E daí, Gilmar?

Leio praticamente todos os dias manchetes que registram a posição do prefeito Gilmar Olarte sobre o festival de escândalos que assola Campo Grande. É lixo, é água, é energia, é tapa-buraco, coisa de louco!

O que diz o prefeito? Que é “briga de terceiros”. Até a ex-mulher de Amorim já depôs em cartório, em São Paulo, dizendo que havia uma sucessão de empresas fantasmas para ganhar licitações em Campo Grande, incluindo o governo Pucinelli e, certamente, avançando pelo governo Trad, Bernal e agora Olarte.

O prefeito insiste: é briga de terceiros! Mas, prefeito, que terceiros são esses? Afinal, o dinheiro que vai para a bolsa deles é público, é dinheiro que falta para as obras que estão atravancadas (lixo que não é recolhido, buracos que não são consertados no asfalto, equipamentos que não funcionam na saúde).

Não se pode admitir, num governo honesto, uma série de denúncias pela imprensa e nenhuma providência do administrador municipal. Sob pena de estarmos todos coniventes com a malversação de fundos públicos.

O Ministério Público deve estar investigando – não é possível que tais denúncias tenham passado ao largo desse importante órgão investigador, curador da lei e dos bons costumes.

Minha indignação vai para o prefeito, pedindo-lhe que se não vai tomar providências de sua alçada, pelo menos pare de dizer que isso não afeta sua administração, que é “briga de terceiros”, pois terceiros não há em questões envolvendo o patrimônio público.

Tivemos esperança de que ele reveria o contrato do Consórcio Guaicurus, onde as tarifas são despejadas nos cofres privados e as promessas de serviços de qualidade, terminais decentes, controle de horários informatizados, segurança e higiene ficaram no papel, nos contratos de concessão. Mas, não. Subservientemente, o prefeito apenas providenciou, com a conivência do Legislativo Municipal (grande responsável pelo descalabro observado no setor) um aumento da tarifa, primeiro para 2,99 e depois, de cócoras perante os empresários, para 3,00.

O povo que se lixe!

Vêm aí aumentos de energia (por conta do governo do Estado) e de água, este, decididamente, por conta de Olarte e da concessionária.

Com um prefeito desses, insensível à corrupção que grassa em seu governo, capaz de atribuir a terceiros tudo o que está pegando fogo no próprio quintal, o povo está desamparado.

Corremos, inclusive, o risco de pagar mais 4 milhões para fazer “funcionar” um sistema de controle de consultas (Gisa) na área de saúde que já foi comprado e pago! O secretário (hoje deputado Mandetta) e seu primo Nelsinho têm tudo a ver com esse sistema inútil. Mas, pelo andar da carruagem, teremos mesmo de injetar mais dinheiro no elefante-branco.

E, sem querer ser profeta do mal, digo que não temos certeza de que o Gisa funcionará!

Por isso, minha pergunta é “E daí, Gilmar?”, para provocar alguma reação no alcaide, que tem canete mas, aparentemente, não tem autoridade. Como todo governo no Brasil, seja municipal, estadual ou federal, quando tem caneta, falta tinta, quando tem tinta, não tem caneta.

Lamentável, Sr. Olarte.

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Pinóquios

Estamos com um rombo acima de 6 milhões, desaparecidos num passe de mágica daqueles 10 milhões passados ao Consórcio Contisis, capitaneado pela Telemídia & Tecnologia Internacional Comércio e Serviços de Informática Ltda..

Nessa sopa de números, 8,1 milhões foram passados pela União (a Prefeitura completou os 10 milhões) para instalação do Gisa (Gerenciamento de Informações em Saúde), um programa que prometia agendamento de consultas médicas nas unidades de saúde do município.

Para quem foi essa dinheirama?

Além de Nelsinho e Bertholdo, o ex-secretário de Saúde Luiz Henrique Mandetta (hoje deputado federal pelo DEM) volta e meia é arrolado como responsável senão pelo desvio financeiro propriamente dito, ao menos pelo embrulho informático que envergonha todo o setor de saúde pública.

É uma quantia que o Zé Mané da Vila Serradinho nunca verá em sua conta, onde, no máximo, pinga mensalmente uma merreca do bolsa-família.

Alguém está deitando e rolando sobre esses 6 milhões evaporados, o deputado tem seus polpudos vencimentos mensais, o ex-prefeito sobrevive, certamente, em condições bem mais folgadas que o mísero usuário do sistema Gisa.

Angústia e frustração, primeiro, por não termos o programa funcionando, segundo por sabermos, por experiência própria, que nenhuma apuração chegará a resultado consistente e, pior, ninguém será preso, responsabilizado ou forçado a devolver o dinheiro roubado.

Mas meu artigo não é para contar a história do Gisa, já suficientemente escabrosa. Minha indignação é com a falta de visão prática ou técnica dos investigadores dessa trapaça.

Nelsinho finge-se de morto, Bernal fala e fala sem falar coisa com coisa e, agora, Olarte também faz de conta que não é com ele. Um joga a bola para o colo do antecessor, que joga para outro, que devolve ao primeiro.

Em Direito Penal (não só, mas, especialmente esse ramo) há um recurso chamado acareação, que nada mais é do que a confrontação dos declarantes, para se descobrir quem está mentindo ou, como quase sempre ocorre, se todos estão fugindo da verdade.

É só chamar os três prefeitos (Nelsinho, Bernal e Olarte), mais o vistoso deputado federal e, acrescentando, de quebra, o criativo produtor de editais Bertholdo Figueiró.

São seis milhões de reais, um dinheiro que não pode desaparecer com tanta simplicidade. Follow the money, dizem os americanos, e você achará o ladrão.

Já que não temos uma Câmara Municipal digna desse nome, o Ministério Público Federal deve assumir a condução das investigações e promover a necessária acareação entre os pinóquios.

Uma ressalva, apenas: não estou dizendo que a Câmara não possa abrir uma CPI sobre esse assunto. O problema é que as CPIs servem apenas como pano de fundo para demonstrações de vaidade e discursos estéreis.

Acareação, já!