera das escolas oficiais.

Seus filhos estão engraxando, trampando como flanelinhas, vendendo limão ou jujubas nas esquinas, fazendo bicos ou, se for mais esperto, assaltando velhinhas em estacionamentos de supermercados ou fazendo sequestros-relâmpago em Caixas Automáticos.

A multa é a outra parte da piada, já que ameaçar alguém que já ganha menos do que isso normalmente, com pena de 3 a 10 por cento sobre o salário-mínimo, ou vive de uma aposentadoria mixuruca, garfada pelo governo na época dos recolhimentos, é praticamente inútil.

E, diz a lei, esse valor pode ser aumentado até dez vezes, se o juiz, ou Tribunal considerar que, em virtude da situação econômica do infrator, seria ineficaz a cobrança de inexpressivo valor.

Ou seja, se pode ser aumentada a multa, o que fazer quando o juiz descobrir que o Zé não tem sequer o passe de ônibus para voltar pra casa? Vai, nesse caso, diminuir em dez vezes a multa?

Melhor papel faria a Justiça Eleitoral se fiscalizasse o trabalho dos eleitos, que passam a fazer trapaças no Congresso em nome da democracia, da cidadania e de outras utopias correntes e não há como o eleitor cassar a “procuração” que lhes dá na urna eletrônica.

Ameaçar um Zé Ninguém com a privação de coisas que ele já não tem no dia-a-dia é brincar com o destino, é uma tremenda ironia oficial. E pensar que a obrigação do voto nos torna escravos de tanto lixo parlamentar…

 

Por que voto em Serra

Campanha finda. Muitos eleitores esperaram o final de todas as propostas para decidir. Outros, decidiram no tapa, atrás de um adesivo bonito, um vale-combustível, uma camiseta, uma promessa de emprego.

Outros, desde o ínicio, já sabiam em quem votar. Estou entre estes.

Nunca tive dúvida sobre a escolha de Zé Serra. Meu voto é ideológico. Meu partido é o da inteligência, da criatividade, da técnica, da política saudável.

Meu partido não tem nome ou sigla. Meu partido tem memória, tem passado, tem gratidão.

Tem admiração. Lembro-me ainda dos famigerados planos Cruzado, do facínora Sarney, que chegou à presidência pela janela, já que nunca foi escolhido por ninguém. Um infausto acontecido, com a morte de Tancredo Neves, deu-nos esse aborto de bigode, homem execrável, capaz de ser um dos mais ricos no Estado mais miserável do País.

Não contente com a pobreza e a miséria de seu Estado, foi procurar outro igualmente pobre para ser senador.

Esse bandido introduziu no país uma das mais tristes experiências econômicas de todos os tempos, o chamado Plano Cruzado, que congelou todos os preços e fez com o país se desabastecesse, empresas falissem e o povo, inicialmente, esperançoso, foi jogado no desespero e no prejuízo quiçá irrecuperável.

Nos escondidos, nas brumas, nas sombras do final de 1986, antes do Cruzado fazer água de vez, em total descrédito, o safado e seu partido de aluguel, o PMDB, descongelaram os preços de seus amigos, de empreiteiros, de grandes trustes que, nem preciso dizer, deitaram e rolaram enriquecendo ilicitamente à custa da miséria de milhões.

Collor, nem vou falar. Falo, com tristeza de Planos Verão, Plano Collor, Pacote de Abril e tantas outras invenções de amadores.

Um dia, um grupo de iluminados criou a URV , a unidade de referência que serviu de ponte entre o período de alta inflação, quando 10 cruzados amanheciam 1 cruzado, em completa desmoralização. Com a URV o pessoal foi se acostumando até que o Plano Real foi implantado e a inflação caiu drasticamente.

Passamos a ter uma moeda e uma economia estável. E nascia um partido decente.

Eram Gustavo Franco, Persio Arida, Armínio Fraga, Pedro Malan. Um time sólido, sério, honesto. Gente de primeira.

O PT, então, arrastava-se na oposição raivosa, votando contra tudo o que o Presidente Fernando Henrique Cardoso mandava para o Congresso. Inclusive contra o Real!

Paulo Renato, Ministro da Educação, criou mecanismos de avaliação do ensino como o ENEM e outros, que enterraram a mania de vestibulares. Criou o bolsa-escola, com a obrigação de o aluno frequentar a escola. Lula manteve o benefício tirando essa contrapartida, convertendo-o em uma esmola em troca de voto.

