Desaperta!

Quando me incorporei ao Exército, nos primeiros dias, alguém me furtou uma peça do equipamento, um cantil, se bem me lembro. Fui reclamar com o sargento responsável pelo grupo e ouvi a seguinte lição: “Aqui ninguém reclama do colega. Vai lá no alojamento e desaperta”…

No primeiro momento, fiquei sem saber o significado daquele “desaperta” mas os dias foram passando e aprendi muito bem. “Desapertar” era roubar o cantil de outro para repor o meu. Nada mais simples. O que era inaceitável, para o militar, era a chamada “caguetagem” (de alcaguete), o dedodurismo, o leva-e-traz.

Transferir o prejuízo para as costas largas do vizinho ou do subordinado.

Abra os jornais e veja quanta gente está desapertando sobre o patrimônio dos mais fracos.

Professores que fazem greves e depois obrigam os alunos a repor aulas perdidas em sábados, domingos, feriados ou em trabalhos acumulados, tudo para cobrir o rombo da greve.

Motoristas e cobradores descontentes, sem peito para enfrentar os patrões, param os ônibus na garagem prejudicando milhares de pessoas que dependem do transporte coletivo para trabalhar ou voltar para casa.

Vai daí que, vendo os ônibus parados, os vândalos e traficantes do morro se misturam entre os grevistas e tocam fogo na frota, queimando 100, 200 veículos que, surpresa, faltarão no dia seguinte para transportar a população.

Motivo? Descontentamento com arrocho da polícia! Impotentes, acovardam-se diante do mais forte e centram fogo, desapertam, contra o povo humilde, já que a queima de ônibus não prejudica os patrões, pois os veículos estão no seguro.

No noticiário, numa das greves de motoristas, ficamos sabendo de mais um desaperto: os empresários descontavam dos empregados a gratuidade dos idosos e deficientes! Que vergonha! E vinham fazendo isso há anos!

Aliás, outro costume feio das empresas de ônibus é descontar dos motoristas as multas de trânsito e os assaltos sofridos pelos coletivos. Desaperto, de novo!

Olhe para o lado: supermercados descontam de seus funcionários aqueles pequenos furtos (“degustações” nas gôndolas) que toda loja sofre. Desaperto em cima dos holerites dos empregados.

Policiais em greve, com medo o empregador, desapertam sobre os que precisam de seus serviços. Faltando polícia nas ruas, os bandidos reinam e o cidadão comum apanha como cachorro.

O patrão, que não quer aumentar o salário do garçon e este, que não tem coragem de pedir o aumento, negociaram o “caixinha”, a famigerada taxa de 10% sobre a conta, espetada sobre o consumidor.  Mais um desaperto inapelável.

O mau costume está por todo lado. Poderosos bancos, escudados nos mistérios da alta tecnologia, rateiam seus prejuízos em milhões de micro-lançamentos nas contas da clientela. Quando alguém reclama, o gerente pede desculpas e… estorna, cancela o lançamento. Fica tudo bem? De jeito algum! O lucro vem dos outros milhões que não reclamam por que nem percebem o “desaperto”…

Na mídia, você lê que Bradesco, Itaú, Unibanco, etc., tiveram 3, 4, 5 bilhões de lucro só no primeiro trimestre do ano! Claro para haver esse lucro, alguém teve de sofrer o famoso “desaperto”.

Aliás, nos tempos da inflação galopante, o famigerado banco Auxiliar (que não era o único, de forma alguma!) descontava suas despesas de energia e água na conta da Zona Azul, verba da Prefeitura que ficava depositada na instituição.

No mês em que tinha de pagar ao Município, o gerente “descobria o erro”, cancelava, na maior cara-de-pau, e devolvia o que havia furtado, sem juros, vergonha e correção monetária.

