Vitória de Pirro

Dizem as enciclopédias que uma vitória pírrica ou vitória de Pirro expressa uma vitória obtida a alto preço, potencialmente acarretadora de prejuízos irreparáveis. Você ganha mas não leva, ganha mas não sai do poço.

Diante dos anúncios de revogação dos aumentos de ônibus, devem os manifestantes que ainda pensam avaliar de que orçamento o governo vai tirar recursos para pagar as concessionárias?

Falei sobre a impossibilidade de se controlar um movimento de massa, uma vez deflagrado, com todos os efeitos colaterais que isso representa – ação de vândalos, compromisso com bandeiras impossíveis, entre outros.

Quando deflagramos um movimento, seja de  ou sindical, corremos o risco de assumir bandeiras impossíveis. Por exemplo, um dirigente sindical que abre uma assembleia com uma reivindicação de 100% de aumento, pode parecer herói num primeiro momento mas, a seguir, se tornará vilão porque, simplesmente, esse aumento não é viável.

Há, em algumas áreas conflagradas no Oriente Médio, movimentos de massa para derrubar governos. Não é impossível,  mas é uma bandeira dificílima.

Controlar os vândalos, por exemplo, é uma ficção. Eles sempre chegam, se misturam e fazem sua baderna, comprometendo o mais sério dos movimentos.

Além dessas cautelas, é preciso registrar que não se tem controle, também, sobre os resultados, especialmente, se eles forem radicais.

Diz a mídia que “o aumento de tarifa em São Paulo e Rio de Janeiro foi revogado”. Vitória? A luta terminou? Não! Melhor será dizer que o problema não foi resolvido mas transferido para o outro lado da moeda.

Todo contrato de concessão – como o de transporte coletivo urbano – prevê reajustes de tempos em tempos visando recomposição dos custos – inflação, pneus, desgaste dos veículos, salários, além de uma famélica mordida dos governos, especialmente, o municipal e o federal.

Dessa forma, quando os militantes do “Passe Livre” pretendem tarifa zero, ou reajuste zero, estão querendo transferir esse custo para a Viúva, ou para o Tesouro, vale dizer, para todos os demais brasileiros, tomem eles ônibus ou não.

Quando o governo de São Paulo aumentou a tarifa para R$3,20 reais estava cumprindo um contrato de concessão que prevê uma indenização se esse custo não for reposto anualmente. Em termos técnicos, a falta de reajuste causa “desequilíbrio econômico” e esse desequilíbrio é recomposto pelo Poder Público com recursos de toda a sociedade.

Hoje, vence a força da população na rua, obrigando o Município a retroceder no cumprimento de seu contrato com as concessionárias. O reajuste é revogado e as empresas entram em juízo para obter a reposição de seus custos, com decisão evidentemente favorável.

Em resumo, não há como fazer milagre em matemática. Alguém vai pagar o lanche. Aí o movimento pensa que ganhou a queda-de-braço com “o governo”, que seria o inimigo. No entanto, não há inimigo nesse caso, pois quando a revogação do reajuste é feito com prejuízo de saúde, educação e outros setores, a massa está brigando consigo mesma, pois o prejuízo é de toda a sociedade.

O “governo” é uma entidade fictícia, uma simulação. “Mais verbas para a educação” virão de nós mesmos, de nossos tributos. “Baixar a tarifa” é retirar recursos de outra parte, também essencial a todos. Pichar paredes, incendiar ônibus, quebrar vidros representam atos que serão reparados com recursos públicos que farão falta ao próprio povo.

Tudo isso é para reflexão dos bravos manifestantes. O exercício da democracia envolve alguns riscos para se chegar a algumas reformas, a alguns avanços. Mas a responsabilidade pelos resultados deve ser avaliada pelo movimento, já que é um tirar do bolso esquerdo para o direito.

Algumas bandeiras como revogar o auxílio paletó dos parlamentares, as verbas de gabinete que servem para contratar parentes, a aposentadoria aos 8 anos de mandato são factíveis, são justas, são viáveis.