Sérgio Motta, o Sergião, Ministro das Comunicações, prometeu que todos os brasileiros teriam um telefone, que ele considerava um serviço público de primeira necessidade, dando o pontapé inicial nas privatizações que fizeram com que minha empregada e as pessoas mais humildes, os jovens, os meninos tivessem um, dois, três telefones celulares.

Isso enquanto o atraso do PT ameaçava, se fosse governo, espalhar orelhões por todo o país.

Serra, Ministro da Saúde, foi à Organização Mundial de Saúde, brigou, quebrou a patente dos remédios contra AIDS e nessa esteira criou os genéricos, a grande sacada de todos os tempos na saúde.

Fora a Lei de Responsabilidade Fiscal, uma grande sacada que, ao menos um pouco, gerou alguma transparência nesse país.

O PT, nas vezes que lhe coube administrar o país do Real, criado pelo esforçado e criativo PSDB, criou as figuras dos aloprados, dos sanguessugas, dos mensaleiros, dos ladrões do FAT, das Erenices, dos Genoínos dos dólares na cueca, dos Zé Dirceu com suas negociatas.

Sábado, vamos pensar. Domingo vamos votar.

Lula, um bom mordomo, tocou o Brasil sem mexer no nosso Plano Real, sem alterar as boas coisas feitas pelo PSDB. Nisso acertou. Colocou no governo caras como Paulo Bernardo e Meirelles, que sabem o que é bom para o Brasil.

Mesmo Pallocci, quando foi ministro, não destoou das bandeiras do PSDB.

Agora há dois candidatos: DILMA e ZÉ SERRA. E só este é capaz de levar adiante o que já conhece de sobra, o PLANO REAL, as conquistas do PSDB. DILMA não sabe a que veio. E atrás dela virão figuras tenebrosas como o famigerado Sarney, Temer e Zé Dirceu. Ao lado de SERRA virá o time de sempre, que sabe o que fazer com a economia, a educação, o transporte, a saúde.

Então, a quem me pergunta, digo: não há alternativa. O voto em Serra e no time do 45 é uma conclusão óbvia. Dilma não é nenhuma opção.

Então, domingo, por tudo o que recebemos do PSDB, vote 45. O contrário será atraso.

Nem tudo está perdido

Seis da matina, chega Isabel, minha empregada.

Na mão, alguns santinhos de um candidato a vereador, vizinho nosso. O motorista do vereador, que também estava chegando naquele horário lhe deu os santinhos.

Isabel está indignada. Diz que estamos naquele imóvel há dez anos e, tantos natais, tantos carnavais depois, nunca foi contactada pelo vizinho, nunca foi lembrada.

Tento defender meu amigo vereador, digo que ele já veio uma ou duas vezes à nossa casa. Ela está irredutível. Nunca foi lembrada pelo vereador, nem pelo vizinho. Para ele, ela sempre foi apenas “a empregada do vizinho”.

Volto a defender o vizinho. Digo à furiosa Isabel que aquele santinho, dado nas primeiras horas do dia, significa que ela não é só uma vizinha ou uma pessoa qualquer, mas uma eleitora, uma cidadã, uma pessoa importante para o candidato!

Sou vencido pelo comentário final: não quero ser lembrada como eleitora, mas como cidadã. Tenho problemas durante o ano todo e nenhum vereador quer saber se existo. Nas eleições, sou lembrada como eleitora?

“Tô fora!”, diz ela, abandonando-me sem mais nem menos e atirando os santinhos para temperar minha meditação em pleno café da manhã.

Quase chamei o meu amigo para acalmar a Isabel em sua explosão de cidadania. Achei melhor aguardar uma outra oportunidade, pois o constrangimento poderia ser maior.

Lamentavelmente, constato logo depois, o candidato de Isabel chega pelo rádio, todos os dias, cheio de promessas e bem-aventuranças.

Ouvindo a lenga-lenga do deputado-radialista, que também nunca veio conhecer Isabel, mas ganhou sua simpatia pelos milagres impossíveis que promete todas as manhãs, sou obrigado a amenizar meu entusiasmo.

Irmão do prefeito, o deputado-radialista finge estar furioso com a administração municipal, fala gatos e lagartos, diz que vai fazer e acontecer. Isabel acredita. Sua expressão não deixa dúvidas: “E olha que ele é irmão do prefeito!”

