Ameaça vazia

Ser eleitor no Brasil não é nenhum privilégio, não traz honra nem dignidade e manter um Congresso como o nosso causa grandes prejuízos ao País.

Então, por que votar ou não votar é tão importante para a Justiça Eleitoral?

Nos últimos dias, a mídia foi inundada com advertências ao eleitor que não votou nas últimas eleições, não pagou a multa nem justificou. São como as penas do inferno e estão todas no Código Eleitoral, art. 7º, § 1º:

“O eleitor que deixar de votar e não   justificar perante o juiz eleitoral até trinta dias após a realização da eleição, incorrerá na multa de três a 10 dez por cento sobre o salário-mínimo da região”.

Assim, o eleitor relapso não poderá inscrever-se em concurso ou prova para cargo ou função pública, investir-se ou empossar-se neles.

Mas, considerando aquele eleitor comum, o homem simples, do bairro distante, em que cargo ou função pública ele poderá se inscrever se todos estão tomados e ocupados pelos políticos que ele elegeu no passado, quando ainda votava?

O mesmo se diga de “receber vencimentos, remuneração, salário ou proventos de função ou emprego público, autárquico ou paraestatal, bem como fundações governamentais, empresas, institutos e sociedades de qualquer natureza, mantidas ou subvencionadas pelo governo ou que exerçam serviço público delegado, correspondentes ao segundo mês subsequente ao da eleição”.

Ele não-só está fora do emprego público, tem de ralar o dia inteiro para ganhar a vida com seus minguados bicos, como ficou esperando aquela “boquinha” prometida pelo candidato e, ao que parece, vai morrer sem ver cumprida a promessa.

Alguns, como os famosos garçons e copeiros do Senado, são recompensados com altos salários (segundo o noticiário, salários de 15 mil para servir cafezinho aos senadores), mas esses votam religiosamente ao comando do chefe. Se não votarem, perdem a mamata.

Nem se diga que haverá prejuízo ao Zé da Silva se ele não “participar de concorrência pública ou administrativa da União, dos Estados, dos Territórios, do Distrito Federal ou dos Municípios, ou das respectivas autarquias”. Se um dia ele comparecer a alguma concorrência ou licitação, com seu chinelo havaiano, sua calça puída, sua camiseta do Banco do Brasil, será expulso da sala.

“Obter empréstimos nas autarquias, sociedades de economia mista, caixas econômicas federais ou estaduais, nos institutos e caixas de previdência social, bem como em qualquer estabelecimento de crédito mantido pelo governo, ou de cuja administração este participe, e com essas entidades celebrar contratos” seria possível se o pobre-diabo não estivesse no SPC por uma prestação das Casas Bahia que deixou de pagar quando ficou desempregado.

Empréstimo da Caixa Econômica sem avalista? Ou com empenho de sua bicicleta velha? Até aqui, nada mais grave poderá ser imputado ao eleitor relapso além de seu próprio dia-a-dia miserável.

Empréstimos do BNDES e do Banco do Brasil são para Eike Batista ou Júnior do FRIBOI ou, ainda, para países africanos falidos amigos de Lula. Eleitor matusquela verá o Juízo Final e não terá acesso a essa grana. Dinheiro do Banco do Brasil ou de cofres oficiais são para shows de Zezé di Camargo ou Ivete Sangalo e não para o bico do descamisado.

O que é uma multa a mais ou a menos para quem não consegue uma simples senha no Posto de Saúde do bairro mais remoto ou não tem dinheiro para comprar remédios quando lhe são receitados?

Para que, também, “obter passaporte” se a última viagem que ele fez foi a Terenos para visitar a sogra doente? Não vai a Las Vegas, e à Disney só vão os filhos do deputado em quem ele “não votou” nas últimas eleições.

Deputado, aliás, acompanha Dilma em seu Air Force 51 ou em missões “oficiais” pelo mundo todo, com passaporte diplomático (como o filho de Lula) e ainda pode trazer muamba sem apresenta-la na alfândega.

O eleitor comum nasce, vive e morre sem ver a capa de um passaporte.

Já ficar “sem identidade” é rematada tolice pois se ele era eleitor, já era identificado.

Ameaçar o Zé Mané com a proibição de “renovar matrícula em estabelecimento de ensino oficial ou fiscalizado pelo governo” é inútil, pois isso ele já sofre todo ano, tendo votado ou não, nas filas de espera das escolas oficiais.

