Burro de carga

Depois de amargar seis anos à espera de uma aposentadoria do INSS, que veio como dádiva, esmola, na forma de 800 reais por mais de cinquenta anos de trabalho, quarenta dos quais registrados com recolhimentos aos cofres da viúva, não há muito o que comemorar em termos de perspectiva para o futuro.

A verdade é que, aos 66, continuo trabalhando em jornadas inimagináveis para o trabalhador comum, certo de que cinco meses de cada ano eu trabalho só para pagar tributos, que escoam pelo bueiro tão-logo chegam a Brasília ou às burras estaduais e municipais.

Graças a esse esforço que nós brasileiros fazemos todo ano, os políticos podem aumentar os próprios salários e gastar a verba pública em eventos suntuosos, morar em prédios funcionais, voar de graça pelos céus do Brasil, tratar-se em  hospitais de primeiro mundo quando têm uma simples cefaleia e se permitir acumular riqueza ilícita em paraísos fiscais.

Mais um ano se foi e vem 2013 sem perspectiva de nenhuma mudança nesse ritual cruel e cansativo da desfaçatez.

Não há revolução, não há movimento de revolta, não há inconformismo, não há um gesto de repulsa. Vereadores que aumentam seus salários, ex-prefeitos que vendem a cidade a poderosos grupos privados, uma massa disforme que caminha para o matadouro todos os dias, em busca de um mísero salário mínimo.

Quando um desses pobres diabos cai doente, resta a fila do SUS, os hospitais sem recursos, sem atendimento adequado, a receita sem remédio, o remédio sem resolutividade.

Como diziam os grandes revolucionários do passado, eles mesmos desapontados com os resultados de sua luta histórica,  não há mudança sem luta, sem mobilização.

Isso, para os revolucionários. Para os burros de carga, os que trabalham para manter a máquina predadora e voraz, a mobilização está longe de acontecer.

A cada eleição, voltamos às urnas para eleger o mesmo grupo de aproveitadores que irão gravitar em torno do poder em busca de suas sinecuras e privilégios. Fizemos nosso papel e já podemos voltar para casa, vestir o arreio e subir a colina do trabalho.

Então, só me resta desejar um novo ano de servidão pacífica e modorrenta, que continuará fazendo a felicidade dos Renans, Sarneys, Malufs, Genoínos, Zés Dirceus, para ficar apenas nos mais conhecidos beneficiários de nosso suor.

Cifras e Sonhos

Sylvia Cesco

Esta não é minha seara: pensar, falar e muito menos escrever sobre cifras e cifrões. Mas mantenho em meus recantos de mim mesma o sagrado lugar do sempre aprender  e confesso que é nas  semanas noelinas que este lugar se aflora com maior intensidade. Penso que é assim com outras pessoas também: nos tornamos mais tolerantes, mais pacientes para  ouvir o outro,  as nossas bem-querências estão mais disponíveis para esquecer a palavra mal falada, o gesto da indiferença, o meio riso disfarçado, a fina e  sutil  ironia de quem quer testar nossa sensibilidade…. Enfim, sempre vivencio os últimos dias de cada ano não como a época da colheita, mas como aquele “tempo propício,  profícua estação de fecundar o chão,” como canta Milton. E neste  cio da terra, há que semear os grãos. Se acolhidos, poderão frutificar, quem sabe?,  neste solo cerradense que temos por herança.