Na bandeira das passagens de ônibus, baixar o valor do PIS e COFINS, de que o governo federal já abriu mão em maio é razoável. Revogar todo o reajuste  concedido, é atirar no próprio pé. E ainda servirá para que os políticos apareçam como paladinos e defensores do povo. “Atenderão” à massa, tirarão do posto de saúde e dos remédios e repassarão às empresas de ônibus. Ponto para a massa? Não. Vitória de Pirro.

E tudo isso porque o povo acordou. Mas acordou meio desorientado.

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Durkheim explica

Émile Durkheim, nascido em Épinal (região de Lorena, França) no dia 15 de abril de 1858 e falecido em Paris em 15 de novembro de 1917, é considerado, junto com Max Weber, um dos fundadores da sociologia moderna.

Quando vejo as manifestações pelo Brasil,  lembro-me dele.

Segundo o sociólogo francês, quando explode um movimento de massa como o que vemos na TV, ninguém consegue controlá-la. Num Maracanã lotado, num baile de Carnaval, alguém grita “Fogo!”. Vai morrer gente, pois a massa é insana, irracional, insensível, autopreservativa e, sobretudo, cruel. Na hora do pisoteio, não se respeita criança, mulher, idoso ou gente normal.

Infelizmente, nem tudo é pureza no movimento social. Já se sabe que quatro ou cinco dos “líderes” das manifestações são meninos bem criados, ricos, empregados em Ministérios e no próprio governo, quer dizer, recebendo de nosso suado dinheirinho. Não são, evidentemente, povo e nem andam de ônibus.

De qualquer maneira, vá lá, essa massa está dando um recado ao País. Afinal, antes da primeira passeata sair à rua, o Brasil se mostrava enlameado. O Congresso tomado por corruptos, desde as principais lideranças até o mais remoto deputado ou senador. O Judiciário condenando os mensaleiros e, a seguir, hesitando em aplicar a pena, como que envergonhado de sua sentença. Obras públicas, especialmente, as da Copa, divididas entre uma confraria criminosa. Cartéis dando as cartas nas licitações de serviços públicos. Enfim, Sodoma e Gomorra de verde e amarelo.

Aí, fui dar uma olhada nos ensinamentos do mestre Durkheim e colhi estas pérolas em seu “Lições de Sociologia”, publicado em 1912.

Segundo ele, existem fenômenos sociais que devem ser analisados e demonstrados com técnicas especificamente sociais. “A sociedade era algo que estava fora e dentro do homem ao mesmo tempo, graças ao que se adotava de valores e princípios morais”. “As pessoas se educam influenciadas pelos valores da sociedade onde vivem”. “A sociedade está estruturada em pilares, que se manifestam através de expressões (conceito de estrutura)”. “Divisão do trabalho social: numa sociedade cada indivíduo deve exercer uma função específica, seguindo direitos e deveres, em busca da solidariedade social”.

Mas o mais precioso e atual ensinamento é, mesmo, o de que é preciso analisar os efeitos colaterais de qualquer movimento deflagrado. Foi assim que moços bem intencionados, pelas redes sociais, resolveram convocar o povo para as ruas. O povo veio e com ele veio o Diabo e seus acólitos, os baderneiros que querem ver o circo pegar fogo.

Prédios invadidos, carros incendiados, monumentos conspurcados, lixo espalhado, pessoas feridas e um cenário que macula as boas intenções iniciais.

Não adianta querer achar os responsáveis. Não há. Depois do grito “Fogo!” a única solução é correr e tentar sobreviver.

De qualquer maneira, repito, é preciso aproveitar o movimento e tentar tirar o melhor dessa energia. Meio desorientados, os jovens vão às ruas por bandeiras tão díspares quanto a redução do passe às obras da Copa, passando pela PEC 37 (que pretende reduzir os poderes de investigação do Ministério Público).

Contudo, a maior bandeira dessa manifestação deveria ser a eficiência dos poderes da República, das instituições, pois as passagens de ônibus são abusivas porque os vereadores, as agências de regulação dos serviços públicos e o Executivo não fiscalizam os custos embutidos nas planilhas das concessionárias.

