Um país decente

Acabo de votar. 45. Daqui a pouco, teremos o resultado de mais um pleito eleitoral.

Meu voto, quero crer, significou uma declaração de que desejo um país melhor, evoluído, moderno, terra abençoada para viver, produzir e, sobretudo, ser feliz.

Penso que o Brasil ainda pode ser chamado de um país com esperança. Qualquer que seja o resultado das urnas. Mas ainda está longe de ser um país decente.

Um país decente é aquele em que os partidários de um candidato são fiadores de suas propostas, já que nenhum dos lados milita para a desdita dos demais.

Num país decente, os vencedores não são os que tornam quatro anos de mandato uma festa de comemoração e vingança, onde perseguir o adversário é a meta principal e perdoar os erros e as mazelas do eleito, o vírus da impunidade que a todos mata e anula, passa a ser um mecanismo de defesa.

“Estou com fulano para o que der e vier”, sou “cicrano até embaixo dágua”, “não abandono o presidente ou o governador tal mesmo que ele trapaceie, pois prometi  estar a seu lado na tempestade e no bom tempo” são frases em desuso num país decente.

Num país decente a oposição não é o lado que perde, lava as mãos e fica torcendo para o vencedor “quebrar a cara”, cair em desgraça, cometer erros que, afinal, vão prejudicar todos os brasileiros.

Num país que mereça esse nome, a oposição é fiscal das propostas do que venceu e torce para que elas sejam cumpridas, já que ao participar das eleições, todos, opositores e partidários, coonestaram o sistema, avalizaram o processo, tornaram possível a escolha de um dos contendores.

Num país decente, opositores e partidários não abandonam o candidato eleito à própria sorte ou, pior, ao próprio arbítrio, só voltando a discutir política nas próximas eleições. Participar de propostas, projetos, decisões e, sobretudo, fiscalizar a execução é fundamental na democracia de um país que mereça esse nome.

Terminado o pleito, assinada a posse, não é um partido, um homem ou uma mulher que assume o nosso país, mas um presidente, um gerente, um administrador escolhido para gerir o Tesouro Nacional, aplicar eficiente os recursos que vamos gerar com o nosso trabalho, cuidar da saúde, da segurança, do meio-ambiente, da economia, da educação e assim por diante.

Serra ou Dilma terá em mim, após a posse, nem amigo, nem inimigo, apenas um cidadão atento, que ama o seu país e não chuta contra o próprio gol.

E que pensa, sinceramente,  que todos, ao final da contagem, somos responsáveis pelo resultado que emana das urnas.

Essa responsabilidade, distribuída entre perdedores e ganhadores, é que faz um país decente.

A noite dos miseráveis

Escrito em 12/09/2003

Zero hora. Do 15º andar, contemplo Campo Grande, já adormecida como uma cidade que sempre copiou mais São Paulo do que o Rio de Janeiro. Aqui a vida noturna dura uns 15 minutos na sexta-feira e uma meia hora no sábado, se tanto.

Olho para o alto da avenida Mato Grosso e, sem poder vê-lo, procuro imaginar o casario chique do bairro Carandá Bosque, ou, virando um pouco o olhar para a direita, tento pensar no que estão fazendo os magnatas do bairro Vendas ou do velho Cachoeira.

Acabo de ouvir o relato de uma noite de cão, que denominei, por falta de algo mais inspirado, a noite dos miseráveis.

Alguém foi bafejado pela desdita de precisar levar um parente acidentado, com algumas fraturas sérias, à vetusta Santa Casa, por volta das 17, 18 horas, por aí. Por mais que ali estivesse um jovem com alguns ossos quebrados, precisando de socorro, teve de ficar no corredor dos aflitos, onde a dor é o único sentimento humano que se divide entre velhinhos de 90 anos, crianças, jovens, pessoas pobres e desvalidas que Deus não tendo outro lugar pior para depositá-los, fê-los brotar no patropi mesmo.

