Calhordas

Ao morrer, incensada como “o primeiro nu frontal” do cinema brasileiro, a grande atriz Norma Bengel passou para o andar de cima como se fosse uma Ingrid Bergman. O que poucos se lembram e, com a morte, lembrar-se-ão menos ainda, é que Norma morreu devendo perto de um milhão de reais aos cofres públicos, por empréstimos em filmes mal-sucedidos e projetos mal administrados.

Guilherme Fontes, um lourinho descascado que perambulou pelo cinema e pela TV em filmes totalmente inúteis e sem qualidade (não me lembro de nenhum título, felizmente), está atolado em dívidas pelos mesmos motivos. Usou um projeto sobre Chateaubriand (Chatô) para queimar rios de dinheiro público, fugiu, esgueirou-se e não pagou a conta.

Ivete Sangalo, figurinha emplumada, meteu a mão em 700 mil para fazer um show no Nordeste, caso que, certamente, não é o único nem será o último.

Uma feira literária internacional levou um enorme grupo de deslumbrados “literatos” brasileiros dos quais nem os vizinhos ouviram falar. Além de agregar ao grupo os chamados cotistas (negros, índios, sem teto e sem terra…) para fazer o politicamente correto, o governo queimou uma grana amoada na aventura. Para que?  Para turismo, simples turismo, já que desse passeio patrocinado não voltarão autores melhores, sequer medianos, sequer medíocres.

Por estas plagas, um notório artista de nossas terras, à frente de uma OSCIP que pretendia defender o Pantanal, levou “artistas” pantaneiros a Paris, numa excursão para “divulgar a nossa música”, falar de onças, corixos, jacarés e tuiuiús. Queimou perto de um milhão de reais e a figurinha carimbada andou apertada pelo Ministério Público até que uma mão salvadora colocou mais dinheiro público nosso para salvar o violeiro da cadeia.

Esse breve e não exaustivo relato é para entrar na matéria de Veja desta semana, que aborda a questão das biografias. Roberto Carlos, Caetano, Chico e Gil, além de outros menos notórios, encabeçam campanha para exigir pagamento por suas biografias e querem o direito de exercer censura prévia contra os biógrafos.

Não entrarei na parte que os denuncia como antigos militantes contra a censura (“é proibido proibir”…) que, agora, querem ser censores.

Destaco apenas que são todos bebês crescidos que vivem nas tetas do governo, em projetos da Lei Rouanet, por valores a que nenhum pobre mortal chegará perto, sequer.

Gil, quando ministro da Cultura, patrocinou caravanas de desocupados por África, Europa e lugares remotos do mundo, sempre à custa da viúva.

Chico, sim, aquele mesmo, que se escondia sob pseudônimos (Jorginho da Adelaide) para fugir à censura, que, em Cuba, negou a humanitária visita a Pablo Milanés, parceiro em Yolanda, que estava preso que queria vê-lo, editou sob patrocínio público sua discografia completa.

Nenhum deles tem moral para censurar seja o que for. Querem ser famosos mas, como diz a revista, não querem pagar o preço da fama. Além do que, biografia autorizada

O fato é que se podem contar com os beneplácitos do dinheiro fácil, dos cofres generosos do poder público, estão muito bem, sorridentes na mídia nacional.

Na hora do palpite, falam besteira. Deveriam se calar e continuar a fazer música. Só.

Calhordas.