ENEM na Coréia do Sul

A mesma ansiedade, a mesma correria de estudantes pela cidade.

Trata-se de um exame semelhante ao ENEM brasileiro.

Por ele, os alunos são avaliados para ingresso nas diferentes carreiras.

Não há reprovação. Os mais fracos serão reforçados para fazer novo exame e assim segue a rotina.

A semelhança com o ENEM para aí.

Nas escolas, alguns estudantes estão na calçada, aguardando os novatos e calouros. São os veteranos.

Não, não. Não é trote. Ninguém vai raspar a cabeça do calouro.

Os veteranos aguardam os novatos com um kit onde há comida coreana e uma garrafa de água mineral.

Um abraço, passa-se o lanche e a água e o calouro sente-se em casa, bem acolhido.

Ao lado de uma van, veteranos têm material escolar (caneta, papel, lápis) para os que esqueceram de trazer.

Nas ruas, policiais se espalham em motos, para dar carona aos alunos que por alguma razão estejam atrasados.

Como se não bastasse, o comércio, nesses dias de prova, abre mais tarde, para não ocorrer congestionamento.

Quando a Coréia do Sul terminou sua prolongada guerra contra o Japão, houve uma preocupação mundial pelo seu futuro. Sobretudo, se o país montaria o seu exército, prevendo novas guerras.

Os governantes sul-coreanos decidiram que ao invés de um exército de guerreiros, teriam um exército de engenheiros.

De lá para cá, a Coréia do Sul saltou de penúltimo país em desenvolvimento para uma das maiores potências do mundo.

Merecidamente.

Em 2006, visitei Seul. Três experiências inesquecíveis ficaram em minha retina.

A primeira foi a visita à escola Little Angels, onde se ensinam artes e se formam artistas para teatros do mundo inteiro. Inclusive bailarinos para o Bolshoi e pianistas para a Juliard, de N. York.

No primeiro dia de aulas, as crianças ficam em um imenso ginásio, em forma de “aquário”, onde, sozinhas, portando números nas camisetas, se misturam e manipulam centenas de coisas diferentes, instrumentos musicais, relógios, celulares, computadores, bolas, pincéis e o que mais não sei.
Do lado de fora, os professores examinam o movimento das crianças e fazem anotações. “Aquele menino pegou um pincel atômico e riscou a parede”? O outro foi direto ao piano? Aquele outro está desmontando (ou destruindo) o celular? O outro quer correr apenas? Tudo isso é material para alocar cada um dos alunos no seu verdadeiro caminho. Acertam quase sempre.

A outra experiência foi ver 4000 pessoas em um ginásio aplaudirem de pé, por longos minutos, um ancião que foi descoberto na platéia e conduzido à mesa de honra, andando com dificuldade, por duas sorridentes senhoritas.

Um cientista? Seria um político famoso? Um juiz da Suprema Corte? Não. Ele era um professor primário, que se aposentou após formar milhares de alunos que, certamente, ali estavam e que o reconheceram.

Na Coréia do Sul, como, aliás, eu já vira na Alemanha, um professor é mais valorizado do que um general ou um advogado.

No restaurante da Universidade Sun Moon, onde professores almoçam com os alunos, quando um deles entrava, alunos lhe faziam referência.

Para me fazer cair o queixo, caminhei por aquele ginásio que se esvaziava ao fim da cerimônia. Minha emoção era imensa por ver que no chão podiam-se contar alguns pedaços de papel. O lixo saía com o público, em pequenos saquinhos ecológicos, depositados em grandes conteiners na saída.

Igualzinho ao Brasil, pensei. E, ao ver a matéria sobre o ENEM sul-coreano, lembrei-me de que lá, estudar (e sua contrapartida ensinar) é a atividade de todas a mais nobre. Igualzinho ao Brasil.

Basta de impunidade

Você que pagou cursinho por seis ou sete meses, alguns por um ano, perdeu festas, baladas, teve de comprar livros e apostilas, passou noites em claro conferindo resultados, gabaritos, concursos anteriores, acordou cedo, correu para pegar os portões abertos, sentou-se, abriu o material de prova, respondeu às questões e agora, pela segunda vez, viu o concurso do ENEM anulado por trapalhadas do Ministério da Educação, tem direito a uma indenização razoável.

Toda vez que o Estado (no caso a União e seu braço educacional, o MEC) causa um prejuízo aos contribuintes, tem o dever de indenizar. Está na Constituição, no Código Civil, no Código do Consumidor e em toda a legislação correlata brasileira.

A prova do erro é patente. Mesmo que não fosse, cabe ao MEC provar que não errou e não ao estudante provar que está com razão. O serviço público tem de ser de boa qualidade, sem falhas, sem erros. O “errar é humano” não se aplica à máquina pública.

Ao anular uma simples questão que seja (no caso, a suspeita é de todo um caderno, além de outras falhas no cartão de informações preliminares que aluno tem de preencher), todo o concurso está comprometido. Primeiro porque é óbvio que os que “acertaram” com a questão errada, terão diminuídos seus pontos e poderão reprovar. E os que “erraram” com a mesma questão terão mais pontos quando ela for anulada.

Isso é tão primário que nem deveria estar sendo discutido!