Naquele corredor, diz minha confidente, ocorre o milagre da abreviação da vida, ou seja, se você tem de sofrer intensamente a dor, o abandono, o descaso, a impiedade, pelo menos que a vida lhe seja o mais curta possível.

Ali está uma criança, três ou quatro anos, no máximo, com um membro qualquer fraturado, seguro a pinos. Chegou no dia anterior e ali ficou jogado numa enxerga. Mãe e filho, aparentemente, já haviam chorado tudo o que podiam mas o pior foi saber que aquela criança estava ali, naquela trincheira de guerra, sem se alimentar desde que chegou. Pela movimentação, ele teria de ficar por ali mais um dia ou dois, ao que se sabe. Ia continuar sem alimento por quanto tempo ainda? A resposta estava com Deus.

Gemidos, urros, um cheiro nauseabundo de sofrimento e desdém, funcionários sonolentos cruzando pra lá e pra cá, de má vontade alguns, outros apenas cumprindo sua parte de mais-valia.

No olhar de cada um daqueles moribundos pode-se ler a incerteza sobre o seu destino. Voltar para casa, àquela hora, impossível e ainda que pudesse, perderia o lugar no corredor da morte. Ficar ali é uma loteria sem fim, mas pelo menos se pode contemplar o vai-vem dos que sofrem.

Minhas reflexões já invadem 30 minutos da manhã seguinte e preciso dormir, pois tenho também a minha sina. Meus desafortunados personagens ainda estão lá, mendigando atendimento de alguma alma caridosa e tentando furar a fila dos desesperados.

Antes de dormir, assalta-me uma dúvida: será que o Prefeito médico já fez uma visita ao corredor do infortúnio? Será que os médicos políticos que esbanjam felicidade e bem estar pela TV já passaram pelo corredor da morte, especialmente, depois das 24 horas?

Na verdade, nenhum programa partidário ou de governo quer tratar, a sério, desse verdadeiro caos chamado SUS. E, para infelicidade dos brasileiros de segunda e terceira classe, nenhum político que se preze fica sem Unimed, serviço médico da Assembléia, da Câmara ou até mesmo médico particular.

Minha amiga, não. Nem seu parente moribundo. Em seu último telefonema, fico sabendo que a cirurgia terá de esperar outro dia, pois será preciso um especialista de ante-braço, que o hospital, desafortunadamente, naquele horário, não tem. E esperaram das 17 horas de ontem até agora para dizer isso?

Espero que ela e seu jovem acidentado sobrevivam a mais uma noite dos miseráveis e, amanhã, ainda sobre alguma lágrima para chorar, pedindo a Deus que da próxima vez os faça nascer no Canadá.

JOÃO CAMPOS, advogado em Mato Grosso do Sul

Menos governo

Quando leio notícias sobre o PAC, esse elefante federal empacado em falta de planejamento, megalomania, corrupção e manipulação política.

Quando o MEC enfrenta a vergonhosa constatação de que o ENEM foi miseravelmente fraudado e que, pior do que tudo, não havia um plano B, uma nova prova já impressa para o caso de cancelamento da primeira.

Quando vejo deputados, senadores, Poder Executivo e toda a patuléia de aproveitadores pendurados nos fartos seios da viúva preparando a reedição da CPMF, sob o mentiroso argumento de que a arrecadação vai para a saúde.

Quando tenho esse quadro diante de mim, leio com o maior prazer os resultados da visita de 18 empresários do setor cerâmico de Mato Grosso do Sul, integrantes da missão da Fiems, à Europa, para conhecer as novas tendências e design cerâmicos do mercado europeu.

Os empresários aproveitaram sua visita para conhecer na Espanha equipamentos que possam ser importados e utilizados em nosso Estado.

E por que fico radiante? Porque só a iniciativa privada é capaz de inventar e se reinventar, buscar alternativas, saídas, e avançar em tecnologia.