A reação de Isabel pelos santinhos recebidos é justa. Isso me levou a pensar que nem tudo está perdido no Brasil. Mas continuo com um pé atrás ao ver que um sacripanta, simulando ser Deus, pelo rádio, conquista a alma e o voto de minha indignada cidadã.

Então, fico com o meio termo. Nem tudo está perdido mas ainda precisamos subir muitas colinas para chegar perto do ideal.

Prometi-me, este ano, que não serei mais omisso, já que as realidades descritas por Isabel estão diante de mim, diuturnamente, e eu nada faço para ao menos esclarecer as coisas.

Posso fazer a minha parte e farei.

Mas, que me perdoe o amigo e vizinho, mas que foi divertido, isso foi.

Candidatos conjugados

Desde 1989, venho repetindo, reeditando, remendando mas sempre divulgando um artigo escrito naquele ano, com o nome “Cândidos candidatos, conjugados em três tempos”.

Na verdade, a idéia é muito simples. Trata-se de analisar os candidatos que aparecem na TV em três tempos, passado, presente e futuro.

Afinal, como diz o Tribunal Regional Eleitoral, em propaganda muito oportuna, não se pode esperar quatro anos para corrigir uma escolha política equivocada. É muito tempo e o efeito nefasto poderá ser irreparável.

No painel da propaganda eleitoral aparecem candidatos novos, sem passado, cheios de idéias. Alguns, embora novos no trecho, trazem idéias ultrapassadas, senão estapafúrdias. O já não tão desconhecido Suel pretende corrigir falhas que só o mágico Merlin poderá fazê-lo. Ataca em seu horário a inflação “que corrói o poder aquisitivo” do trabalhador, a exploração da burguesia, seja lá o que isso quiser dizer.

O eleitor deve olhar os novos, os sem passado, e ver o que fazem no presente. Muitos são professores, balconistas, funcionários públicos, todos querendo um emprego melhor, o de vereador.

Projetos futuros? Todos querem corrigir o “que aí está”. Nada de novo. Querem combater os efeitos da violência, sem nenhuma idéia de como conseguir essa mágica.

Aí vêm os mais experientes. Olhe o seu passado, veja com quem eles andaram, o que fizeram até hoje, quais são suas realizações, se já ocuparam postos de mando, se foram executivos bem sucedidos. Devem ter um passado político!

Se foram políticos, que projetos apresentaram, o que realizaram? Muitos deles se esquecem do que fizeram e pensam que o povo também esqueceu. Todo mau político acha que o povo tem memória curta. Infelizmente, essa conclusão é verdadeira. Tanto assim que quase ninguém sabe em quem votou no último pleito.

Teruel, por exemplo, foi vereador. Então, quando fala em transporte coletivo mais caro do Brasil, deve saber que votou a tarifa cobrada, teve poder para fiscalizar o processo licitatório. Qual foi sua posição? O que fez para se contrapor à “tarifa mais cara do país”?

Como deputado, quais foram seus projetos para diminuir a violência no Estado? Quais foram suas iniciativas na área de incentivos fiscais de atração de indústrias para o Estado? Como prefeito ele será cópia do que foi como político.

Como político do PT, Teruel tem um passado ligado a Zeca do PT, para o bem e para o mal. Conta-se que ele está evitando a aparição de Zeca em seu programa político. O que haverá de contradição entre os dois? Qual foi o papel do candidato a prefeito quando era quadro de Zeca do PT?

Qual foi o empenho do candidato a prefeito petista no cabuloso e nebuloso episódio da verba para combate às erosões do Rio Taquari e de investimentos na preservação do Pantanal? No governo Zeca, do qual Teruel participava, o Estado perdeu por ineficiência total a verba que viria do BID, em torno de 200 milhões de dólares.

Sem responder a esses questionamentos sobre passado e presente, Teruel ou qualquer outro candidato não pode se candidatar a prefeito de uma cidade tão complexa e dinâmica como Campo Grande.

O seu projeto futuro fala em combate à violência, em transporte melhor e mais barato, em saúde de qualidade. Mas tudo isso esteve sobre o seu foco parlamentar no passado e no presente. Como será o futuro?

No que tange ao partido, foi um desastre. Nada do que se planejou em termos de orçamento participativo foi executado! E a máquina de governo foi transformada em cabide de empregos. Como atuará Teruel diante de um mau exemplo como esse?