O Governo Federal retirou 3,65% (PIS e COFINS) da tarifa de ônibus em todo o país. Mas os concessionários tardam em baixar a tarifa, alegando que só o farão na época da revisão tarifária… Mentira! A tarifa já deveria ser 50% mais barata.

Basta que os prefeitos, as AGEPANS da vida, os promotores queiram e a passagem de ônibus baixa imediatamente. Mas… onde estão eles? No ar condicionado, lendo o Diário Oficial à espera de promoções e aposentadorias.

O Ministério Público, o mesmo que é contra a PEC 37, não fiscaliza a roubalheira das concessões do lixo, do transporte, da água, da energia.

O Judiciário não pune os denunciados e processados. Processos demoram 10, 15 anos e não se chega a uma condenação. Veja-se o caso de Lalau, o juiz que roubou 240 milhões do TRT de São Paulo, Renan Calheiros, Paulo Maluf, Genoíno, João Paulo Cunha, José Dirceu e tantos outros privilegiados.

Enfim, como as autoridades não funcionam, o povo vai às ruas. Ao menos isso.

Números ocultos

Ninguém liga para números. Melhor dizendo, a grande maioria não liga para números. Se for alguém como eu, que fugi da tabuada e da matemática a vida toda, então, os números ainda causam terror indiscutível.

A verdade é que os números fazem parte da nossa vida e se nos familiarizarmos com eles poderemos trafegar com mais segurança nesse cipoal de más notícias em que se converteu o Brasil nas últimas décadas.

Só na área do consumidor, fiz algumas continhas cujo resultado sempre nos causam surpresa, espanto e indignação.

NO ÔNIBUS

No ônibus lotado de estudantes que vai para UCDB, Universidade Federal ou que passa pela UNIDERP, ninguém está pagando um centavo pela passagem.

Ali tem consumo de óleo diesel, pneus, o próprio carro, salário do motorista…

Os números amigos (já que em matemática não há milagre) informam que você, passageiro comum ou até mesmo quem não usa o ônibus está pagando aquela conta.

NA ESCOLA

Veja a classe lotada com 120 alunos universitários.

O consumo de energia, limpeza, salário é o mesmo para uma classe com apenas 40 alunos, número ideal para um aprendizado decente (completa ficção em nosso país).

Os números amigos ensinam que, se os 40 alunos pagam toda a despesa, para onde vai o dinheiro arrecadado com os outros 80?

ÁGUA

A concessionária cobra pela água e pelo esgotamento sanitário (70% da conta). Esse valor extra serve para cobrir o investimento com estações de esgoto e despesas com o serviço realizado, durante 5, 10 anos.

Os números amigos ensinam que depois desse prazo, a conta poderia diminuir drasticamente, já que não há mais razão para se pagar 70% de uma conta que já foi quitada!

BANCO

O banco diz que os juros são altos ou baixos de acordo com o custo do dinheiro no mercado. Assim deveria ser. Mas, de novo, os números amigos mostram que os depósitos a vista, pelos quais o banco nada paga, custam zero e sequer precisam ser captados no mercado.

Portanto, se a dona Joana põe o salário, a aposentadoria ou a poupança no banco e nada cobra por esse recurso, por que o tomador de empréstimo paga 20, 30% ao mês?

Perguntinha marota que ministros e banqueiros evitam responder, mas que os números respondem todos os dias; essa imoral diferença vai para o bolso do banqueiro todos os dias.

LIQUIDAÇÃO

Se o vendeiro pode anunciar um desconto de 30, 40, 50% “em todo o estoque” é porque vinha cobrando mais do que o preço normal. Só os bobos acreditam. E números não são bobos.

ESTOQUE

Supermercados compram 10 mil unidades de leite em pó ou óleo de cozinha. Acrescenta sua margem de lucro e começa a vender. Quando só tem 5 mil daquelas unidades, compra outras 5 mil e renova o estoque.

Num pequeno passe de mágica, reajusta o estoque antigo pelo preço das últimas latas adquiridas, cujo preço sempre sobe no Brasil.