Feitos tamanhos prolegômenos ( brincadeirinha, não dê importância a este palavraço), passemos ao que se segue. Amanheci ouvindo falar num tal de Prêmio da Virada. A expressão me chegou numa roda de jovens amigos e amigas ( havia também dois casais já  amadurecidos pelos roçados da vida…). Assunto: o prêmio que será sorteado pela Caixa Econômica, (Econômica? Pressinto que este adjetivo qualificativo esteja na hora de mudar ),  no próximo dia 31 de dezembro.  Na roda que roda, a previsão está beirando a cifra dos 170 milhões de reais. Recorrendo aos meus gnomos e duendes que sempre me socorrem em ocasiões de grande ignorância da minha parte– e esta é uma delas- fui informada de que existe por aí um ou um grupo de brasileiros  predestinados ganhar a quantia- pasme- de mais de cem milhões de reais. Não tenho idéia do que isto seja. (E nem quero ter. Vai que eu caia em tentação de fazer uma aposta e ser possuída por sofrimentos ditados por números…Isso é lá pra quem tem garra…. sou frágil demais pra conviver com a angústia das possibilidades…).Mais de 150 milhões!  Nem sei porque me vieram à mente os juízeslalaus, o mágico cordão dos mensaleiros, os antigos ( e novos) políticos a quem “Deus costuma ajudar” ( não foi assim, nos idos 1993, com o baiano João Alves ?). Tentei intrincadas equações, puxei da estante meu velho alfarrábio do Ary Quintella, meu precioso e bem guardado volume de Admissão ao Ginásio, e outros tais. Não puderam me ajudar. Em nenhum deles vi qualquer quantia com tantos zeros. No meu tempo, acho que a matemática da maioria dos brasileiros, – e dos antigos  ferroviários, incluindo meu pai -, ainda era aritmética, e o os números  tinham um limite  de zeros.

Trouxe o passado ao presente, com música e futebol: quanto ganha o Rei para se apresentar uma vez por ano, ( e olha que lá se vão mais de duas décadas…),  sempre em imaculado terno branco, nas telinhas globais, com seu  surrado “são tantas emoções?” Tão surrado que RC já nem abre mais a boca: o terno e a platéia cantam por ele. Quanto ganham as joelmascalypsos para sacudir a cabeleira pra frente e pra trás, sempre de barriguinha de fora ( justiça seja feita: pra idade está bem saradona  Mas, como não existe mulher feia e sim pobre, deixa pra lá, que isto não faz parte desta escrivinhação). Ah, têm alguns luanssantanas, de oblíquo olhar capitulino,  ou loiros telós e suas delícias… Toda essa parafernália por certo não é matéria de poesia, como diz Manoel, mas de cifra.  E existem ainda os neymares, romários, messis, ronaldos, etc, etc, etc. Tudo matéria de cifra que não se decifra. E o que têm feito esses eleitos pelas ricas cifras para interferir na pobre realidade brasileira, criando empresas, gerando empregos, investindo  na qualificação de trabalhadores? Que eu saiba,  muitos mantêm programas assistenciais, ( alguns até educacionais), para crianças e jovens,  e dormem tranqüilos. Estão fazendo sua parte. Estão cantando, jogando, fazendo política e guardando dinheiro, investindo em si mesmos e familiares, e não  na geração de trabalho e renda para outros brasileiros, abrindo pequenos – ou grandes- negócios, que deveriam gerenciar cuidadosamente para que não fossem à bancarrota; ou seja, deveriam se fazer de trabalhadores,  contribuindo com a economia do país. Dirão que minha visão ainda é capitalista, pensando na abertura de novas empresas privadas.  Que seja. Depois dos modelos falidos de Cuba, União Soviética, Coréia do Norte, não dá pra ser complacente  com qualquer regime denominado erroneamente de comunista/socialista,  haja vista que essas ( e outras) nações citadas são mesmo totalitaristas da pior espécie.  Mas e o Prêmio da Grande Virada?  Ah, sim, voltemos a ele. Não teria como achar um meio de multiplicar esse prêmio, tornando-o em vários outros de  menores cifras para que mais e mais brasileiros também  ganhassem  e gerenciassem esses recursos de modo mais adequado à nossa realidade? Mais prêmios, menos cifras, mais ganhadores, mais sonhos realizados. Como vê, as vantagens são maiores. Ou será, como expliquei no começo, que  me meti em conversa para a qual não fui chamada? Perdão. É que alguém já disse certa vez:   “tive um sonho….”