O sargento tinha razão. “Soldado não furta, desaperta”. Sei que foi vergonhoso aprender isso justamente na Caserna, mas é uma história verdadeira e, lamentavelmente, esse desaperto é praticado todos os dias nas nossas barbas.

 

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Pode piorar?

Manchetes da primeira página do Correio do Estado de segunda-feira, 30 de setembro:

“Pacote de obras do município não sai do papel”; “Projeto do Porto Seco atrasa mais oito meses”; “Receita mira sonegação de empresas no Simples”; “PSD poderá pedir abertura de cassação contra Bernal”; “PSDB exige demissão de secretários municipais”; “Avião demora mais de quatro horas para decolar”. Para piorar, até o meu Corinthians está na página: “Portuguesa atropela Corinthians”…

Na página 2:

“Justiça tardia é injusta” e o editorial é “Sob a inércia do prefeito”.

Na página 3:

Abaixo da matéria sobre cassação do prefeito, lê-se que as “Negociações com vereadores são feitas na calada da noite”.

Na página 4:

Uma matéria sobre dificuldade de implantação da lei de Ficha Limpa. Na página 5, “PSDB exige a demissão de Chadid e Leila da prefeitura”, “Assédio do PSDB a Lídio” e “PRB tem mágoa do PT”.

Na página 6:

“Inscritos no Simples têm que explicar R$40 mi irregulares”. Na página 8, “Obras do Porto Seco atrasarão mais 8 meses na Capital”.

Na página 10:

“Plano para Previdência cria rombo de R$21 bilhões”, “Após retirada à força, professores se revezam fora da Câmara do Rio”, “Carro-bomba explode e deixa 37 mortos em mercado” e “Homens armados matam ao menos 50 alunos em faculdade”.

Na página 12:

“Cada preso custa R$1,4 mil aos cofres públicos”. Na página 14, “Pacotão de obras de Bernal patina e não sai do papel” e “Quatro morrem em acidentes com motos”.

Na página 14:

“Atraso em reforma expõe Mercadão a risco de incêndio”. Na página 15, “PM prende dois por pesca subaquática predatória em Bonito”, “Polícia de Corumbá procura por estudante que foi lanchar e não voltou”.

Não fiz o mesmo levantamento em outros dias, mas penso que o resultado não seria diferente. Somos movidos a desgraça.

Na TV, além dos habituais confrontos entre a polícia carioca e seus manifestantes, as guerras no Oriente Médio, vi na terça à noite um programa da Globo onde se mostram cidades onde a coleta de esgoto chega a míseros 18%.

Você vai dizer que esse índice é em Ananindeua, no Pará, ou em algum remoto rincão do Nordeste. Pois não é. Blumenau, em Santa Catarina, está entre as piores cidades do País nesse quesito.

Sei que meus artigos, de vez em quando, parecem amargos, como já me disseram. Mas, devo dizer, que o cenário acima, um importante jornal feito apenas de desgraças numa segunda-feira, cidades tidas como civilizadas e modernas afundadas em esgoto e, na TV Senado, políticos gastando horas e horas, dias e dias, discutindo como gastar nosso dinheiro em financiamento de campanhas eleitorais. Na Câmara Municipal, o debate interminável era sobre a cassação de um certo Elizeu, quase anônimo vereador.

Capitaneados por Zeca do PT, que disse ser o mandato popular algo sagrado, intocável, razão pela qual ele e 23 outros colegas votaram “não” à cassação do dito Elizeu.

Cito isso apenas para registrar que quando o assunto é  Alcides Bernal, o prefeito, o seu mandato, tão popular quanto sagrado como o de Elizeu, recebe tratamento diferente. Todos os vereadores querem sangue.

Tenho profunda desconfiança de nossos políticos. De todos os níveis. Eles (como Delcídio e Nelsinho numa foto sintomática de jornal) se esfregam, se lambem, se comemoram, se amam, mesmo quando estavam se odiando em palanques mais antigos. E, no fim dos afagos, você sabe que o povo sempre sairá perdendo e eles acumulando mais um pouco de patrimônio.

