Bola sete

Em 1958, ano da primeira Copa do Mundo vencida por Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Vavá e companhia, um dos meus sonhos de menino era ser pacoteiro das Casas Pernambucanas. Em busca desse sonho, eu rondava as lojas da 14 de Julho, ali pelas redondezas (entre C Mariano e Dom Aquino), esgrimindo a infalível pergunta: “Precisa de pacoteiro?”.  Cheguei aos 12 anos, dia após dia, ouvindo “nãos”.

Naquela quadra estavam as Casas Buri, a Tipografia N. S. Aparecida, as Lojas Singer (onde minha mãe arrumou um estágio para mim e de onde saí um razoável montador de máquinas de costura), o então majestoso Hotel Americano.  Nas ruas Dom Aquino e Cândido Mariano tínhamos o Hotel Canadá, Hotel Rio, ambos de menor porte, o Restaurante Gato que Ri, o Café Haiti, o Cine Santa Helena e outros que a minha memória não apaga.

Na verdade, minha fixação era no corte do Durex, aquela fita adesiva que ficava em um aparelhinho com uma parte serrilhada. Puxava-se um pedacinho de fita adesiva, colava na parte serrilhada e “crec”!  Hoje, passado mais de meio século, pergunto-me o que vai pela cabeça de um pirralho ao querer virar “pacoteiro” para serrar um pedacinho de fita durex?

Examinando bem, essa fixação não era maior ou menor do que fingir que era Dom Chicote, Cavaleiro Negro, Búfalo Bill, Polícia Montada, Flecha Ligeira, entre outros heróis de gibi.  Esses personagens deixavam a mente fervilhando de mil possibilidades.

Minha mãe (batista rigorosa e implacável) dizia que se eu fosse encontrado no cinema quando Jesus voltasse, iria direto ao inferno. Então, quando clandestinamente, eu furtava parte de meu próprio dinheiro ganho como engraxate e ia à matinê no S Helena, sentava-me na última fileira de cadeiras. Quando ouvisse trovão e raio lá fora, anunciando a volta do Messias, eu saltaria direto para a calçada e não seria apanhado no cinema de jeito nenhum.  Foi nessa época que adquiri o hábito de ligar um ouvido no assunto principal e outro no entorno.

Voltando às Pernambucanas, meu objetivo principal era fazer o pacote, aquele embrulho quadradinho, o tecido dobrado, de preferência aquele tecido encorpado, que permitia um quadrado duro (o pacote mole e amorfo ficava por conta da seda, que era escorregadio) com as pontas do papel simetricamente trianguladas e, novamente, a fita adesiva, “crec” cortando e colando. Pronto, ali estava o pacote, naquele papel pardo de fazendeiro.

Um dia, precisamente aos 12 anos, deixaram-me “trabalhar” não oficialmente nas Pernambucanas, onde, naquele tempo, até os pirralhos usavam gravata. Ali comecei como varredor, porque antes dos 14 não me era permitido ficar no balcão de pacotes. Meu trabalho era espalhar pó de serragem úmido pelo chão e varrer, o que inibia o levantamento de pó em toda a loja.  Nas horas vagas, claro, ficava namorando o trabalho dos pacoteiros e aquele barulhinho mágico… crec, crec, crec…

Fascinavam-me outros encantos da loja, como arrumar (enrolar) de novo as peças de tecido, especialmente gabardina, linho e brim, que os vendedores mais experientes faziam com aquele barulho ritmado, levantando a peça e batendo no balcão, vapt-vupt, vapt-vupt…

Meu encantamento era tal que, se não me expulsassem para casa na hora do almoço, eu ficava na loja, observando e gozando de todas as novidades daquele novo mundo, há tanto esperado. Claro que o motivo desse apego era o pouco movimento naquele horário, quando alguns pacoteiros tinham tempo de me ensinar a fazer um pacotinho aqui, outro ali.

Outra curiosidade das Pernambucanas foi a peculiar “seleção” de fregueses feita pelos vendedores. Normalmente, eles ficavam enfileirados ao longo das portas da loja, aguardando a entrada da clientela, já que eram comissionados. De vez em quando, um gritava “olha o boi!” (de boiadeiro) e todos passavam a disputar o cliente abastado, reconhecido como fazendeiro pelo chapéu, botas, camisa xadrez e muito dinheiro vivo no bolso. Quem gritara primeiro, fazia a generosa venda.