 

Vendilhões

Passei os últimos dias do ano em Rio Verde, numa pousada tranqüila. Aliás, uma das últimas em que você escapa de ouvir pagode em máximo volume derramando-se de cinco, dez porta-malas abertos e caixas de som de potência insana.

Verdade seja dita, quando se escapa do pagode é música sertaneja em igual calibre.

Por curiosidade, liguei a TV, altas horas, para estimular o sono e foi aí que me dei conta de que a TV brasileira não tem arte nem cultura, limitando-se a um desfile de vendilhões.

Incrível. Fiz um balanço, embora saiba, desde já, que não repassei todos os programas. Num deles, falava Suplicy, numa reprise da entrevista do novo presidente do Banco Central no Senado. Sonolência à parte, que é o que provoca ouvir Suplicy, o novo controlador da moeda vendia ilusões de crescimento e controle sobre a inflação.

Adiante, pastores, vários, indo de Soares a Valdemiro, passando por Malafaia e voando baixo na região da Rede Aparecida, todos vendendo a vida eterna em módicas prestações, onde o dízimo é apenas um antigo referencial.

Mais um canal, vendem-se cintas modeladoras, aparelhos de ginástica, livros, jóias, cavalos de raça, touros reprodutores, automóveis, adubos e churrasqueiras de George Foreman.

“Ligue já”, “o primeiro que ligar”, “se você ligar agora”, leva de graça mais este ou aquele item mágico.

Nos intervalos, cartões de crédito, cheque especial, bancos, cooperativas de crédito e financeiras de todos os tipos, atrás dos salários do aposentado, o tal crédito consignado.

Como não poderia deixar passar em branco, a própria TV a Cabo faz sua propaganda, apresentando e vendendo canais que você nunca vai assistir (canais em alemão, russo, Discovery Kids, desenhos e programas inúteis que só fariam sentido se seus filhos estivessem com 10 anos. E já estão com 30!

A curva da memória levou-me a um distante Natal de 1991, quando estive pela primeira vez na Alemanha. Na cama, liguei a TV e passeei pela TV estatal. Havia pelo menos quatro canais com música clássica, com música popular, um de notícias e um programa sobre teatro, até onde pude perceber, já que não falava a língua de Göethe.

Sou um privativista inveterado, que acha nociva qualquer intervenção do Estado, especialmente, nas artes. Mas ao que vi nas TVs estatais alemã, inglesa e francesa, penso que não seria mal uma TV pública por aqui.

Especialmente, quando se escapa de bobagens como BBB, Fazenda e o novelório global, e descobre-se que não há vida inteligente na TV. Só uma grande feira, onde, de alma a chinelos, tudo está à venda.

País dos cordeiros

“Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca”.

Essa imagem, no Livro de Isaías, diz muito sobre o nosso destino de submissão, nossa vocação para escravos, nosso pendor para o sofrimento calado, conformado.

A escolha do animal é perfeita. Os que entendem de matadouros, sabem que os bois, os porcos e a maioria dos animais ali sacrificados berram a plenos pulmões, em sua mensagem de desespero.

A ovelha, não. O cordeiro, não. Esses morrem em silêncio, como se fosse um destino inexorável. Nada que possa ser feito, é a mensagem.

“…como cordeiro foi levado ao matadouro…”

Por que escolhi esse tema? Por uma manchete que li: passagens aéreas aumentam 45% no fim de ano.

Por que as companhias aéreas aumentam as passagens em quase 50%? E não só as passagens, mas hotéis, pousadas, alimentos, transporte terrestre.

O couro dos cordeiros está em alta. Aqueles cordeiros, marchando para o matadouro, em silêncio, recebendo o golpe final sem um gemido, sem um eco, sem protesto.

“…e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca”.

No Livro de Isaías, capítulo 53, verso 7, um painel do que seria a marcha de Cristo através da Via Crucis.

Sem lamento. Sem oposição.

Os hotéis, as companhias aéreas, os supermercados aumentam seus preços, abusivamente, porque sabem que o consumidor não pode escapar, não tem como se furtar desse roubo.

