Negociatas

Dilma vai gastar 298 milhões, Aécio, perto disso, Campos cerca de 150 milhões, não sendo diferente nos Estados, onde não há campanhas com menos de 100 milhões.

O assunto é velho. Disse, em anos e campanhas passadas, que não entendo como se pode gastar uma dinheirama dessas para conquistar um mandato cujo custo não será recuperado ainda que o eleito trabalhe uma eternidade.

Então, por que um candidato vai gastar 298 milhões para se eleger presidente da república sem nenhuma chance de recuperação do investimento? Afirmo, sem medo de errar, que o objetivo são as negociatas, as mamatas, os cargos de vários escalões, os contratos de obras, o uso do cartão corporativo (com seus gastos secretos).

A verdade é que hoje se dá preço a tudo, “um vereador custa x”, “um deputado estadual vale y”, “um senador gasta z” para chegar ao poder. Claro que vai “recuperar” essa inversão em anos e anos de tenebrosas transações, ora com o Executivo, para aprovação de seus projetos, ora “indicando” parceiros para licitações milionárias ou para ocupação de ministérios e órgãos estratégicos.

Curioso, resolvi saber como um deputado estadual antigo, mais de 5 mandatos, continuava a se reeleger, ano após ano, campanha após campanha. Qual era o atrativo? Como ele se mantinha no poder até se apresentar o novo pleito?

Primeiro, descobri que ao longo dos anos, esse deputado vai indicando funcionários amigos, cabos eleitorais, apaniguados, em Prefeituras, departamentos de trânsito, agências da Receita Estadual. São milhares e milhares de carrapatos cravados no orçamento público.

Depois, o deputado aguarda a época das eleições e manda um simples aviso: “O chefe está em campanha”. É a senha para que os carrapatos saiam a campo para defender o mandato do chefe e… os próprios empregos! É simples: se o chefe não for reeleito, uma, duas, três vezes, adeus boquinha. Não há cabo eleitoral mais aguerrido.

Sem maldade, mas, veja o exemplo de Londres Machado. Escolhido para vice na chapa de Nelsinho Trad, já arreglou tudo para mandar a filha Grazielle Machado para seu lugar na Assembleia. A senha? “Se não elegerem minha filha, adeus boquinha”.

De tudo o que aprendi sobre essa sucessão, essa “herança”, esse negócio de pai para filho, o que mais impressiona é a nossa indiferença, a naturalidade com que permitimos, ano a ano, essa picaretagem à custa de nosso esforço. Não há protesto. Não conseguimos (ou não queremos?) interromper essa mamata.

Nós pagamos impostos, eles gastam como querem. Isso quando não saem da Assembleia diretamente para os vencimentos vitalícios do Tribunal de Contas, o “Cemitério de Elefantes”, que acolhe políticos em fim de carreira.

De qualquer maneira, anotem aí o que esses políticos confessam que vão gastar nas respectivas campanhas. O preço do mandato, com a certeza de que não recuperarão esse valor em quatro anos de governo, é a confissão de muitas, muitas negociatas com impacto sobre o Tesouro público. O dinheiro gasto em corrupção é o mesmo que falta para saúde, segurança, moradia. Um tiro fatal.

É o Brasil.

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