Seus filhos estão engraxando, trampando como flanelinhas, vendendo limão ou jujubas nas esquinas, fazendo bicos ou, se for mais esperto, assaltando velhinhas em estacionamentos de supermercados ou fazendo sequestros-relâmpago em Caixas Automáticos.

A multa é a outra parte da piada, já que ameaçar alguém que já ganha menos do que isso normalmente, com pena de 3 a 10 por cento sobre o salário-mínimo, ou vive de uma aposentadoria mixuruca, garfada pelo governo na época dos recolhimentos, é praticamente inútil.

E, diz a lei, esse valor pode ser aumentado até dez vezes, se o juiz, ou Tribunal considerar que, em virtude da situação econômica do infrator, seria ineficaz a cobrança de inexpressivo valor.

Ou seja, se pode ser aumentada a multa, o que fazer quando o juiz descobrir que o Zé não tem sequer o passe de ônibus para voltar pra casa? Vai, nesse caso, diminuir em dez vezes a multa?

Melhor papel faria a Justiça Eleitoral se fiscalizasse o trabalho dos eleitos, que passam a fazer trapaças no Congresso em nome da democracia, da cidadania e de outras utopias correntes e não há como o eleitor cassar a “procuração” que lhes dá na urna eletrônica.

Ameaçar um Zé Ninguém com a privação de coisas que ele já não tem no dia-a-dia é brincar com o destino, é uma tremenda ironia oficial. E pensar que a obrigação do voto nos torna escravos de tanto lixo parlamentar…

 

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Lições de 2012

Essas eleições, cujo resultado já sabemos, deixarão algumas lições necessárias. Só não percebe aquele que se fossilizou no tempo.

Não se deve deixar o eleitor órfão durante muito tempo como o fazem políticos que, eleitos, abandonam o eleitor à própria sorte, na planície. Durante quatro anos o eleitor sofre todo tipo de violência, filas e ineficiência nos postos de saúde, ônibus sujos, atrasados, aumento de tarifas (IPVA, IPTU, ISS), enquanto o político eleito desfila seus momentos de glória e notoriedade nas mesas de solenidades.

De quatro em quatro anos, voltam para buscar o voto daquele eleitor abandonado, tentando seduzi-lo com novas promessas e o velho chavão “desta vez vamos atender”

Um candidato que já foi majoritário, diante do bordão adversário de que vai atender gente dessa vez, adotou no segundo turno a promessa de “aumentar o acesso à população”, como se isso fosse uma enorme novidade. Pior: como se fossem adotar algo que não fizeram ao longo de 20 anos de indiferença e desmando.

Eis, por que já sabemos, mais uma vez, que o povo é perceptivo e esperto. Todos os “grandes líderes”, os poderosos da vez, aqueles que buscaram, usaram e abusaram do voto sem lembrar de quem os elegeu, anos e anos, estão amargando merecida derrota.

Cabe agora ao que for eleito ler e aprender, sob pena de passar pelo mesmo drama.

A segunda e preciosa lição é que não adianta o candidato que “quase foi eleito” vir à televisão e dizer que está com este ou com aquele lado. Não vai transferir votos, não vai “vender” o espólio a ninguém. Os votos de Azambuja migraram para o lado contrário do que o escolhido pelo “guru” ao fim do primeiro do turno.

O mesmo aconteceu com Russomano em São Paulo. Para quem foram os seus votos? Para ninguém, especificamente, e para todos!  Essa é uma verdade incontestável em 2012.

Um outro fator a ser apreendido é que o eleitor sabe fazer contas e analisar as perspectivas de algumas promessas. Russomano disse que iria criar uma tarifa proporcional à distância percorrida pelo passageiro. Ora, quem mora mais longe passou a excecrar essa proposta, que se revelou suicida para o candidato.

Em Campo Grande, o povo já descobriu que sucessivos mandatos de prefeitos-médicos não melhoraram a saúde, embora o festival de verbas e patranhas tenha servido para eleger deputados federais e senadores médicos (Resende, Moka, Mandetta) e até alguns vereadores como Paulo Siufi.

Os mandatários infiéis, que se julgavam elegíveis para sempre, aprenderam a dura lição de que o povo também se cansa. E, quando cansa, enterra seus ídolos.

A conta está fechada. O pleito servirá, no entanto, para registrar um fato histórico e irreversível: o povo sabe a hora de mudar, embora nem sempre mude para melhor. Sobretudo, povo não gosta de ser órfão por muito tempo.

