Caldo de galinha

O livro “Viver é coisa perigosa”, de Guilherme Schelb, conta que milhares de réus em processos administrativos, judiciais e inquéritos não conseguem provar sua inocência por falta de cuidado em seus relacionamentos pessoais e profissionais.

Um jantar, um brinde de final de ano, uma viagem patrocinada por um empresário futuramente indiciado em inquérito, uma foto comprometedora, tudo leva a presunções desfavoráveis ao inocente no atual e minado mundo dos negócios.

Participei de um seminário sobre a nova lei anti-corrupção (12.846/13), que entra em vigor no início de 2014 e, ao que tudo indica, causará grandes mudanças no cenário ético brasileiro.

É muito mais difícil defender um inocente do que um culpado. Explico. O inocente pratica atos que julga válidos, corretos, sem observar o critério legal, na boa intenção e boa fé, achando que  por aí se há de defender.

Um cliente confessou que tinha comprado uma carta de habilitação no Detran, denunciou a autoescola e o instrutor que o ajudaram. Foi condenado por ser réu confesso e os que ele denunciou foram liberados, absolvidos, porque era a palavra de um contra o outro, sem prova, sem testemunhas.

O que meu cliente achou que era um comportamento ético voltou-se implacavelmente contra ele.

Deveria ter consultado o advogado antes e não depois.

Um outro, administrador de uma entidade cultural pública, tinha de adquirir fios de alta tensão para instalar em uma megaestrutura de shows. Seu orçamento não previa esse gasto, absolutamente necessário para consecução de sua atividade. Solução do inocente: contratar uma famosa escritora peruana, “sem que ela precisasse comparecer ao evento”. O valor destinado á escritora era exatamente o mesmo devido pelos cabos elétricos. Até nos centavos! O problema é que os honorários “pagos” sem o serviço geraram processo contra o bem intencionado servidor público. E sua defesa era muito difícil pois os rastros de irregularidade eram flagrantes. Bastou uma ligação à escritora e a resposta cristalina foi: não é verdadeiro esse contrato, nunca estive no Brasil, etc.

Aquele Ministro (ou mesmo auditor) do Tribunal de Contas que vem fazer uma palestra patrocinada pelo órgão público que, no ano seguinte, será fiscalizado pelo TCU, um jantar entre funcionário público e gerente de banco, com direito a menção na coluna social ou no Facebook, a passagem para Miami paga pela empresa ao diretor de licitações da autarquia… tudo será motivo de questionamento ético.

Um outro exemplo de descuido é o email fazendo apologia de um produto, divulgando resultados ou prognósticos de uma licitação, enviado a funcionários públicos, órgãos da administração e assim por diante. Na primeira investigação, a primeira coisa que se pede é o disco rígido do computador (HD). E mesmo os arquivos “apagados”, “deletados” podem ser recuperados por um perito.

Estão na moda também as gravações de áudio e vídeo (canetinhas, bottons, pingentes e até captadores de áudio fixados aos dentes) que provocam estragos em emplumadas reputações.

“A gravação não foi judicialmente autorizada!”, vai dizer o inocente. Diga isso ao WikiLeaks, ao Youtube ou ao Instagram. Quando o vídeo vai ao ar o estrago está feito.

A possibilidade de você estar sendo gravado em um telefonema dentro de sua casa ou no escritório é, literalmente, 100%. Se você for um grande empresário que negocie com o governo, um alto funcionário público, um político importante esse índice é de 200%. E esqueça fios, conexões, etc., pois tudo hoje é wireless.

Há, inclusive, treinamento para empresários com palavras-chaves que devem ser evitadas (ou ditas) em telefonemas, mostrando que a conduta preventiva é a melhor defesa. Antes de realizar um negócio, consulte seu advogado ou alguém de confiança. Essa cautela valerá milhões.

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Harakiri

Já contei, alhures, essa história. Por ser deliciosa, vale a pena repeti-la.

Era o ano de 1996, estávamos em Tokio, em missão empresarial e resolvemos levar um presente (camisetas e um vídeo do Pantanal) ao deputado presidente da Dieta (o Parlamento) japonesa.

Alegrinhos, estávamos na sala de espera do deputado, em seu escritório político, no cento da capital japonesa.

Com enorme pontualidade, fomos convidados a entrar, mas a secretária nos informou que nenhum pacote, brinde, envelope ou documento poderia ser entregue ao deputado.

