E agora, mané?

A indústria de alimentos descobre que uma de suas empregadas tem hanseníase.

A hanseníase, quando é tratada, não é contagiosa. Até aí, tudo bem. Mas quando a empregadora é uma oficina mecânica, uma loja de roupas, um escritório comercial, a permanência da empregada no serviço é não-somente desejável como útil à sua recuperação.

Os Tribunais entendem que a demissão é injusta e discriminatória e costumam reintegrar a empregada ao serviço.

Contudo, veja bem o que acontecerá ao negócio de uma empresa de alimentos quando a clientela souber que há uma empregada com hanseníase na linha de produção, no setor de manipulação de alimentos, biscoitos, salgadinhos, etc.

Falência, é a palavra que me ocorre.

Há muitos anos, não se sabe se é verdade ou apenas anedota, Chateaubriand, o poderoso dono dos Diários Associados, publicou que a cozinha de um famoso restaurante tinha um cozinheiro com lepra (a palavra utilizada antes que se popularizasse o termo hanseníase).

Segundo a lenda, Chatô, como era conhecido, ficou descontente com o atendimento do restaurante e divulgou a notícia que, verdadeira ou não, detonou o restaurante na alta sociedade carioca. Pelo sim, pelo não, ninguém frequenta um restaurante cujo cozinheiro é apontado como doente.

Há alguns anos, sinalizei o que acontecerá a uma escola que acolha um aluno com AIDS. Manter o aluno será politicamente correto, mas… qual será a reação da clientela?

Falência, é a palavra que me vem à mente.

O certo é mudar a empregada de função, tirando-a da linha de manipulação de alimentos e dando-lhe uma outra função digna, almoxarifado, escritório, por exemplo.

É, no entanto, mais barato promover a funcionária para função melhor, mas longe da linha de manipulação, do que sofrer o efeito “manada” vendo sua clientela migrar para a concorrência.

Isso sem falar no prejuízo a marcas consagradas (McDonalds, Coca, Perdigão, Seara…) caso ocorra a divulgação semelhante àquela feita por Chateaubriand.

Os que fazem as leis não pensam na empresa, isso é certo. Primeiro eles protegem um determinado trabalhador. A empresa que se adapte ou vá para o buraco, para eles tanto faz.

Neste momento, embora você não leia na mídia, há muita gente às voltas com esse problema.

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Mercosul está morto

Numa palestra sobre o Mercosul, causei constrangimento numa platéia de supermercadistas, ao dizer que o Brasil era uma generosa mãe, com três crianças choronas, nariz escorrendo, puxando a sua saia para chamar a atenção.

Nem preciso dizer que a imagem de Uruguai, Argentina e Paraguai como crianças choronas foi a razão do imediato desconforto.

Estávamos em 2000 e a idéia central de minha palestra era que o Mercosul se inviabilizaria pelo desequilíbrio evidente de três de seus membros diante do Brasil.

Uruguai, pequenino, voltado para o próprio umbigo, quase sem renovação populacional (há décadas os jovens uruguaios migram para o mundo em busca de oportunidades), parece um país de velhinhos em suas praças, jogando xadrez e damas aos domingos.

Literalmente, quem já esteve lá sabe, essa é a imagem de Montevidéu aos domingos.

Limita-se hoje a produzir, e pouco, laticínios de ótima qualidade mas é só.

Paraguai, um dos maiores shopping centers da região, nada produz e tudo exporta, num dos maiores mistérios desse bloco econômico.

Nos encontros entre presidentes brasileiro e paraguaio só se fala em contrabando, roubo de veículos, pirataria e tráfico de entorpecentes.

Apenas para ilustrar, o último encontro entre Lugo e Lula durou duas horas, gastou 250 mil dólares e não produziu uma linha de matéria importante para os dois países.

Nem mesmo Itaipu, que seria um tema interessante face à enormidade da parceria entre os dois países, foi arranhado na ocasião, perdendo-se os jornais que cobriram o evento em piadas sobre a testosterona do paraguaio e a incontinência verbal do brasileiro.

Argentina, um caso à parte, ostenta um orgulho à Maradona que não se justifica em exemplos práticos. Tem dificuldades financeiras e políticas e acaba de colocar uma pedra na tumba do Mercosul ao anunciar a proibição de importação de produtos já produzidos no país.

Tudo o que se combinou no Mercosul, livre trânsito de mercadorias, união aduaneira, quebra de barreiras e toda a lenga-lenga que se costuma desfiar nessas ocasiões é letra morta.

Em resumo, a única vantagem para o Brasil, que era ter um quintal para suas mercadorias e suas experiências de dominação continental, sonho do megalômano presidente Lula, já não existe.

Outro ensaio de burrice no bloco foi o aliciamento de Hugo Chávez, como salvador da lavoura, ideia que foi esposada pelos quatro parceiros e gostosamente aceita pelo boquirroto venezuelano.

Nenhuma vantagem e muitos problemas em um só golpe.

Há poucos dias, um grande empresário sulmatogrossense reclamou da burocracia do Mercosul, pois, levado a montar uma fábrica em Assunção, meses depois de gestões, construções, registros de marcas, etc., o projeto não sai das gavetas da burocracia.

América Latina não tem jeito. É um celeiro de perdedores.

Naquela época, fui criticado pela minha imagem dessa implausível família. Agora, o ex-embaixador Rubens Barbosa, em seu livro “Mercosul e a Integração Regional”, confirma: as choronas estão órfãs e o Mercosul está morto.

Já morre tarde.