Nelsinho tem se saído melhor nessa conjugação, por ter um passado parlamentar participativo e, especialmente, porque foi prefeito de uma das melhores administrações à frente da Capital.

Mesmo esforçado, há queixas nos postos de saúde, há assaltos nos ônibus municipais, há problemas ambientais graves. Há muito a fazer no futuro próximo.

Portanto, mesmo tendo sido um bom prefeito, para o próximo mandato o eleitor deve analisá-lo sob os tempos passado, presente e futuro. Só assim se pode vislumbrar o que será sua administração. Pense na cidade, pense na complexidade de uma capital, no transporte, nos postos de saúde, no trânsito.

Seja qual for a roupagem da mídia, da assessoria de comunicação do seu candidato, muito eficientes em vestir as propostas de colorido e sonoridade, conjugue-o nesses três tempos.

E, na hora certa, vote bem.

Acreditar é preciso

O Brasil precisa de um processo célere e profilático de conceder e tirar o poder.

Os antigos filósofos compreendiam dois tipos de mudança, representados pelas palavras kínesis (revolução) e metábole (mudança).

José Antônio Martins (“Corrupção”) destaca que o impeachment de Fernando Collor de Mello não foi uma revolução, no sentido técnico, enquanto que a deposição de Dom Pedro II e a  proclamação da República foi um verdadeiro movimento revolucionário.

A revolução altera profundamente as estruturas do país (derrubou a monarquia e implantou a República), ao passo que a metábole apenas altera um aspecto da vida nacional, mantendo as principais estruturas (Congresso, Judiciário, sistema eleitoral, etc.).

Atualmente, confere-se o poder pelo voto, mas quando o político ou representante desanda ou cai, simplesmente, no crime, o povo não tem mecanismos eficientes para derrubá-lo.

Em um país com 200 milhões de almas a revolução e o golpe são impensáveis. Restam os processos democráticos, que são dois. Um, depende do voto, ou seja, de negar o voto ao mau político nas próximas eleições.

Infelizmente, é demorado e depende, muito, do sistema de comunicação, normalmente, manipulado pelos mais aquinhoados economicamente, entre eles, os maus políticos, donos de praticamente toda a rede de rádio e TV existente no país.

O outro, o processo propriamente dito, movido pelo Ministério Público ou pelos órgãos legislativos, arrastam-se por anos, tornando o Poder Judiciário e a imagem da Justiça uma piada no país.

O político pode se defender interminavelmente, tem advogados, pagos pelo próprio povo, para elaborar sofisticadas defesas e, não-raro, chicanas em favor de seus clientes.

Assim, quando se fala em reforma política, eu resumo a coisa toda em: um sistema que me permita dar o poder através do voto e retirá-lo quando o político desmerecer minha confiança. Em um processo rápido, liminar, que me permita substituir o salafrário e o país seguir em frente com sua rotina.

O mau exemplo de nosso atual sistema é Brasília, que se debate numa situação sui generis: o governador, preso, o vice contaminado pela corrupção e sem condições de governar, o parlamento conspurcado pelas acusações de propina (fotografadas, filmadas e exibidas por todo o país!) não tem moral para exercer seu múnus fiscalizatório.

Brasília está parada. Não se pode fazer uma revolução e apagá-la do mapa e não se pode utilizá-la como Capital do país!

Por fim, quero na reforma política um modelo profilático de retirar o poder, para que o mau político não retorne, não seja reeleito, não volte a sujar a água de meu lago. Hoje, o próprio Arruda, governador brasiliense preso, após ser vilipendiado e exposto como malandro violador do painel do Senado, foi reeleito governador!

Sarney, envolvido em imensas e insondáveis patranhas, é presidente do Senado. Temer, todo-poderoso manda-chuva subterrâneo da Cia. Docas de Santos, manda na Câmara. Recentemente, Roberto Fiúza, anão do orçamento, reeleito deputado, virou relator do Código Civil brasileiro!

O Congresso brasileiro está contaminado por figuras manchadas pela corrupção (José Genoíno, Renan Calheiros, para citar alguns apenas) e por ilustres políticos dominados pela vergonhosa omissão.

Quero, pois, não a mudança (metábole) mas uma revolução (kínesis) de mentalidade, uma forma rápida e profilática de limpar nossas instituições.

Acreditar é preciso.