Oração ao Eleitor

Meu Santo Eleitor, eis meu pedido
Quero realizar meu grande sonho
Quero ser vereador
Salário de 23 mil depositado todo mês
Décimo-terceiro, recesso remunerado,
Gasolina, gabinete só pra mim
Nada mais de sufoco e privação
Meu Santo Eleitor, atenda a minha prece
Quero me “‘arrumá?’, entende?
E você, meu Santo, é minha única chance
Minha aposentadoria, minha tranquilidade
Com sua ajuda, quero ficar bem de vida
Também sou filho de Deus, né?
Você vai ver tanta gente pedindo seu voto
Mas, ou é gente conhecida, que já esteve lá
Ou desconhecidos como eu, com uma diferença
Sou honesto, falo a verdade nua e crua
Quero me dar bem.
Quero ser feliz…
Só você pode me ajudar, meu Santo Eleitor
Posso até trabalhar e fazer algo por você
Mas, por enquanto, só consigo pensar na mordomia
Quero mesmo é esfriar a minha cuca
Depois, bem, depois a gente vê
Pelo amor de Deus, Eleitor, ponha a mão na consciência
E vote em mim, um candidato transparente
Que avisa logo o que vai fazer depois: nada, nadinha
Vou continuar em meu escritório ou na clínica
Quero só tirar minha casquinha de Poder
Meu Santo Eleitor, se você me ajudar
E eu virar vereador, prometo, por essa luz
Sumir de sua vista até a outra eleição
Ó, meu Santo Eleitor, vê se me dá uma mão
(De um candidato que não passou na convenção)

Obs.: está tudo lá, no meu livro “Cidadão de Festim”, Edição Rede Pura, 2005, páginas 69/70.
Mas a “Veja” da última semana, página 66, diz que é uma ideia original do humorista Marcelo Adnet, na MTV.

 

Enterrando caciques

Iniciei, esta semana, um movimento para enterrar caciques. Um deles, o primeiro, eu mesmo.

Ouvi de pessoa muito querida: estou no PSD por sua causa. Reconheço essa verdade e me arrepio.

Explico, nessa campanha, que os partidos nunca funcionaram no país e, da forma que foram estruturados, nunca funcionarão. Verdade.

Mas, sendo os partidos que escolhem os líderes, influem na ocupação de cargos vitais para o país, o poder se exerce através e pelos partidos. Verdade.

A oportunidade de fundar um partido, a começar pela primeira ficha, as primeiras atas, os primeiros registros oficiais no Tribunal Regional Eleitoral, deu-me a esperança de tentar uma nova abordagem ao assunto.

Os partidos já existentes costumam filiar centenas, milhares de eleitores nos bairros, nos órgãos públicos, nas comunidades. Pessoas que votam em quem um líder mandar. “Filiei-me por causa de você”.

Argumento com os amigos que a diferença entre os eleitores arrebanhados nos bairros e eles, os que filiei, é que eles pensam, votam de acordo com sua consciência.

Um deles me ligou reclamando da possibilidade veiculada por um importante jornal de que o PT iria mandar no PSD, discordando, inclusive, de uma possível vice-prefeitura em acordo partidário.

Comemorei. É desses eleitores que precisamos para mudar a história dos partidos. Disse que viesse para a convenção partidária, munida de seu voto e de seus argumentos, e exercesse sua parcela de poder. Com liberdade.

Agradeço a confiança dos que aceitaram meu convite para filiação partidária, mas daqui em diante a coisa se resolve no voto, na militância, no exercício da livre opinião.

Não quero ser cacique de ninguém, não vou pedir voto incondicional em qualquer matéria. Vou, sim, argumentar, influenciar com exemplo, com dados. Mas compelir alguém a votar porque se filiou por mim, não.

Os outros eleitores vêm dos bairros em ônibus, já com as faixas prontas, os cartazes preelaborados, as palavras de ordem ensaiadas e empurradas garganta abaixo pelos cabos eleitorais.

Enchem o plenário da Câmara Municipal, cada bloquinho representando um deputado, um senador, um vereador. E na hora do voto, trocam-no pelo sanduíche, pela coca-cola, pela camiseta de seu dono.

No PSD que está sob meu comando espero não ver esse espetáculo deprimente e antidemocrático.

Tenho recebido apoio da alta direção (um famoso deputado federal chegou a pedir minha cabeça e meu cargo há algumas semanas) e sigo em frente. Enquanto puder seguir enterrando novos e velhos caciques.

Inclusive eu mesmo, o pior dos caciques.

Harakiri

Já contei, alhures, essa história. Por ser deliciosa, vale a pena repeti-la.