Essa diferença? Bem, ensinam os números, para o consumidor é que não vai.

Essas são continhas muito simples, que ocorrem no dia-a-dia de todos nós. Não percebemos ou não temos paciência para fazer cálculos. Contando com isso, os tubarões de sempre seguem nos esfolando pela vida.

Quero só entender…

As empresas de ônibus, representadas por sua associação de classe, concordam em abrir mão de um contrato de concessão que iria até 2014?

A prefeitura, que tinha tudo na mão para exigir melhorias no sistema de transporte justamente com base no seu contrato vigente, resolve relicitar o sistema e rescindir o contrato com as atuais empresas?

Dentro de seis meses, as empresas “concordam” em rescindir seu longo contrato, sem cobrar nenhuma multa nem uma reparação pelo rompimento antecipado?

A prefeitura conseguiu rescindir o contrato de concessão sem dar nada em troca?

Não haverá aumento de tarifa?

Não haverá compensação ou indenização?

As empresas, que concordam em rescindir seu contrato sem compensação alguma e sem nenhuma disputa judicial, ainda vão participar do processo licitatório?

Mas por que alguém que abre mão de um contrato tão longo resolve fazer outro?

Há alguma garantia de que as empresas atuais “continuarão” à frente do transporte coletivo urbano de Campo Grande?

Se houver essa garantia, o povo não sairá perdendo?

As empresas terão de pagar pedágio para ganhar essa licitação?

Não é esquisito voltar a operar um sistema de que desistiu antes do prazo final?

As novas empresas se obrigarão a contratar os funcionários das atuais?

Como farão isso se não há lei que obrigue tal sacrifício?

Esse acordo está muito estranho, Prefeito.

Mesmo entendendo muito bem como funcionam as licitações, não atino com o que está sendo negociado entre Prefeitura e empresas.

E eu só quero entender.

 

Saco de pancada

Vejo matéria triste, de chorar, sobre transporte coletivo urbano. Chama-me a atenção a imagem de um jovem, olhos claros, magro, relatando que precisa pegar quatro ônibus para chegar a sua casa. “Quando dá”, diz ele, toma banho e corre pela escola. Sem ônibus, porque não tem linha para levá-lo. Precisa de carona.

Isso, num país que precisa de jovens estudando, se formando, subindo na pirâmide social. Mas é também, reconheço, um país sem futuro. Ano após ano, vota-se, elegem-se vereadores, deputados, prefeitos, governadores mas a situação do povo é a mesma: servir de saco de pancadas ou de sparring para político bater e malhar os mais humildes.

Uma, duas vezes, ao ano, pelo menos, dou um passeio pelas páginas de meu livro “Cidadão de Festim”, que relata direitos de papel, que não conseguimos transformar em realidade. O livro continua atual, pois ainda estamos na mesma.

Temos segurança na Constituição, mas precisamos de cerca elétrica, olho mágico, alarmes, guardas, carro blindado. A segurança constitucional é uma balela.

Temos direito à educação, mas precisamos colocar nossos filhos em escolas particulares sob pena de vê-los barrados em vestibulares e ENEMs da vida. Nas escolas públicas, não temos professores, não temos segurança, não temos computadores, não temos, enfim, educação. Não temos, portanto, futuro. Não teremos um Prêmio Nobel.

Hoje a TV mostrou pessoas implorando – sim, implorando!!! – por assistência médica. Um motorista, mão inchada, estava de meio-dia às 17 horas esperando um miserável analgésico! Médico? Utopia. Um ancião, lágrimas sinceras nos olhos, dizendo que “se a gente vem aqui é porque precisa”. De cortar o coração.

Pouco antes, vi ônibus superlotados, com goteiras, com gente coom sardinhas, sem logística, sem número adequado de veículos, penalizando o povo. Rostos sofridos, povo à beira da desistência, sem alternativa, sem saída. A única coisa certa nesse “jogo mortal” é a tarifa, que será reajustada.