Ao contrário, quando alguém gritava “bola sete!” todos os vendedores corriam para o banheiro e a frente da loja se esvaziava. Tratava-se daquela anciã, encurvada, em busca de meio metro de “morim” ou de “chita” para algum remendo. Os vendedores largavam a pobrezinha na loja, com seu retalhinho de modelo procurando uma viv´alma que a atendesse. Eu me sentia o maior vendedor do mundo, pois acabava “atendendo” a “bola sete” e percorrendo a loja toda em busca de seu ínfimo pedido. Na hora “h”, chamava uma vítima, um vendedor fugitivo para medir e cortar o pedido. O que para eles era um incômodo, para mim era a glória!

O outro encanto das Lojas Pernambucanas eu experimentei, para minha alegria e desgraça, num sábado ensolarado. Os pacotes maiores, com a encomenda dos boiadeiros, eram entregues em uma pequena plataforma quadrada, com rolemãs (ou rolimãs,  como aprendi), puxada por uma corda.  Os pacotes eram empilhados na plataforma e o entregador a puxava até o hotel onde o cliente se hospedara.

Puxar aquele carrinho era tudo o que um moleque, ainda dado a fantasias, podia querer. Os pacotes que me deram eram destinados a um hotel na rua Maracaju, a uma quadra e meia da loja. Lá fui eu puxando, sem muito esforço, quatro imensos pacotes, de cobertores, provalmente. O problema é que ao atravessar a Cândido Mariano, ouvi um barulho característico. O carrinho, sob o peso dos pacotes, simplesmente, disparou e me ultrapassou, tornando-se um bólido à minha frente, que não consegui segurar.

Lá se foi o carrinho rumo à Maracaju, onde, em pleno cruzamento, espatifaram-se os fardos espalhando brim, cobertores e xadrez para todo lado.  O desespero foi tanto que corri para casa, em busca de apoio materno, sem me ocorrer de ao menos avisar a loja.

Não fui demitido porque a loja não queria confusão com a Delegacia do Trabalho, já que eu ainda não tinha idade para trabalhar na loja, especialmente, com aquele tipo de atividade. Mas o encanto havia cessado,  quando fui reduzido à cansativa e miserável função de varredor. Pior: sempre havia alguém lembrando-me de minha desastrada aventura.

Mas, cinquenta anos depois, enquanto durou, a experiência foi impagável.

 

 

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Sapato ZasTras

–  Sofri um grande impacto ao ver que a floresta, aquela mata fechada, meu mundo paralelo, um ambiente mágico para os sonhos de um menino, à época gozando meus primeiros dez anos de vida, não existia mais.

Meu amigo disse que havia um rio onde ele se banhava com a gurizada de seu tempo hoje está irreconhecível, tanto em poluição como em assoreamento.

Esses foram os primeiros relatos de Hamilton Medeiros, meu amigo, publicitário e um homem preso, como eu mesmo, aos laços de sua infância na cidade de Nioaque, cidade que, segundo ele, cuja autoridade nesse quesito não contesto, sediou o início da Retirada da Laguna.

Para Hamilton Medeiros,  hoje um cineasta competente, sua primeira vez diante de uma tele de cinema foi em Nioaque, dentro do quartel do Exército, onde, aliás, também tinha padaria, farmácia e as conveniências daquele tempo, em que os militares mandavam e desmandavam no país.

Sua impressão de menino é vívida até hoje por um detalhe pitoresco: ao abrir-se a cortina, a tela exibia em toda sua beleza uma seminua Brigitte Bardot, no esplendor de sua sensualidade. Ousei sugerir que era a mesma foto promocional do filme “E Deus criou a mulher”, que a tornou mundialmente famosa e desejada.

Hamilton prometeu pensar no assunto e ver se estou certo. Pelo seu olha, penso que ele vai consultas a fotos de Bardot.

Iniciei este artigo contando as reminiscências de meu amigo porque gostaria de contar também um pequeno detalhe de minha infância.

Minha mãe comprava para mim um sapato Zas-Tras, feito com sola de pneu, que tinha uma pisada abaulada, do tipo que manda você para frente e para trás, como aqueles patos de mesa. Pra frente, pra trás. Eu odiava por dois motivos: o primeiro deles é que o sapato ZasTras indicava a minha origem paupérrima, com aqueles fios de lona aparecendo na sola lateral.

O segundo é exatamente o motivo que levava mãe a preferir os calçados ZasTras: ele durava toda uma vida. Calçar um ZasTras era uma experiência para sempre. Você não escapava do sapato nem quando o pé crescia, pois a mãe sempre dava um jeito de transformá-lo em um pesado chinelão.

A Sapataria ZasTras, que ficava na 14 de Julho, após a Maracaju, no sentido Centro-São Francisco, uma autêntica e original indústria matogrossense, ainda pode ser lembrada se você é cliente da MB Vídeo (seguramente o maior acervo de filmes clássicos de Mato Grosso do Sul), que pertence a D. Cida, filha do industrial.