Abrimos os presentes e dissemos que eram brindes brasileiros, de uma região muito especial, etc., etc., mas não houve acordo. Os objetos não podiam entrar conosco e fim de papo.

A secretária disse-nos que poderíamos entregar os brindes na própria Dieta, que consideraria os mimos um presente ao Parlamento e ao Legislativo japonês e não a um deputado em particular.

De volta ao hotel, perguntamos à nossa guia se havia uma lei específica sobre isso e ela disse, para minha surpresa, que era apenas um comportamento ético, adotado pelos japoneses como regra de ouro. Nenhuma linha escrita, nenhuma obrigação, nenhum decreto, nenhuma ameaça de punição! Apenas ética!

Disse-me, ainda, a gentil Mitiko que havia corruptos no Japão, como em qualquer lugar do mundo. Mas quando um deles era apanhado, o assunto era tratado como escândalo ético e, não-raro, terminava em harakiri, o suicídio pela espada samurai.

Penso nisso. Penso no ridículo valor de nossos presentes perante os milhões de Palocci faturados com o comércio de influência governamental. Cômico, se não fosse triste.

Como é triste o vai-vem de Zé Dirceu fazendo suas estripulias e vendendo a alma e a vergonha nacional nos corredores do Planalto.

Já não falo de Zé Sarney, Michel Temer, Renan Calheiros, João Paulo, Berzoini, Delúbio e, ultimamente, até o próprio Sapo Barbudo.

Que falta nos faz uma espada samurai.

Milhões de órfãos

Um candidato se apresenta ao voto popular, pede votos, promete um programa de trabalho e no fim recebe 1 milhão de votos. Vira senador.

Toma posse, freqüenta o Senado por seis, oito meses, um ano e vem outra eleição. Lá vai ele em busca de um mandato para governador, prefeito, abandonando o mandato que lhe foi conferido.

Abandonando suas promessas. Deixando o trabalho no início, quando muito, ao meio. Alguns nem satisfação oferecem aos eleitores! Simplesmente passam o bastão para o suplente, não-raro uma figura descolorida, sem passado, sem futuro e com um presente de aprendiz.

Um milhão, quinhentos mil, duzentos mil eleitores são desrespeitados, são oferecidos como moeda, como quirera, como lixo ao suplente. “Aí vai, companheiro. Tome conta desse espólio, desse rescaldo de incêndio, desses despojos de guerra”, diz o parlamenta fujão.

Uma tristeza. Infelizmente, já vimos esse filme em todos os partidos. O próprio Serra já teve seu capítulo de fuga.

Lamentavalmente, a Justiça Eleitoral não veda esse comportamento desonesto, vergonhoso. Os eleitores são surpreendidos e, pior, quanto mais expressiva é a votação, mais o candidato se qualifica a alçar outros voos.

É claro que em matéria eleitoral, no Brasil, não se deve mesmo pedir ética, posto que é matéria desconhecida dessa corja lobotomizada de Brasília. Mas o tema serve para reflexão, no momento.

No Espírito Santo, um senador com 1 milhão de votos disputa a cadeira de governador. Deixou o mandato para uma irrelevante, desconhecida, inexpressiva suplente, que não sabe para que veio nem para onde vai.
Ganhou na loteria e não tem idéia de quem é esse contingente de 1 milhão de almas, de órfãos. De prático, sabe ela que ninguém lhe deu um mísero voto daquela fenomenal cesta de sufrágios. Maria-ninguém.

Quando haverá respeito pelo eleitor? Quando deixaremos de ser apenas essa massa de manobra que, de quando em quando, comparece às urnas para dar um emprego qualificado e bem remunerado a um grupo de sanguessugas, de aproveitadores, de gente rosada, bem alimentada à nossa custa?

Pelo andar das coisas vai demorar até criarmos vergonha na cara e fazermos uma mobilização contra esses safados que nos enganam, que nos empulham, que nos fazem de trouxas a cada eleição.

Não digo que alguém, de boa índole, bom administrador, uma vez eleito para um cargo parlamentar, não possa lograr ser governador ou prefeito. É possível e até desejável em alguns raros casos.

Defendo, ao menos, nesses casos, um plebiscito. Certamente que um milhão de eleitores que votaram nesse deputado ou senador não lhe negarão a vaga de governador. Pode até ser que o desejem lá. O problema é que eles não consultam, sequer avisam que vão fazer essa patranha.

