Myrciaria cauliflora

Antes que me perguntem, é o nome científico da jabuticaba, uma fruta que, gostamos de lembrar, é bem brasileira.

O senador Marcelo Crivella inventou a profissão dos paralegais, advogados que não conseguem passar no exame da OAB e que seriam “ajudados” pelo Estado.

Ingenuamente, diz o senador no preâmbulo de seu projeto: “temos um problema que vem se agigantando com o passar dos anos, que são os bacharéis em Direito que não conseguem aprovação no exame da OAB”. 

Nós não temos um problema. Quem tem um problema enorme é a educação brasileira, deficiente, mal-ajambrada, canhestra, que forma os piores profissionais do mundo.

Há poucos anos, uma empresa de T Lagoas selecionou 7 químicos industriais entre 90 inscritos de todo o País. Quantos de Mato Grosso do Sul passaram? Nenhum!

Onde está o problema? No ensino!

Criar advogados de segunda linha não resolverá o problema principal, melhorar o ensino nas escolas.

Qual cliente voaria em uma companhia que dissesse: temos pilotos de primeira e de segunda linha. Estes são os que não passaram no teste para piloto principal, então, são os parapilotos…

Ou, no hospital, os paramédicos, aqueles que não conseguiram passar no Conselho Regional de Medicina. “Você vai operar com um paramédico, pois hoje estamos sem titulares na clínica…”

O Exame de Ordem é atacado em diversas frentes, mormente pelos que não conseguem atravessá-lo. Faculdades deficientes, alunos relapsos, professores ineptos, todos o atacam.

A verdade é que esse filtro deveria ser aplicado em todas as profissões – médicos, engenheiros, economistas, enfermeiros.

O pior dessa iniciativa jabuticabana do Marcelo Crivella é que aberta a porteira para a criação dos advogados de segunda linha, os rejeitados do Exame, teríamos também promotores que não passaram no concurso, juízes que não conseguem a promoção pelos canais ditos competentes.

Por que não?

Lamentável a iniciativa do nano-senador, esse anão intelectual, mas não é inesperada, pois é muito comum o surgimento dessas ideias esdrúxulas quando a ociosidade e a falta de Inteligência se juntam num mesmo espaço.

Na Câmara Municipal de Campo Grande já tivemos projetos de lei que pretendiam obrigar empresas de ônibus a fornecer um coletivo a todos os velórios da cidade, ou seja, transporte gratuito para os funerais.

Outro inventou a obrigação de se plantar uma árvore diante de todos os domicílios. Assim, da noite para o dia, os que moravam em apartamentos viram-se obrigados a plantar uma árvore em pleno ar!

Outro, ainda, queriam uma porteira nos chamados cul-de-sâc, aquelas ruas sem saída em alguns condomínios e loteamentos!

Já tivemos de tudo. O código de posturas de Campo Grande obrigava o monitoramento dos próprios formigueiros!…

Bem, espera-se que o nano-senador Crivella não tenha sucesso (a OAB já está em campo para combater a iniciativa) no plantio de mais essa jabuticaba.

 

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Vai mal

Disse uma juíza sobre certos advogados:

“Insta ser salientado que os advogados que assinaram as contra-razões necessitam com urgência adquirir livros de português de modo a evitar as expressões que podem ser consideradas como injuriosas ao vernáculo, tais como “em fasse” (no lugar de “em face”), “não aciste razão” (assiste), “cliteriosamente” (criteriosamente), “doutros julgadores” (doutos), “estranhesa” (estranheza), “discusão” (discussão), “inedoneos” (inidôneos)… Acrescenta-se, ainda, que devem os causídicos adquirir também livros de direito, à medida que nas contra-razões constam “pedidos” como se apelação fosse, o que não tem o menor cabimento”.

É grave a denúncia, ainda mais quando se discute nacionalmente se a OAB deve manter ou não o Exame de Ordem, assunto, aliás, já pacificado com a decisão do Supremo Tribunal favorável ao citado exame.

Certamente, esses advogados foram declarados “habilitados” ao exercício da advocacia, pela própria Ordem, declaração que não  reflete a verdade, já se vê.

Não há como separar o conhecimento da língua portuguesa do conhecimento jurídico, pois as duas coisas são essenciais ao advogado. A língua é o veículo por onde trafega a expressão do Direito, isso está fora de dúvida.

A agressão à língua portuguesa está cada dia mais frequente e piorando com o advento de MSN, Facebook, twitter e pela internet em geral, que privilegia a quantidade de texto em detrimento da qualidade. Há uma falsa justificativa de que vale qualquer tipo de expressão, desde que atinja o seu fim, o leitor.

Vê-se, pela expressão “insta ser salientado” da própria juíza, que ela mesma deve seguir à risca o  seu utilíssimo conselho.

O ensino está precário em todo o país. Professores e alunos se equivalem nas lambanças linguísticas e os que chegam à Universidade, nas generosas costas do ENEM, na política de quotas e, de modo geral, na péssima qualidade de todas as faculdades de esquina espalhadas pelo Brasil, são os profissionais refletidos na decisão da ilustre magistrada.

O Exame de Ordem não vai resolver as falhas do ensino em geral. Mas, ao menos, imporá um filtro a essa malta de pernetas que chegam ao mercado de trabalho.

Fica registrado o alerta da juíza, para nosso espanto.