Enfiam a faca. “Tiram o atraso”, nas palavras de qualquer pasteleiro de feira.

Círculo vicioso: os piratas aumentam os preços porque os cordeiros não chiam. Estes não chiam, os piratas se acostumam e aumentam ainda mais seus produtos. Não há escapatória.

Não há esperança. Toda vez que nos lançarmos aflitivamente ao consumo, os bandidos aumentarão os preços.

O silêncio é um sinal de conformismo, de submissão que afetará toda a sociedade. Deputados aumentarão seus vencimentos em 61% porque estamos em silêncio. Nas assembléias legislativas, nas câmaras municipais de todo o país, os vencimentos aumentarão em cascata porque estaremos em silêncio, marchando como cordeiros para o matadouro.

O Brasil continuará o mesmo. Trabalharemos em silêncio, para pagar impostos, até o mês de maio, o que me faz pensar que éramos nós a referência no livro de Isaías. Nós, os cordeiros.

Anjos existem

Uma “Veja” dessas de fim de ano trouxe uma matéria sobre anjos (“O anjo é pop”). Interessante mas sem novidades.

Mostra o interesse crescente sobre livros, filmes e tudo o que diga respeito a esses entes.

Anjos da guarda, anjos caídos, anjos, enfim, mais falados e badalados do que conhecidos e, menos ainda, entendidos.

Descrente desses temas, deposito-os na mesma linha de montagem do Lobisomem, do Saci Pererê, do Caipora, da Mãe-Dágua e da Mula-sem-cabeça.

Mas, de vez em quando, um episódio, uma pessoa, um olhar, um gesto me fazem balançar em meu ceticismo, em minha descrença. E a primeira expressão que me assalta é: os anjos existem, e como!

Hoje pela manhã, estava acompanhando minha mãe (84 anos) no supermercado. Tínhamos poucas compras mas a fila estava enorme.

À frente, uma moça, vinte e cinco anos, se tanto, volta-se para nós e diz, delicada, mas entusiasticamente: vocês podem ir ao guichê 5, que é preferencial para idosos e está vazio.

Olhar bondoso, não nos permitiu hesitação. Saiu da fila, ela mesma, tomou minha mãe e seus pequenos pacotes e levou-a ao guichê 5 sem esperar minha reação.

Quando passamos pelo caixa, voltei o meu olhar agradecido para aquela moça, e, acreditem, pareceu-me ver um halo, um não sei que de diferente naquele mundo consumista onde todos estão defendendo seu próprio espaço, seus próprios interesses.

Alguém preocupado com o próximo? Não-só preocupado, mas disposto a sair do conforto e ajudar, influir, transformar intenção em gesto.

Falei aqui, há poucos dias, de uma amiga que, num dia nublado, ameaçando chuva, viu uma mulher maltrapilha, parada em uma esquina, com um carrinho de mão onde se empilhavam essas quinquilharias que apanham nos lixos domésticos.

Ela deu a volta na quadra com o carro, alcançou a mulher e perguntou-lhe se tinha filhos. “Quatro”, respondeu a andarilha. “A última tem dois anos”. A amiga tirou da bolsa 50 reais e deu à mulher que, vendo a nota, mal podia acreditar. “Toma”, disse o anjo ocasional, “compre algum alimento para eles”.

Assim, sem nome, sem endereço, sem alarde. Um gesto inesperado, estranho para os padrões deste mundo a que nos acostumamos.

Um contador, também amigo, viu um conhecido em um dia especialmente abrasador, suarento, à beira de uma síncope. O pobre homem era representante desses produtos vendidos a domicílio (Avon, Amway, Natura, não sei bem).

O amigo parou e deu carona ao vendedor até um bairro distante. Vale dizer, saiu de sua rotina, abriu suas asas e voou com ele até seu domicilio.

Pra finalizar, menos de dois meses, uma idosa estava comprando numa famosa rede de farmácias. Contava trocados para comprar alguns medicamentos de uso continuado e, por isso mesmo, caros.