Era o ano de 1996, estávamos em Tokio, em missão empresarial e resolvemos levar um presente (camisetas e um vídeo do Pantanal) ao deputado presidente da Dieta (o Parlamento) japonesa.

Alegrinhos, estávamos na sala de espera do deputado, em seu escritório político, no cento da capital japonesa.

Com enorme pontualidade, fomos convidados a entrar, mas a secretária nos informou que nenhum pacote, brinde, envelope ou documento poderia ser entregue ao deputado.

Abrimos os presentes e dissemos que eram brindes brasileiros, de uma região muito especial, etc., etc., mas não houve acordo. Os objetos não podiam entrar conosco e fim de papo.

A secretária disse-nos que poderíamos entregar os brindes na própria Dieta, que consideraria os mimos um presente ao Parlamento e ao Legislativo japonês e não a um deputado em particular.

De volta ao hotel, perguntamos à nossa guia se havia uma lei específica sobre isso e ela disse, para minha surpresa, que era apenas um comportamento ético, adotado pelos japoneses como regra de ouro. Nenhuma linha escrita, nenhuma obrigação, nenhum decreto, nenhuma ameaça de punição! Apenas ética!

Disse-me, ainda, a gentil Mitiko que havia corruptos no Japão, como em qualquer lugar do mundo. Mas quando um deles era apanhado, o assunto era tratado como escândalo ético e, não-raro, terminava em harakiri, o suicídio pela espada samurai.

Penso nisso. Penso no ridículo valor de nossos presentes perante os milhões de Palocci faturados com o comércio de influência governamental. Cômico, se não fosse triste.

Como é triste o vai-vem de Zé Dirceu fazendo suas estripulias e vendendo a alma e a vergonha nacional nos corredores do Planalto.

Já não falo de Zé Sarney, Michel Temer, Renan Calheiros, João Paulo, Berzoini, Delúbio e, ultimamente, até o próprio Sapo Barbudo.

Que falta nos faz uma espada samurai.

Sopa de letras

Em meu feriado, lendo o magnífico “Os clássicos da política”, Vol. I, de Francisco Weffort, Editora Ática, 2009, acabei reunindo para um saborosa conversa os mestres Locke, Hobbes e Montesquieu.

Embora não cite a Bíblia nesse passo (maldito o homem que confia no homem), Hobbes diz que o ser humano bem conhece suas fragilidades. Diz ele:

“quando (o homem) empreende uma viagem se arma e procura ir bem acompanhado; quando vai dormir, fecha suas portas; meso quando está em casa, tranca seus cofres; e tudo isso mesmo sabendo que existem leis e funcionários públicos armados, prontos a vingar qualquer injúria que lhe possa ser feita”. (Leviatã, cap. XIII, p. 76).

Para ele, o homem natural só acede em um “contrato social”, num verdadeiro pacto de submissão onde abre mão de seus direitos em favor de uma força maior para preservar a vida.

Já Locke acredita que tal contrato só deriva do consentimento do homem, não da submissão. Ele abre mão de sua individualidade para criar o Estado, um ente administrativo que lhe preserva não somente a vida, mas, principalmente, a propriedade.

Para Locke, o Poder Legislativo é o poder supremo, já que o Judiciário só aplica as leis que ele escreve, e o Executivo apenas as cumpre.

Do que decorre a impressão de que se houvesse inteligência no parlamento, ele deveria mesmo ser o poder supremo. Não é o caso de nossos deputados e senadores atualmente.

Montesquieu, que estruturou a noção de três poderes harmônicos e independentes, sempre advogou que um poder tem de ser suficientemente forte para se contrapor aos outros.

Dessa forma, quando o rei extrapola seus poderes, o povo o depõe pela força. Infelizmente, nessa dicotomia povo-governante, o que se vê é o governante do dia desagregando o povo pela manipulação da mídia, pela falta de comunicação e de ciência ao que se denomina povo.

Foi um encontro magistral. De tudo, penso que Montesquieu acreditou mesmo em três poderes independentes e igualmente fortes, mas não contava com a picardia ou a malícia de seus pósteros.

Hoje, como se vê no Brasil, o Executivo manda nos parlamentares e até nos juízes, seja pela prestação de favores iníquos e indevidos, seja pela submissão própria dos que dependem de orçamentos manipulados pelo presidente.

Não-só inexistem poderes equivalentes como o pouco de poder que exercem, fazem-no contra o povo, o mandante, o que lhes paga os salários e as mordomias.

Quando a CPMF for ressuscitada, voltaremos ao assunto.