Hora de aprender

Estamos em um período fértil de aprendizagem.
Nas telas de TV e nos comícios, políticos querendo administrar a cidade e oferecendo-se como alternativas ao atual governante, num desfile de autoproclamadas virtudes.
Ao mesmo tempo, o atual prefeito, no apagar a luzes de seu mandato, resolveu lotear a cidade, entregando seus tesouros a antigos companheiros e empresários dispostos a comprar, a bom preço, um lote da capital.
Na concessão do transporte coletivo urbano, o martelo será batido por bilhões, a um prazo de 30 anos; na do lixo, 35 anos de prazo e mais bilhões de perspectiva de lucros; na de água e saneamento, outro tanto, sendo certo que o prazo concedido será também escandaloso.

Já me perguntaram o que o administrador municipal e seus assessores ganham com esse festival de concessões? Não posso nem devo fazer acusações que demandam prova, mas posso indicar rumos para reflexão de meu leitor.
No caso do transporte coletivo, onde os concessionários atuais “abriram mão”, com estranha generosidade, de dois anos de concessão (tinham contrato até 2014), de um reajuste pelo qual se matava e morria há poucos anos, e certamente, de uma indenização pela ruptura antecipada de seu contrato, isso não é feito por amor à coisa pública.
Como se “perde” tanto sem uma garantia de que haverá uma vantagem qualquer na nova licitação marcada para agosto?

Pois bem, aí é que reside a virtude desse período eleitoral.  Todos os candidatos estão de certa forma comprometidos com esse festival de alienação do lixo, dos ônibus e da água. Uns foram deputados, outros vereadores (dos mais votados, diz a propaganda de um deles), outros, ainda, ligados a partidos vistosos e de antigo envolvimento com a Capital.

O que têm os candidatos a prefeito a dizer sobre as concessões em pauta? Afinal, ficará para eles o ônus de administrar essas concessões, ao menos pelos próximos oito anos. O eleitor deve ficar atento, pois muitos deles nada dirão, pensando, com isso, enganar o vulgo. Outros, por interesse eleitoreiro, abrirão a caixa de ferramentas contra os candidatos majoritários ou até mesmo contra o administrador do dia. Quase nenhum deles tem direito ao silêncio nessa questão, ou por terem participado das leis municipais que estruturaram o aborto licitatório, ou porque se omitiram quando deveriam falar aos gritos.

Registre-se, também, a opinião da arraia miúda, os candidatos a vereador, que, presume-se, farão nossas leis nos próximos anos e devem entender ao menos o básico sobre transporte, saúde, saneamento e meio ambiente.
Falando ou não, em silêncio ou aos brados, é hora de o eleitor aprender com o comportamento dos políticos candidatos e dos candidatos a políticos.

De minha parte, estou registrando cada palavra e cada pausa nessa campanha.

Como dizia Vieira…

(Artigo publicado em  24/06/86)                       

Segundo o padre Antônio Vieira, de quem se diz ser um dos maiores (senão o maior) oradores de nosso idioma, o responder é tão importante que até os rochedos respondem quando tangidos pelo mar. E em outra passagem célebre, disse Vieira que se o responder não fosse importante, Deus não teria feito os mudos também surdos, pois maior angústia não há do que ouvir e não poder dar resposta.

Vivemos num sistema em que a representação do cidadão comum se faz pelas casas legislativas, as Assembléias Legislativas, nos Estados; a Câmara Federal e o Senado, na esfera Federal; e as câmaras municipais, nas cidades.

Temos os três poderes da República (resultado de res publica, traduzida sem muita complicação como coisa pública ou coisa do povo), Legislativo, Executivo e Judiciário.

Nós, os cidadãos, somos o poder supremo, ou, no dizer dos utópicos e sonhadores, a fonte de todo o poder que se distribui entre as três entidades já citadas.

Nós, os cidadãos, repito, pagamos as contas, as internas e externas, os salário dos políticos, dos governadores, dos  presidentes, dos militares, dos funcionários públicos (até daqueles que, por trás dos balcões das repartições, nos tratam com má vontade e descaso).

Nós, os cidadãos, vivemos  sob o império das leis, as boas ou más. É bom que seja assim, pois, do contrário, teríamos a lei do mais forte, dos mais espertos, embora, às vezes tenho a impressão de que mandam no Brasil justamente os mais espertos.

Pois é. No sistema representativo, elegemos os parlamentares para fazer aquilo que, em bom latim, está plasmado em sua denominação: falar por nós, seus eleitores.