Então, lembrando uma frase ouvida em um seminário a que fui no último fim de semana, de que “ninguém se carteliza para beneficiar a administração pública”, resta-me voltar ao trabalho para colher as migalhas que me sobraram depois de trabalhar seis meses para pagar tributos.

Isso é o que me sobra. A mim e a você.

Não surpreende a existência de tanta notícia ruim.

 

Às prioridades!

Bernal vai governar? Bernal vai afundar? Delcídio vai ser governador? Pucinelli vai aposentar? Simone vai ser governadora? Azambuja vai ser senador? Blábláblá…

Poupem-me!

“Com Bernal e sem Bernal, a vida continuará tal e qual. Menos para ele, claro, que passa a ser autoridade e ter cerimonial”. Será meu mantra.

Políticos, agentes públicos, governantes, por favor, respeitem minha inteligência e limitem suas discussões a assuntos de interesse público. Sobretudo, respeitem meu tempo.

Discussões de congelamento de IPTU, intervenção em Santa Casa, exposição de roupas íntimas em vitrines comerciais, controle de cantinas… Pelo mais alto santo que conheçam, dediquem-se a matérias mais importantes!

O que me irrita profundamente é o silêncio dos parlamentos sobre assuntos como  coleta de lixo, transporte coletivo, melhoria dos serviços municipais de saúde, segurança, trânsito e o alarido levantado sobre temas de ínfima relevância.

Veja o leitor um balanço simplório do que acontece Brasil afora.

O governador recebeu (mal) a proposta do governo federal fixando uma alíquota única para o ICMS entre os Estados. O motivo? Acabar com a guerra fiscal, em que São Paulo, Rio, Minas, Espírito Santo e Estados mais desenvolvidos transformam nosso subdesenvolvimento em bagaço indigesto.

A perda para o Estado é estimada em mais de 1 bilhão de reais e isso, sim, vai impactar a nossa vida. Pergunte a um estudante do ENEM o que é guerra fiscal e ele dirá que não faz a menor ideia.

Outro assunto: Mato Grosso do Sul, que não tem mar, deve participar dos royalties do Pré-Sal?  Bem, turminha do Haddad, o que é Pré-Sal, royalties e que participação é essa? Silêncio absoluto. Esse, sim, é um tema para discussão.

Segundo a Wikipédia, “em geologia, camada pré-sal refere-se a um tipo de rochas sob a crosta terrestre formadas exclusivamente de sal petrificado, depositado sob outras lâminas menos densas no fundo dos oceanos e que formam a crosta oceânica.

Segundo os estudiosos, esse tipo de rocha mantém aprisionado o petróleo recentemente descoberto, cuja exploração renderá grandes lucros (esperam os otimistas) para todo o País.

Pois bem, os Estados que têm petróleo querem receber mais do que os Estados sem mar. Na verdade, esses Estados não querem dividir o bolo de forma alguma e Mato Grosso do Sul, óbvio, está lá reivindicando sua parte na festa.  Isso é assunto.

A Índia chega a 2013 como o maior celeiro de profissionais de software do mundo, que prestam serviços de software e call-center para os maiores países da Europa e da América, incluindo os poderosos Canadá e Estados Unidos.

Mas… como poder ser isso? Investimento em educação, nada mais.  Um país muito pobre, que não conta com grandes ministros da Fazenda, mas, em compensação, não tem ministros como Mercadante e Haddad.

Isso é matéria para discussão.

Senhores vereadores, senhores deputados, não percam o seu e o meu tempo com discussões deletéreas! Cuidem, quando menos, de saber como o Zé da Silva, que acabou de receber um certificado profissional do SENAI lá nas Moreninhas, vai chegar de ônibus ao Núcleo Industrial e pegar um emprego.

Isso é matéria? Não. A matéria é que, no momento, não há linha de ônibus que faça esse milagre.