O partido tal decidiu que a vaga é do Zé da Silva e pronto.
A democracia e seus cargos de governo são vergonhosamente loteados, como se fossem bananas de feira.

A verdade é que, a cada eleição, sinto-me menos cidadão.

Em troca, todo político me parece, a cada dia, um crápula indigno de confiança.

Mulher esperança

Mãe, namorada, companheira, empresária (séria, honesta), sensível, amante, cálida, macia, esteio e arrimo.

Poderia dizer mais, muito mais, sobre a mulher. Todas elas estiveram presentes em minha vida e agradeço ter chegado até aqui para reconhecê-lo.

Mas, aficcionado pela Biologia, penso que o maior mistério, um verdadeiro milagre, está na formação do ser humano, da vida, do embrião, célula por célula, molécula por molécula, com ferro, potássio, zinco e tudo o que se contém num grão de húmus no ventre da mulher.

O homem empresta um espermatozóide, é verdade, mas o milagre só acontece, em sua completude, quando o maior e mais perfeito laboratório de todos os tempos começa a montar o milagre da vida.

O FMI, disse eu em 2003, homenageou as mulheres, em Johannesburgo, dizendo que elas são melhores à frente dos bancos, são honestas, são praticamente incorruptíveis, são eficientes, trabalham mais, são sensíveis às dores e vicissitudes do mundo.

Vale dizer, os grandes banqueiros se curvaram à sabedoria feminina. Não há mulheres envolvidas em grandes escândalos (os episódios que conhecemos são exceções).

Éramos oito irmãos. Crianças sujinhas, choronas, famintas, devastadas pela desnutrição, pela verminose e por tantas carências daquele tempo de garimpo e sertão. Não tenho dúvidas de que meu pai nos teria espalhado entre os parentes ou instituições de caridade, orfanatos ou, simplesmente, viadutos do mundo.

Teria sempre a desculpa de que precisava trabalhar, viajar, ganhar o pão. Minha mãe, não. Leoa, criou, educou e manteve sob suas asas os oito. Não admitia, sequer, a idéia de doá-los aos bondosos pretendentes.

Não há parâmetros de comparação entre o homem, meu pai, e a mulher, minha mãe. É um resultado acachapante contra ele.

Na minha família mesmo, o princípio acima se repete. Os irmãos, por qualquer toma-lá-dá-cá, dividem e espalham seus filhos, ora pelos desvãos do mundo, ora no Japão, a pretexto de “ensiná-los a sobreviver”. As mulheres não.

Uma das irmãs, Juceleyde, cuida não só do filho, como do neto, como uma galinha ciumenta. Outra, pobre, trabalhadora, uma leoa, cria dois bebês, um deles com síndrome de Down, marido trafegando entre o desemprego e o sub-emprego. Não me perguntem como, pois não tenho respostas.

Outra, ainda, Vany, criou os dois filhos até formá-los, com sua mísera aposentadoria e ante a indiferença de um pai que simplesmente abandonou os filhos à própria sorte.

E a sorte deles foi terem mãe. Terem uma mulher administrando seu futuro e seu destino.

Tem alguma coisa a ver com aquele laboratório que se instala no interior da mulher. Ali, acredito, no líquido placentário, recebemos não-só os elementos essenciais à vida, mas também a sensibilidade do coração feminino, o ar puro e honesto de uma alma sem mácula e generosa.

A mulher não precisa de símbolos, rosas, corações e outros logotipos conhecidos pela mídia interessada em vender presentes no Dia das Mães.

Ela é o próprio símbolo. Um símbolo inexplicável. Uma nebulosa, uma galáxia, com milhares de estrelas. Eu desisti, há muito, de entender o espírito feminino. Deus não me deu esse manual de instruções nem destinou a mulher a ser pesquisada e entendida.

Ela foi destinada a ser nosso controle de qualidade. Desde a menininha que começa a descobrir as diferenças sexuais na tenra infância até a namorada, a mãe, a companheira, a musa de poetas desde os mais remotos tempos, a mulher é o arco-íris que anuncia um fato só: o mundo tem esperança.

No ventre materno, outros mundos e homens estão nascendo todos os dias, apesar de nossa burrice em destruir o que de melhor construímos no passado.

Viva a mulher!