Pinóquios

Estamos com um rombo acima de 6 milhões, desaparecidos num passe de mágica daqueles 10 milhões passados ao Consórcio Contisis, capitaneado pela Telemídia & Tecnologia Internacional Comércio e Serviços de Informática Ltda..

Nessa sopa de números, 8,1 milhões foram passados pela União (a Prefeitura completou os 10 milhões) para instalação do Gisa (Gerenciamento de Informações em Saúde), um programa que prometia agendamento de consultas médicas nas unidades de saúde do município.

Para quem foi essa dinheirama?

Além de Nelsinho e Bertholdo, o ex-secretário de Saúde Luiz Henrique Mandetta (hoje deputado federal pelo DEM) volta e meia é arrolado como responsável senão pelo desvio financeiro propriamente dito, ao menos pelo embrulho informático que envergonha todo o setor de saúde pública.

É uma quantia que o Zé Mané da Vila Serradinho nunca verá em sua conta, onde, no máximo, pinga mensalmente uma merreca do bolsa-família.

Alguém está deitando e rolando sobre esses 6 milhões evaporados, o deputado tem seus polpudos vencimentos mensais, o ex-prefeito sobrevive, certamente, em condições bem mais folgadas que o mísero usuário do sistema Gisa.

Angústia e frustração, primeiro, por não termos o programa funcionando, segundo por sabermos, por experiência própria, que nenhuma apuração chegará a resultado consistente e, pior, ninguém será preso, responsabilizado ou forçado a devolver o dinheiro roubado.

Mas meu artigo não é para contar a história do Gisa, já suficientemente escabrosa. Minha indignação é com a falta de visão prática ou técnica dos investigadores dessa trapaça.

Nelsinho finge-se de morto, Bernal fala e fala sem falar coisa com coisa e, agora, Olarte também faz de conta que não é com ele. Um joga a bola para o colo do antecessor, que joga para outro, que devolve ao primeiro.

Em Direito Penal (não só, mas, especialmente esse ramo) há um recurso chamado acareação, que nada mais é do que a confrontação dos declarantes, para se descobrir quem está mentindo ou, como quase sempre ocorre, se todos estão fugindo da verdade.

É só chamar os três prefeitos (Nelsinho, Bernal e Olarte), mais o vistoso deputado federal e, acrescentando, de quebra, o criativo produtor de editais Bertholdo Figueiró.

São seis milhões de reais, um dinheiro que não pode desaparecer com tanta simplicidade. Follow the money, dizem os americanos, e você achará o ladrão.

Já que não temos uma Câmara Municipal digna desse nome, o Ministério Público Federal deve assumir a condução das investigações e promover a necessária acareação entre os pinóquios.

Uma ressalva, apenas: não estou dizendo que a Câmara não possa abrir uma CPI sobre esse assunto. O problema é que as CPIs servem apenas como pano de fundo para demonstrações de vaidade e discursos estéreis.

Acareação, já!