Como o voto é secreto, apesar de na inevitável manipulação que sofremos pelos meios de comunicação ele ser, muitas vezes, dirigido, nunca saberemos quem votou em quem. Isso faz com que fique socializado o mandato e cada um dos parlamentares seja, por dever legal e juramentado, representante de todos os eleitores de sua base eleitoral. Não vale dizer “sou deste, daquele partido”.

Quando alguém se lança candidato a um cargo eletivo, apresenta-se com suas virtudes a população e expõe-se de tal forma que, para ser eleito, só poderá sê-lo por um dos meios à disposição que mencionarei a seguir.

Suponhamos que o povo acredite nele. Ele tem um passado de trabalho, lutas, de grande dedicação a alguma causa. Ou, por outra sorte, ele tenha muito dinheiro e faça uma campanha onde, sem dúvida alguma, sua posição há de ser comprada e não conquistada. Ou, finalmente (embora conheçamos outras formas de se chegar à vitória eleitoral), ele seja indicado por alguém em quem o povo acredite, normalmente uma velha raposa da política ou um administrador bem sucedido e admirado por seus feitos.

De qualquer forma, o parlamentar tem um dever para com seus eleitores e muitos para com a nação, como um todo. Exceção feita àquele que adquire seu mandato por compra. Sejamos  justos: esse não nos deve nada. Fez apenas um negócio com aqueles que votaram nele. Ele pagou, foi eleito e os seus votantes receberam a paga por seu voto. Estão quitados.

O que fazer com os outros? Essa é a questão posta. O primeiro e indeclinável dever do deputado, do vereador ou senador é prestar contas de seu mandato. Constantemente. Periodicamente. Em resumo, dar respostas.

Isso não vem sendo feito. Por duas razões básicas conhecidas.

A primeira é, sem dúvida, a falta de interesse do cidadão em questionar seus parlamentares, seus servidores. Admiramos grandemente os oradores, os demagogos, os oportunistas, os que sempre estão nas manchetes. Parecem corajosos e quando aparecem nalgum lugar, tonitruantes, queremos que esteja falando por nós. Incorporamo-nos neles. Acorrem-nos à lembrança vários nomes, ligados a várias causas e não citaremos seus nomes aqui, pois é provável que também a sua mente os tenha captado a esta altura. Fiquemos apenas na tese, por enquanto.

Mas… perguntar, inquirir, mandar-lhes carta, telegramas, reprovações ou até, por que não? um incentivo, isso não fazemos.

Não é nosso costume. O político ungido nas urnas é um deus especial, como também o são os grandes jogadores de futebol, os astros de telenovelas.

Oráculos, é o que são. Eles falam e pedras preciosas descem em cascatas cristalinas de seus discursos inflamados.

Só que respostas mesmo, prestações de contas sobre os que fazem com nosso dinheiro, com as mordomias que eles mesmos votam em seu favor, com imenso custo que pesa sobre nossos ombros, isso eles não dão. Nunca.

Mais uma eleição. Importantíssima, pois teremos uma assembléia, não obstante prostituída em seu sentido mágico e esperado, mas uma assembléia constituinte.

Vamos, desta vez, fazer um esforço. É claro que todos os políticos, antigos e estreantes, sonham fazer parte desse privilegiado grupo que nos dará leis que esperamos sejam permanentes, duradouras, pelo menos. Mas é inevitável, também, que só devem ir para lá os que saibam o que vão fazer no cargo. E, acredite leitor, poucos o sabem. Uns, que pensam que sabem, digamos, os veteranos, são responsáveis pelo que temos hoje e queremos destruir com a nova Constituição, isto é, o lixo, autoritário ou não.

Outros, os novos, os que sonham ter o seu primeiro mandato coincidindo com o mister constitucional, deslumbram-se com a campanha e praticam os mesmos métodos, os mesmos erros, as mesmas táticas, as mesmas armadilhas de seus antecessores e mestres.

Uma coisa me estimula este ano: não errar na escolha.

Perguntei, par escrito, aos senadores, aos deputados federais, aos deputados estaduais e aos vereadores* em que votamos nas eleições passadas, hoje nos cargos, algumas coisas simples, sobre sua atuação e sobre a forma como utilizaram o mandato recebido.

Fecharam-se em concha e não responderam. Apenas os senadores o fizeram, negando-me, é claro, qualquer resposta clara.

Nesses eu não voto e sugiro que você também não o faça.