Governos são lerdos, corruptos, desarticulados, trapalhões. Isso é definitivo.

Está causando indignação a transferência para Cuiabá de um Instituto Nacional de Pesquisas do Pantanal, depois da acachapante vitória de Mato Grosso sobre nós no assunto Copa do Mundo.

Aproveito para divulgar que temos no SENAI-MS, braço formador de mão-de-obra da FIEMS – Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul, um laboratório de metrologia (em Campo Grande), um laboratório de tecnologia em cerâmica (Rio Verde), um dos dois ou três existentes no Brasil credenciados a certificar cerâmica para exportação.

Temos, ainda, em Dourados, um laboratório em tecnologia de alimentos, além do recém-inaugurado Centro de Tecnologia do Couro, em Campo Grande.

Esses laboratórios poderiam ter ido também para Cuiabá, se não fossem as gestões de empresários e entidades de classe em favor de Mato Grosso do Sul.

Por isso, minha confiança é renovada na iniciativa privada. Enquanto o governo bate cabeça, faz trapalhadas, erros, sempre com prejuízos contabilizados aos bilhões de reais, os empresários, sindicatos, federações estão buscando trabalhar, acertar, modernizar-se e deixar sua indelével para a posteridade.

Enfim, com menos governo, ainda temos esperança.

Sopa de letras

Em meu feriado, lendo o magnífico “Os clássicos da política”, Vol. I, de Francisco Weffort, Editora Ática, 2009, acabei reunindo para um saborosa conversa os mestres Locke, Hobbes e Montesquieu.

Embora não cite a Bíblia nesse passo (maldito o homem que confia no homem), Hobbes diz que o ser humano bem conhece suas fragilidades. Diz ele:

“quando (o homem) empreende uma viagem se arma e procura ir bem acompanhado; quando vai dormir, fecha suas portas; meso quando está em casa, tranca seus cofres; e tudo isso mesmo sabendo que existem leis e funcionários públicos armados, prontos a vingar qualquer injúria que lhe possa ser feita”. (Leviatã, cap. XIII, p. 76).

Para ele, o homem natural só acede em um “contrato social”, num verdadeiro pacto de submissão onde abre mão de seus direitos em favor de uma força maior para preservar a vida.

Já Locke acredita que tal contrato só deriva do consentimento do homem, não da submissão. Ele abre mão de sua individualidade para criar o Estado, um ente administrativo que lhe preserva não somente a vida, mas, principalmente, a propriedade.

Para Locke, o Poder Legislativo é o poder supremo, já que o Judiciário só aplica as leis que ele escreve, e o Executivo apenas as cumpre.

Do que decorre a impressão de que se houvesse inteligência no parlamento, ele deveria mesmo ser o poder supremo. Não é o caso de nossos deputados e senadores atualmente.

Montesquieu, que estruturou a noção de três poderes harmônicos e independentes, sempre advogou que um poder tem de ser suficientemente forte para se contrapor aos outros.

Dessa forma, quando o rei extrapola seus poderes, o povo o depõe pela força. Infelizmente, nessa dicotomia povo-governante, o que se vê é o governante do dia desagregando o povo pela manipulação da mídia, pela falta de comunicação e de ciência ao que se denomina povo.

Foi um encontro magistral. De tudo, penso que Montesquieu acreditou mesmo em três poderes independentes e igualmente fortes, mas não contava com a picardia ou a malícia de seus pósteros.

Hoje, como se vê no Brasil, o Executivo manda nos parlamentares e até nos juízes, seja pela prestação de favores iníquos e indevidos, seja pela submissão própria dos que dependem de orçamentos manipulados pelo presidente.

Não-só inexistem poderes equivalentes como o pouco de poder que exercem, fazem-no contra o povo, o mandante, o que lhes paga os salários e as mordomias.

Quando a CPMF for ressuscitada, voltaremos ao assunto.