Vila Sésamo

Todos já viram Otavio Trad, um menino de futuro, que se apresenta aos eleitores como “a tradição se renova”. Filho e neto de políticos influentes, navega em águas tranquilas rumo à vitória, numa campanha irrigada de influência de e de apoio financeiro indiscutível.

O jovem não está sozinho na atual eleição na extensa e colorida galeria de rostinhos bonitos e corados, todos animados pelo que se denominou “participação política” ou “participação cidadã” e, é claro, pelos polpudos vencimentos, pelas mordomias e pelos rituais do cargo.

Poderia elencar nomes ilustres de ilustres famílias, todos e todas iniciando sua corrida rumo à Câmara Municipal.

Todos têm, além do entusiasmo, um traço em comum: zero de experiência política ou administrativa.  Quando tenho oportunidade, peço-lhes para avaliar a falta de experiência em relação à responsabilidade do cargo público, especialmente, numa cidade que chega ao milhão de habitantes.

A resposta é sempre a mesma: esperam ganhar experiência com os primeiros mandatos.

Para espantar a patrulha que já se avizinha, digo desde já que sou favorável à militância política desde cedo, mormente se ela começar pelos grêmios e diretórios estudantis.

Mas continuo absolutamente contra a investidura de políticos inexperientes em cargos de tão grande importância, tão-somente como trampolim para empregos bem remunerados do serviço público.

A sociedade paga um alto preço por aquilo que eu denomino “experiência democrática”, na verdade, uma dispendiosa brincadeira com recursos públicos, que se materializa em milhares de votos de colegas, amigos, colegas de escola e de baladas, sem nenhuma consideração pelos riscos e pelos deveres de um tão relevante cargo.

Vota-se por farra no bacanal das urnas.

O fenômeno não é novo e ainda está em minha memória. Odilon Nakazato, eleito vereador e depois deputado no verdor de seus anos, passou como um cometa pelo mandato, de tal forma que sua biografia é quase um traço nos anais da Assembléia Legislativa.  Sua bandeira mais conhecida e que não chegou à realização foi implantar ciclovias na cidade.

Dois filhos do deputado Londres Machado, Guy e Graziela, integram a lista de políticos que foram eleitos na esteira da tradição familiar,  mas viraram traços no Ibope das realizações. De Guy Machado não me lembro de qualquer feito quando passou meteoricamente pelo Legislativo.

Graziela, ao que me consta, tem um trabalho social que não conheço, mas de projetos, que acompanho com critério, não tenho notícia.

Vale dizer, todos esses políticos meteóricos custaram ao contribuinte – a nós,  aos amigos, familiares e admiradores que lhes deram votos de favor ou por simples pedido dos pais e parentes – um dinheiro irrecuperável.

Esse é o custo da brincadeira, da aventura de se eleger um menino ou menina para a Câmara, do deslumbramento inicial, com a pompa e a circunstância, depois o desencanto e, para nossa felicidade, o esquecimento.

Milhões de reais entrando pelo esgoto. Os orgulhosos (e poderosos) papais, vovôs e maninhos dão-se por felizes com seus pimpolhos se recuperarem, pelo menos em parte, o que investiram.

A Sociedade, não. Essa continuará pagando a conta, por anos a fio. É um valor irrecuperável. Perdido. E pagará, também, com o aumento a cada ano de novos e novos candidatos, cada vez mais novos e mais inexperientes, em busca do Eldorado, do emprego de ouro.

A representação parlamentar é coisa séria, demanda experiência, conhecimento, tráfego político, traquejo, ética, enfim, valores que só o tempo nos traz.

Na hora de exercer o mandato, não  dá para se apelar para o papai ou para o vovô.

O dinheiro pago aos políticos custa sangue, suor e lágrimas aos que trabalham e pagam impostos. Os que votam por amizade, sem levar em conta esse conjunto de elementos, político-mandato-custo-eficiência, nem se lembram de conferir se o seu voto foi justificado pelo trabalho.