Os crápulas não vêem esses programas. Nem deveriam ver: seu papel é embarcar, de vez em quando, em um ônibus, para conferir a qualidade do transporte público. Ir a postos de saúde para ver in loco o sofrimento do povo que paga tributos de várias formas.

Onde estão os vereadores? Onde estão os assessores técnicos, os secretários municipais? Eu digo: à espera de seus vencimentos. À espera de seus holerites, de seus aumentos periódicos. As empresas de ônibus, atrás de seus aumentos de tarifa.

Crápulas pode parecer uma palavra muito pesada. Mas vou mantê-la, para conservar um mínimo de minha dignidade.

Todos esperam uma vantagem dessa vaca de tetas generosas, chamada Tesouro. Todos terão seu momento de mamar. Todos estarão felizes.

Só o povo espera eternamente por justiça.

Zezinho e os lobos

Venho prestando homenagens constantes a Thomas Hobbes, que enfatizava ser o homem lobo do homem. Na sua esteira, vieram Montesquieu, sem falar em Maquiavel, para quem o homem não tem mesmo conserto ou ajuste em sua maldade natural.

Em alguns artigos, eu disse que o homem ainda pode descer muito mais em sua gradação de crueldade. Pensava, na época, num pai que introduziu centenas de agulhas no corpo de seu filhinho.  Ou nos saqueadores de casas abandonadas pelas enchentes.

Um policial amigo contou-me que uma boliviana abriu o cadáver do pequeno filho, encheu de cocaína e rumou para uma grande capital, onde pessoas bem aquinhoadas pela sorte, aparentando ser normal, esperavam pela entrega da droga.

Não tive coragem de perguntar se o bebê morreu de causa natural.

Mas há, na periferia ou mesmo nos grandes centros, diárias manifestações de maldade natural, onde o ser humano não é diferente do pior dos animais.

Há uma tendência para o mal que não escolhe rico, pobre, escala social e nem mesmo respeita grupos religiosos que, presume-se, deveriam ser dotados de bondade com sinal de ligação com Deus.

Na casinha simples, de um bairro longínquo de Campo Grande, acomoda-se (porque o verbo viver não se pode aplicar àquela concentração de fome, sofrimento, doença e desespero) uma família esquecida por Deus.

Digo por Deus, pois o dia todo aquele casebre é frequentadíssimo por moradores da região que, se não entram em fila, pelo menos mantêm uma incrivelmente bem organizada agenda.

A razão de tanto ajuntamento é Zezinho, um menino de no máximo 14 anos, portador da Síndrome de Down, a quem a maliciosa criatividade e o engenho da vizinhança conferiu tal status de utilidade que confirma tudo o que foi dito acima por Hobbes e Maquiavel.

Para quem se apressou em identificar nessa visitação um comando bíblico (“estive nu e me vestistes, doente e me visitastes”), digo que que a família é, sim, evangélica, dessas que passam a madrugada procurando milagres na TV.

Mas, ao contrário do mandamento bíblico, Zezinho é usado pelos vizinhos para prover viagens grátis nos ônibus, onde o acompanhante do deficiente não paga.  Não-raro, o útil Zezinho faz duas ou três viagens ao centro da cidade.

– No Natal ele chegou a fazer cinco viagens! – orgulha-se a mãe.

Suarento, cansado, amarrotado de sacolejar nos coletivos, Zezinho mal chega em casa, toma um copo dágua e lá vem um outro vizinho levá-lo ao passeio utilitário.  Anda tanto servindo aos vizinhos safados que, ao invés de ser usado como muleta e, frequentemente carregar pacotes, poderia cobrar como guia turístico.

Perguntei, apenas por perguntar, já que a pobreza da vizinhança não justificava tal hipótese, se Zezinho ganhava alguma coisa, algum trocado, algum remédio, para ser tão usado pelos vizinhos.

– De vez em quando, me dão  um picolé – responde o próprio Zezinho, com as dificuldades naturais de sua enfermidade.

Saí pensando que essa história confirma: o homem é lobo do homem e, deixado por sua própria conta, sem leis ou sanções, é capaz de maldades que ainda não somos capazes de descrever.