Nem estou falando sobre o aluno que foi apanhado em flagrante divulgando a prova por celular. Só esse fato já compromete a intenção do MEC em “manter” os resultados do atual ENEM ou, pior ainda, realizar “parte” das provas novamente para evitar danos a alguns estudantes. Não há a mínima chance desse procedimento resolver o enorme embrulho em que se envolveu o Ministério.

A melhor, a mais honesta, a mais correta decisão do MEC seria aceitar que o concurso está nulo, que deve fazer outro, e isso, naturalmente, impõe uma indenização dos estudantes contra a União.

A indenização envolve a parte material, consistente em todos os gastos que os pais ou os alunos tiveram com cursinhos, professores particulares, escolas, livros, transporte e tudo o mais que envolveu o concurso.

A parte não-material é a indenização por danos morais, o estresse do aluno durante as provas e o fato de ver seu resultado anulado! A angústia. O medo. A decepção. A frustração que se abate sobre o aluno, capaz mesmo de fazê-lo desistir de tudo e abandonar o estudo.

O governo não é confiável. Pelo menos, passou essa idéia, após duas anulações.

Cabe ainda, independente do processo que o estudante tem à disposição, uma ação popular para obrigar o Ministro e sua gráfica de preferência a restituírem os 75 milhões cobrados pela organização (ou desorganização) da prova.

Essa ação do aluno independe de sua participação em novo concurso. É direito seu realizar nova prova. E além disso, tem direito à indenização pelo penoso estresse sofrido.

O aluno pode procurar o Ministério Público ou a Defensoria Pública para propor a ação, já que se trata de interesses coletivos. E, em grupo, fica melhor para acionar o Estado.

Sofreu no primeiro concurso e agora vai sofrer novamente. Ao sentar-se para fazer a prova o aluno será perturbado pela pergunta: esse concurso valerá ou será também anulado?

Para concluir, só a impunidade, só o perdão que concedemos a esses administradores trapalhões é que levam o país a esse nível de desorganização. Cada vez que permitimos a esses burocratas escaparem ilesos, sem pagar um tostão de indenização ao povo prejudicado, estamos tornando o nosso país um lugar pior para viver, um ambiente pouco confiável.

Então, não deixemos esse erro passar em branco mais uma vez.

Dicas modestas sobre redação

Pegue uma folha de papel. Escreva no topo uma palavra qualquer.

PETRÓLEO.

Vá escrevendo tudo o que vem à mente relacionado a essa palavra. Qualquer coisa. Mesmo que lhe pareça absurda. Escreva. Vamos lá.

Preto. Líquido. Subsolo. Lixo. Superposição de camadas. Séculos. Dinheiro. Fundo da terra. Fundo do mar. Tubos. Perfuração. Combustível. Fogo. Calor. Veículos. Postos. Refinarias. Carros-tanques. Bolsa de valores. Ações. Bactérias. Resíduos de vegetais. Riqueza. Milionários. Rockfeller. Texas. Oriente Médio. Guerras. OPEP. Incêndio. Energia eólica. Energia solar. Energia alternativa. Meio-ambiente. Poluição. Estradas. Ferrovias. Petroleiros. Ouro-negro. O petróleo é nosso. Campanhas nacionais. Privatização. Petrobrás. Petro-sal. Monteiro Lobato…

Pare um pouco. Organize as palavras em ordem que lhe pareça melhor para desenvolver. Separe as palavras relativas à pesquisa, à prospecção, questão econômica, questão ambiental, energias alternativas, etc.

Exemplo:

O petróleo é uma das maiores riquezas do mundo e, ao mesmo tempo, um dos maiores problemas a resolver para a humanidade. O petróleo é armazenado no subsolo ou no fundo dos mares. Ele é resultado de milhões de anos de matéria orgânica depositada no solo, camada por camada, e vai formando rochas através dos séculos.

Os restos de matéria orgânica, bactérias, produtos nitrogenados e sulfurados no petróleo indicam que ele é o resultado de uma transformação da matéria orgânica acumulada no fundo dos oceanos e mares durante milhões de anos, sob pressão das camadas de sedimentos que foram se depositando e formando rochas sedimentares. O conjunto dos produtos provenientes desta degradação, hidrocarbonetos e compostos voláteis, misturados aos sedimentos e aos resíduos orgânicos, está contido na rocha-mãe; a partir daí o petróleo é expulso sob efeito da compactação provocada pela sedimentação, migrando para impregnar areias ou rochas mais porosas e mais permeáveis,tais como arenitos ou calcários. Uma camada impermeável, quando constitui uma “armadilha”, permite a acumulação dos hidrocarbonetos, impedindo-os de escapar.  

Assim por diante, vá olhando a lista que você fez em torno do petróleo e encadeando. Passe da questão econômica (ações milionárias, grandes fortunas, mega-empresas, interesses de grandes países e mesmo de grupos de países) para a questão logística (ferrovias x rodovias) e siga para meio-ambiente (energias alternativas em substituição do petróleo).

 Sabe por que está fácil? Porque aquelas palavras ali saíram de sua cabeça. Saíram empurradas por algum conceito. Por que você escreveu “bactérias”? Por lembrar que as bactérias têm a ver com a transformação de matéria orgânica em combustível, em óleo.

Você já está habilitado a escrever sua redação.

Depois, pegue outra palavra. MULHER. E faça o mesmo exercício, mãe, origem, lar, família…