Fica aqui o registro para aumentar a já imensa durabilidade dos sapatos ZasTras.

Casa São José

Sonhei com a minha passagem pela Casa São José, de José Guilherme Ribas, na baixadão da 14 de Julho, perto da Maracaju. Ali ficavam o Dragão da Baixada, a Casa União, a Livraria Trouy e outros títulos que a memória tarda em achar no jacá.

Acordo, vejo que são 3:05 da madruga. Um impulso irresistível me leva às teclas e aqui estou, contando coisas de meus 12, 13 anos, se tanto. Sei que não tinha 14 ainda porque essa era a data limite para um de meus sonhos: ser pacoteiro das Casas Pernambucanas ou das Casas Buri, o que primeiro viesse.

O Sr. José, homem franzino, loiro, bigodinho à Errol Flyn, bem vestido, sempre de calça vincada, camisa de manga comprida, fala suave (nunca, nunca o vi alterar a voz com qualquer um de nós), chegava pelas 6 e meia e abria pessoalmente a portinhola de ferro da loja. Quando chegava, lá estávamos os três mosqueteiros, Argemiro, Stanley e eu.

Não precisava de cartão de ponto, de livro ou de relógio. Não me lembro (salvo uma ou duas vezes em que algum empregado adoeceu) de atrasos, justificativas, greves ou desobediência. Menos ainda, de insubordinação.

Aberta a primeira portinha, “enrolávamos” as pesadas portas com um gancho e passávamos à rotina diária de uma grande casa de móveis e eletrodomésticos: espanar (não acredito que estou lembrando isso aqui) os móveis, passar pano úmido no chão, lustrar os móveis com óleo de peroba (sinto o cheiro aqui, em plena madrugada).

Argemiro, o mais fortinho de nós, montava móveis e cuidava de alguns afazeres mais pesados da loja. Stanley, sofisticado, falante, sorridente, cuidava da discoteca, onde LPs, 78 rotações e os 45 compactos (então uma novidade) traziam a música de Délio e Delinha (“casal de onça de mato grosso”), Zilo e Zalo, Tonico e Tinoco (os papas) dividiam espaço com os últimos LPs de capa “acolchoada” da Odeon, Decca e RCA Victor, com Nat King Cole, Elvis Presley, Billy Vaughn e o novato Ray  Conniff.

Eu cuidava dos serviços gerais, ou seja, bucha de canhão. Limpava o chão e aprendia com Argemiro a montar máquinas de costura Singer (que vinham em grandes caixas de papelão, envolvidas em papel embebido em óleo de peroba) e bicicletas, ah!, as bicicletas.

Vê-las saindo da embalagem, rodas, correntes, guidão, selim, catracas, montadas uma a uma, e levantando-se, gloriosas, pretas, lilás, vermelhas, azuis, tudo o que eu sonhava possuir mas montava para quem tinha dinheiro. Mas até que eu as levasse à calçada e entregasse ao novo dono, elas eram todas minhas e de Argemiro, de nossos alicates, chaves de fenda e lustradores. Era um momento único, onde minhas mãos faziam sentido.

O Sr. José cuidava do fechamento dos negócios, enfrentando a pechincha do cliente e, claro, recebendo entradas e prestações.

Na hora do almoço, eu dava um jeito de ficar por ali para “ocupar” o trono de Stanley, abrir as caixas de discos, com aquele cheiro de novo, olhar as capas, colocá-las nos escaninhos da prateleira. “Um dia, antes de ocupar a minha vaga de pacoteiro das Pernambucanas, ainda vou trabalhar de discotecário no lugar do metido do Stanley”, era meu mantra.

Ao final do expediente, eu espanava a Vemaguette do Sr. Ribas, que acumulava poeira durante o dia em frente à loja, apagávamos a luz, fechávamos a loja e íamos para casa.

Assalto? Vandalismo? Risco? Seguro? Inadimplência? São coisas que minha memória não consegue resgatar por absoluta ausência naquele tempo. Não éramos patrão e empregados. Éramos, todos e cada um de nós, a Casa São José e seus tesouros de consumo.

Eu estudava à noite. Não podia prescindir daquele salário. Tinha um sono incontrolável, de vem em quando o professor Jorge Scaff me atirava um pedaço de giz, mas não largava os estudos, não fumava crack, não tinha quadrilha e nem Ministério do Trabalho me proibindo de trabalhar (“porque meninos de 12 anos precisam brincar e ter infância”).

Eu respondo ao Ministério do Trabalho e aos sociochatos e suas teorias: gastei minha infância sendo parte de alguma coisa relevante e aprendendo a viver e a ser o homem e profissional que hoje sou.