Só nos falta examinar os novos nomes. Que venham, pois.

* Meu ofício foi dirigido a José Fragelli (que era presidente do Senado), Ulisses Guimarães (presidente da Câmara), Ghandi Jamil (presidente da Assembléia) e Francisco Maia (Câmara Municipal). Só Fragelli (senador aquidauanense) e Ulisses (o da Constituição Cidadã) me responderam: negando o direito de saber o que meus parlamentares faziam durante o mandato!

Milhões de órfãos

Um candidato se apresenta ao voto popular, pede votos, promete um programa de trabalho e no fim recebe 1 milhão de votos. Vira senador.

Toma posse, freqüenta o Senado por seis, oito meses, um ano e vem outra eleição. Lá vai ele em busca de um mandato para governador, prefeito, abandonando o mandato que lhe foi conferido.

Abandonando suas promessas. Deixando o trabalho no início, quando muito, ao meio. Alguns nem satisfação oferecem aos eleitores! Simplesmente passam o bastão para o suplente, não-raro uma figura descolorida, sem passado, sem futuro e com um presente de aprendiz.

Um milhão, quinhentos mil, duzentos mil eleitores são desrespeitados, são oferecidos como moeda, como quirera, como lixo ao suplente. “Aí vai, companheiro. Tome conta desse espólio, desse rescaldo de incêndio, desses despojos de guerra”, diz o parlamenta fujão.

Uma tristeza. Infelizmente, já vimos esse filme em todos os partidos. O próprio Serra já teve seu capítulo de fuga.

Lamentavalmente, a Justiça Eleitoral não veda esse comportamento desonesto, vergonhoso. Os eleitores são surpreendidos e, pior, quanto mais expressiva é a votação, mais o candidato se qualifica a alçar outros voos.

É claro que em matéria eleitoral, no Brasil, não se deve mesmo pedir ética, posto que é matéria desconhecida dessa corja lobotomizada de Brasília. Mas o tema serve para reflexão, no momento.

No Espírito Santo, um senador com 1 milhão de votos disputa a cadeira de governador. Deixou o mandato para uma irrelevante, desconhecida, inexpressiva suplente, que não sabe para que veio nem para onde vai.
Ganhou na loteria e não tem idéia de quem é esse contingente de 1 milhão de almas, de órfãos. De prático, sabe ela que ninguém lhe deu um mísero voto daquela fenomenal cesta de sufrágios. Maria-ninguém.

Quando haverá respeito pelo eleitor? Quando deixaremos de ser apenas essa massa de manobra que, de quando em quando, comparece às urnas para dar um emprego qualificado e bem remunerado a um grupo de sanguessugas, de aproveitadores, de gente rosada, bem alimentada à nossa custa?

Pelo andar das coisas vai demorar até criarmos vergonha na cara e fazermos uma mobilização contra esses safados que nos enganam, que nos empulham, que nos fazem de trouxas a cada eleição.

Não digo que alguém, de boa índole, bom administrador, uma vez eleito para um cargo parlamentar, não possa lograr ser governador ou prefeito. É possível e até desejável em alguns raros casos.

Defendo, ao menos, nesses casos, um plebiscito. Certamente que um milhão de eleitores que votaram nesse deputado ou senador não lhe negarão a vaga de governador. Pode até ser que o desejem lá. O problema é que eles não consultam, sequer avisam que vão fazer essa patranha.

O partido tal decidiu que a vaga é do Zé da Silva e pronto.
A democracia e seus cargos de governo são vergonhosamente loteados, como se fossem bananas de feira.

A verdade é que, a cada eleição, sinto-me menos cidadão.

Em troca, todo político me parece, a cada dia, um crápula indigno de confiança.

Nome limpo, ficha limpa

Sempre fui contra o voto secreto. Talvez porque sempre fiz questão de opinar, decidir por um lado e não fazer segredo algum disso. Justifico-me com os amigos que me pedem voto para si mesmos ou para este ou aquele candidato dizendo que, embora lamente, estou votando e trabalhando por fulano ou cicrano.

Nunca tive problema com esse comportamento, que me evitou, até, alguns constrangimentos. Por exemplo, nas eleições da OAB, quando os advogados costumam fazer churrascos, coquetéis, eventos em favor de um determinado candidato. Quando este convite é do time adversário, ele não chega ao meu escritório, precisamente, porque já sabem minha posição.

O constrangimento de minha presença entre partidários daquele candidato seria evidente, razão por que evitamos, tacitamente, sua ocorrência.