É hora de parar de brincar de democracia e alimentar  sonhos de meninos.

A CPI e a mulher adúltera

No filme “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, uma das cenas mais impressionantes é quando Jesus escreve no solo poeirento enquanto a turba pede para apedrejar a mulher acusada de adultério. Essa é também uma das cenas mais densas do Novo Testamento. Muitas vezes pensei em fazer um ensaio sobre o que Jesus poderia estar escrevendo ali, na poeira. Arrepia-me apenas pensar nesse tex­to solitário, magnífico.

 

A beleza da cena está no tratamento dado pelo Messias àquela denúncia coletiva. O Velho Testamento mandava apedrejar a mulher apanhada em adultério. Ponto. Ele, no entanto, deu uma nova leitura ao problema. Pediu que se houvesse ali alguém sem pecado, que atirasse a primeira pedra.

 

Aí a coisa toda empacou. Todo mundo foi saindo de fini­nho, ficando apenas Jesus e a mulher, juiz e acusado, nenhuma teste­munha no horizonte, nenhum promotor, nenhum tribunal formado. Que cena para um milhão de outros filmes!

 

— Onde estão seus acusadores? — perguntou Jesus, como se tivesse necessidade daquela resposta, com toda sua onisciência, com toda sua divindade.

 

A conclusão, diante da ausência de acusadores, é espanto­sa:

 

 

— Nem eu tampouco te condeno. Vai e não peques mais.

 

Estava encerrado o julgamento. Esse “não peques mais” sig­nificava que ela era culpada. O “nem eu te condeno” queria dizer que a acusação se perdera na própria poeira em que o Mestre escrevia com seu cajado.

 

Antes que você pense que este é um sermão e não uma pequena reflexão sobre o atual momento brasileiro, passo ao princi­pal. Esse episódio bíblico, a proximidade das eleições e o caos que se implantou no cenário político, onde aparentemente todo mundo está envolvido, minado, comprometido com a corrupção do partido de Lula, me levam a fazer um pedido aos políticos brasileiros: vamos começar tudo outra vez, vamos fazer uma nova eleição, vamos reno­var o Congresso.

 

Tudo mundo renuncia e nós elegemos outros deputados, senadores, vereadores e assim por diante.

 

Minha conclusão é simples: todo mundo é culpado, ora por ação ou recebimento de propina, ora por omissão, já que ninguém acredita que tanto político não tenha ouvido falar nada desse mensalão pelos corredores do Congresso Nacional. Dá a impressão de que o Brasil foi loteado entre os corruptos e os políticos ainda não expostos às luzes das CPIs só esperavam sua vez de receberem a sua parte no propinoduto.

 

Posso estar cometendo alguma injustiça, mas injustiça mes­mo é o que Lula e seus partidários fizeram com o povo brasileiro, sob as bênçãos de outros partidos, dentre os quais não retiro sequer o de Fernando Henrique. O fato é que se houver uma renúncia coletiva, a exemplo do que fizeram os acusadores da mulher adúltera, podere­mos recomeçar, escolher outros políticos comprometidos com a éti­ca que tanto procuramos.

 

Às vezes, em homenagem aos políticos honestos, essa mos­ca branca no atual mar de lama, penso em pedir que os que nunca receberam propina, ou “ajuda” em campanhas, ou parcelas de indica­ção de cargos e tantos outros modos de saquear o Tesouro, atirem a primeira pedra. Peço que, ouvindo isso, os que tiverem algum peca­do saiam de mansinho da cena brasileira, voltem para suas empresas, suas fazendas, suas casas faraônicas e abram caminho para reescre­vermos a história do país.

 

O Brasil, agradecido, escreveria na poeira uma outra Cons­tituição, teria um novo começo, uma esperança. Ao povo brasileiro que vai às urnas dentro em pouco digo que não deve desanimar. Deixar como está pode piorar e muito o que temos e, infelizmente, o que temos é bem pouco e assustador.