Nos finais de ano, o Sr. José, além do salário, nos dava um envelope fechado, com dinheiro vivo. A quantia não sei, mas pela alegria de minha mãe, que a confiscava assim que eu chegava em casa, devia ser um outro salário.

Recibo? Nunca ouvi falar ou assinei, até em função de sua inutilidade à altura de meus quinze anos.

Saí da Casa São José uma ou duas vezes, quando o grego Demetrio Haralampidis (o Mitcho)  contratava meus préstimos de faxineiro na loja ao lado, a Casa União. Aí meu mundo se transformava de móveis e discoteca para xadrez, alvaiade, parafusos, material elétrico e encanamento.

O que me fazia mudar de uma porta para a outra na mesma rua? Mais do que infantil infidelidade, era a mudança de mundos, com um fortíssimo atrativo: a Casa União me permitia fazer entregas pilotando um grande triciclo de carga. Tão grande que a mercadoria corria sérios riscos nas mãos daquele piloto franzino e atrevido, que tinha vergonha de dizer que a tarefa era superior à sua força. Não importa, eu me sentia promovido.

Oito, nove meses, lá estava eu na Casa São José novamente. Nunca me pediram referência, já que era só gritar que um patrão ouvia o outro.

Saí para servir ao Exército. Se você está se perguntando se realizei meu sonho de trabalhar nas Pernambucanas, sim, estive lá por brevíssimos seis meses. O problema é que ainda não tinha 14 anos, idade mínima para ser pacoteiro. Mas aprendi a espalhar serragem molhada no chão e recolhê-la, abolindo o pano de chão. Conhecimento adquirido ou valor agregado, diriam os sábios de hoje. Um novo convite da Casa São José me fez retornar à velha baixada.

Sr. José Guilherme Ribas, Argemiro e Stanley, onde estiverem: por alguma razão vocês me acordaram às três da manhã e acredito que foi para relembrar um tempo de ouro, simples, produtivo e saudoso. Se fui infiel no relato, mandem suas emendas, e chamem-me de novo amanhã.

Dedo no nariz

Isso é uma imagem íntima ou não é? É. Se meu filho ou neto colocar o dedo no nariz, for captado por uma câmera e aparecer no Youtube, haverá uma ação judicial por danos morais. Milionária. Contra a escola, contra quem expôs o vídeo, contra quem gravou, contra o professor que permitiu a coleta da imagem.

São reflexões sobre um projeto que pretende a instalação de câmeras nas escolas para monitorar crianças de até 6 anos. A imagem é protegida constitucionalmente (artigo 5º, X, da Constituição Federal) e pelo Código Civil (artigo 11 a 21, especialmente, o último), sem falar no Estatuto da Infância (Lei 8.069/90).

Os argumentos em defesa do sistema dizem respeito à segurança, à prevenção ao uso de drogas e combate ao tráfico. Outros acrescentam, ainda, a necessidade de se fiscalizar os professores e até mesmo combater a violência em classe.

Do outro lado, os argumentos são respeitáveis. Trata-se de proteger a intimidade das pessoas, direito constitucionalmente garantido. Nenhum temor de ocorrências nefastas, perfeitamente possíveis, justifica a colocação de câmeras para flagrar o dia-a-dia de uma criança.

Um argumento igualmente poderoso é a falta de controle sobre as imagens capturadas. Ninguém sabe o que será feito com essas imagens, com esses filmes, que hoje, podem aparecer, de repente no Orkut, no Youtube, no Facebook e assim por diante.

Para mim, novo é só o projeto, pois o assunto já foi objeto de um artigo meu sobre a permissão que certas escolas dão a fotógrafos e profissionais de cinefotografia para registrar festinhas de fim de ano, formaturas, aniversários e assim por diante. Essas imagens, 200, 300 fotos, talvez mais, ficam em poder do fotógrafo, são atiradas em arquivos-mortos no estúdio. Um dia, lá estão na internet.

No caso das crianças, tanto a captura de imagens sem autorização quanto a comunicação de que as atividades estão sendo gravadas causam danos aos pequenos. Causam estresse, temor, desviando o foco sobre os estudos para concentrá-los em segurança.

Mais importante: sobre a violação da intimidade.

Torço para que a inteligência abra suas asas sobre o programa do Faustão, onde se exibem, sob patrocínio de famosas marcas, aquelas horrendas Videocassetadas do Faustão, onde crianças se esborracham no chão, noivas desabam no altar e toda sorte de situações constrangedoras para os que foram filmados e até para pessoas de bom gosto que estão à frente da TV naquele momento.

Por isso digo: mesmo que o menininho esteja cutucando o nariz, essa imagem faz parte de sua intimidade e não deve ser filmada.