O anjo (cujo nome omitirei, pois anjos não devem ter nomes) orientou a idosa a comprar em uma farmácia (S. Leopoldo) onde os medicamentos são mais baratos e ainda parcelam as compras.

Só que a orientação não lhe bastava: colocou a idosa no carro, atravessou a cidade até a farmácia recomendada e só descansou quando a idosa chegou à sua casa. Espantada com aquele atendimento estranho e absolutamente inusitado para este mundo.

Conto estes episódios recentes para gente como o meu leitor que, certamente, terá outros exemplos que ainda não conheço (terei prazer em coletá-los e publicá-los).

Essas pessoas, decididamente, são anjos. Ou melhor, se existem os anjos, eles serão exatamente como esses desconhecidos benfeitores.

Como disse, esses episódios e personagens balançam meu descrédito. Quem sou eu para duvidar que existem anjos entre nós.

Kit de sobrevivência

Meu kit de sobrevivência em fim (e início) de ano tem sido infalível. Até agora.

Eu já não pegava bala perdida, pois não fico na praia ou em aglomerações de fim de ano. Fogos de artifício, festivais de Iemanjá, escolas de samba, passeatas ou ajuntamentos em geral.

Mesmo com tantos cuidados, ainda é possível morrer de bala perdida, mas ela terá de fazer uma curva incrível para chegar onde estou.

Outro costume sólido que mantenho há anos: não vou a shopping Center em fim de ano. Claro que não costumo ir ao shopping também em datas ditas especiais (Dia das Mães, das Crianças, dos Namorados e assim por diante). Fujo como Drácula da estaca de madeira.

Mas, decididamente, em final e início de ano, o chamado período de “virada”, não vou a shopping de jeito nenhum. Aquela aflição, filas, vozerio, aqueles enfeites ridículos (meio tapete empoeirado, guirlandas, bolinhas e neve falsa) me tiram a paciência.

Liquidações falsas, em que o lojista aumenta o preço e dá desconto para pegar bobos. No shopping não há amor, espírito do Natal, confraternização e outras bobagens. Ali há vendedores querendo tomar dinheiro para pagar o 13º salário, as férias do pessoal e pagar as faturas da indústria.

Perambulando pelos corredores, o povo todo, na ilusão de que Jesus caminha ao seu lado, ao som da chatíssima trilha sonora de Jingle Bells e Silent Night (pra piorar, no Brasil ainda se ouve a harpa de um tal de Luís Bordon que é um chute nos países baixos).

Também não pego estrada. De jeito nenhum. Quando todos viajam, eu me recolho. Motoristas bêbados, alta velocidade, ultrapassagens proibidas, famílias entulhadas nos carros, comendo farofa, tomando refrigerante e jogando copos e pets pela janela. Essas são as nossas estradas.

Todos correndo para chegar a algum lugar e disputando a bandeirada final rumo ao IML.

Da mesma forma, não viajo nos feriados. O lema é simples. Se todos viajam, fique em casa.

A menos que seja um vôo internacional, de modo geral, evito aeroportos. Embora eu goste muito de ler, especialmente, freqüentar livrarias de aeroportos, faço isso sob protesto. Voluntariamente, evito. Sofrimento, dormir sobre malas, discutir com balconistas de empresa aérea, tudo isso deixo aos demais passageiros. Há quem goste.

Você deve estar me achando um cara amargo. É possível. Mas, no momento, em que milhares apinham-se em shoppings, aeroportos e nos campeonatos da morte, no estradão brasileiro, estou olhando minha piscina, azul, sem uréia, uma rede branquinha, recém-lavada. Pego um Alma Viva (cabernet sauvignon) chileno na adega.

Ao lado da rede, numa cadeira, aguardam-me palavras cruzadas, um exemplar de Enigmas de Coquetel e um surrado exemplar dos “Ensaios” de Emerson e um “Walden”, de Henry David Thoreau. Não tenho cães nem filhos pequenos.

Esse é meu jeito de ser amargo.