 

Não acredito nas CPIs, porque vejo todo mundo atrás de luzes, holofotes. Lembro-me da agora, a praça onde os gregos se reuniam para discutir seus problemas, eleger seus líderes. Onde al­guns mais ousados, vestidos de branco, se apresentavam como can­didatos a cargos públicos. Se o povo não concordava com a pureza do pretendente, atirava-lhe lama nas vestes demonstrando sua discordância.

 

Hoje, nas CPIs, joga-se lama nos depoentes, atira-se lama no PT e no Presidente Lula. Não é o povo, propriamente, que atira lama em candidatos, mas são apenas políticos atirando primeiras e segundas pedras pelos céus do Brasil. São farinha do mesmo saco. De vez em quando, uma pedra atinge um deputado, um senador, e ele sai do plenário para curar as próprias feridas. Não escapa nin­guém, infelizmente.

 

Por isso, políticos do meu país, renunciem! Antes que tudo vire escombro, saiam do Congresso para que possamos escrever, tam­bém, uma nova história.

 

(OBS.: A CPI de que trata este artigo, de 2004, era a dos Anões do Orçamento. Como estamos às vésperas da CPI dos mensaleiros, reedito o artigo para registrar que o país nada mudou. João Campos, “Cidadão de Festim”, Edição Rede Pura, 2005, páginas 79/81).

 

Bênção discutível

Maria é daquelas fiéis seguidoras de certos políticos. Ultimamente, vem seguindo, pelo rádio e pela TV, um deputado de destaque em Mato Grosso do Sul. No meio de um programa, um dia desses, ligou para a rádio e disse que o parlamentar-radialista era “uma bênção”.

Esses acólitos são geralmente pobres, humildes, sem cultura, parte desses milhões de desavisados e iludidos que a Globo cria, nutre e arrebanha em sua rede. São os consumidores tanto de carnês das Casas Bahia quanto de Big Brother Brasil.

Maria é mutuária do Conjunto Habitacional Nova Serrana, um amontoado de casas e pessoas tão perdidas umas quanto as outras, num ponto remoto de Campo Grande e acaba de receber um carnê do IPTU.

Quando perguntou ao entregador do carnê por que, tão pobre, ainda tinha de pagar 150 reais de tributo a ironia não demorou. “É porque você agora é proprietária de imóvel”. E, como se fosse um oráculo, disparou: “Agora você não é mais pobre”.

Antigamente, imóveis de 80 metros quadrados eram isentos de tributo. Agora os mesmos políticos que são “uma bênção” votaram a ampliação do limite para que o pobre-diabo goze da isenção.  É como se construíssem casas de 80,10 m2 e liquidassem com a isenção para milhares de moradores.

Coisas de políticos.

Olhando o carnê de 150 reais e querendo saber como faria para se livrar desse privilégio de “ricos proprietários”, Maria ficou sabendo que teria de requerer a isenção fazendo acompanhar seu pedido com três certidões (uma de cada cartório imobiliário), provando que não é proprietária de nenhum outro imóvel.

O problema é que terá de pagar 30 reais por certidão e, decididamente, ganhando salário mínimo, não pode se dar ao luxo de gastar 90 reais para pedir isenção de 150.

O conjunto habitacional Nova Serrana tem uma particularidade cruel. Os moradores, uma multidão de desempregados e abandonados pela sorte, costumam comer os restos do Presídio que fica no bairro.

A outra particularidade, muito mais cruel do que essa, é que sempre votam nos “abençoados” políticos, radialistas, apresentadores de TV, ano após ano.

A Nova Serrana esses políticos vão apenas pelas ondas do rádio, embora tenham lá milhares de seguidores fiéis até a morte. Uma morte anunciada e ensaiada todos os dias.