Não voto em branco. Quando sou obrigado a escolher entre dois candidatos ruins, o menos nocivo recebe meu voto e já faço um compromisso ao sair da seção eleitoral: vou acompanhar o safado até o fim, para diminuir meus prejuízos.

Não tem dado certo porque o Brasil é o país da impunidade e não adianta o cidadão reclamar. Os políticos nos tratam como aqueles telefones de rodovia e só falam conosco no grande acidente chamado eleições.

Voltando ao voto secreto, sou contra e já preguei até o voto por procuração na própria OAB/MS, da qual fui secretário e conselheiro por quase dez anos.

Contra porque no voto secreto não há compromisso entre eleitor e candidato. Este não tem certeza de que recebeu aqueles votos, que se transformam naquela massa de números indecifráveis.

O eleitor, por sua vez, esconde-se atrás do anonimato, do segredo das urnas, para mentir ao deputado ou vereador. Pode até ser sincero quando diz “votei em você”, mas esse será um mistério indecifrável por toda a vida.

Se ninguém sabe em quem votei, posso ter votado em qualquer um, naquele safado flagrado recebendo propina ou no mais honesto dos representantes parlamentares.

Esse jogo de esconde-esconde nos torna cúmplices no maior dos crimes: a falta de compromisso democrático. Na Ágora grega, o cidadão maculava a bata branca do candidato, jogando-lhe lama. Era a manifestação pública, cara a cara, entre candidato e seu eleitor potencial.

Se a candura sobrevivia na praça pública, o candidato era incensado pelo povo e conduzido ao seu cargo.

Muitos dos meninos que estão lutando em Brasília pela renúncia dos representantes corruptos, que nas TVs de todo o país recebiam propina no horário nobre, votaram naqueles parlamentares, votaram nos poucos que sobreviveram à caça ou, pior, não votaram em ninguém.

Hoje, vão à Ágora, manifestam-se publicamente, xingam, jogam lodo nas vestes dos seus representantes e exigem a sua renúncia, pura e simplesmente.

Válido o processo. Inteiramente reconhecido o seu direito de protestar e até exigir um julgamento sumário. Desejável esse movimento, nessa democracia morna e insípida em que vivemos.

Certa vez perguntaram-me como seria o voto aberto? Eu disse que deveríamos votar nos partidos. Vou a uma seção em que só há candidatos do PT e voto nesses candidatos, nominalmente. Se a votação é nominal, por exemplo, para presidente, vou à uma seção de José Serra e deposito meu voto. Outro, vai à seção da Dilma e faz o mesmo.

Só que minha ida àquela seção me qualifica para discutir o mandato, as ações, reclamar dos erros e até cassar o mandato de meu presidente, porque votei nele, dei-lhe uma procuração, porque ele é meu mandatário.

Na Califórnia, o governador Schwarzenegger manda para a casa dos eleitores um formulário de voto quando tem um tema que exija manifestação popular. O formulário tem três partes: um capítulo detalhando a proposta (a que vi tratava de retirar comidas gordurosas das cantinas em escolas públicas), outro com os argumentos favoráveis, outro com argumentos contrários e uma parte destacável onde há sim e não.

O eleitor se identifica, até porque há seu endereço no formulário, diz que é favorável ou contrário à proposta. Tabulados os resultados, o governador teve segurança em adotar a medida que, apenas para informação, foi favorável à campanha anti-gordura nas escolas.

A lição que tirei daquele formulário foi: o voto não é o mais importante, nem a pesquisa apenas numérica de tantos votos contrários ou quantos votos favoráveis e  anônimos. O importante é o voto declarado (favorável ou não) de Bill Travers à proposta.

Com a cópia daquele canhoto Bill pode ir ao governador e dizer que ele tomou a melhor decisão baseado em seu voto ou, em contrapartida, dizer “erramos juntos, governador”.

O duro é ter essa turba de políticos descompromissados, eleitos por anônimos, de um lado, e de outro essa massa de carneiros caminhando para o matadouro, inconscientes de seu verdadeiros poder de voto e de veto.

Hoje, nada me livra dessa sensação incômoda: o voto secreto é um faz-de-conta, a negação suprema do contrato social, do compromisso político. Eleição após eleição, vamos lá, tímidos, escondidos atrás de nossas urnas e exercemos a mais sagrada de todas as manifestações: o voto. A sacralidade perde-se na timidez do segredo.