Aprendendo com as formigas

Uma das mais bem estruturadas famílias da natureza é o formigueiro. Há operárias que mantêm o ambiente limpo e organizado, há soldados que defendem a casa e, principalmente, a rainha, se necessário com a própria vida, e assim por diante.

Qual é a forma de se liquidar com essa família organizada e defendida? Um dia, uma caçadora, uma operária, leva para dentro do formigueiro um grãozinho de veneno e o desastre está feito!

Qual é a lição que aprendemos desse exemplo? Até as famílias bem organizadas e, repito, defendidas, podem ser implodidas pela imprudência e pela irreflexão.

Hoje, pelas redes sociais, centenas de artistas atiram pedras sobre o ECAD, um mero instrumento de execução da política de direitos autorais das sociedades de autores. São formigas levando grãozinhos de veneno para o formigueiro.

De fora, o governo, prefeituras, sociedades sem fins lucrativos, organismos filantrópicos, interessados em nada pagar ou pagar o mínimo possível sobre o que eles entendem ser “bens culturais” e, pois, obras de domínio público, espalham seus grãozinhos de veneno, esperando que os compositores e cantores operários destruam o próprio formigueiro.

Se o ECAD acabar ou, por um decreto qualquer, perder suas funções exclusivas, entrará um grande, ineficiente e corrupto cartório onde o governo mandará e desmandará sobre o direito autoral.  Quando isso acontecer, quando esse grãozinho de veneno entrar no formigueiro, não haverá diferença entre escravos médicos cubanos e compositores.

Pior: o dinheiro que está chegando em gotas aos compositores passará a irrigar e sustentar políticos corruptos, mensaleiros, cabos eleitorais e parasitas em geral.

Então, não se deve protestar e lutar por melhorias no ECAD? Ao contrário, mais do que nunca, esse escritório precisa e deve ser aparelhado em pessoal e tecnologia para cumprir sua função.

Mas esse é um assunto essencialmente interno. Sociedades, ECAD, compositores, artistas. Ponto final. Coisa do formigueiro, não dos produtores de inseticidas.

Em primeiro lugar, só pode trabalhar no ECAD quem compreenda o seu espírito estatutário: ele trabalha para a sobrevivência e defesa de seus artistas, sua razão de ser, seu patrimônio. Fiscais mal treinados, desleixados, que preenchem erroneamente seus formulários, causando retenção de direitos essenciais à sobrevivência de compositores espalhados pelo país não são culpa apenas do ECAD mas, sobretudo, das sociedades que os tratam com leniência.

Enfim, funcionários que entendam uma verdade: pessoas jurídicas não passam fome, não pagam aluguel, compram gasolina e sustentam famílias; compositores e artistas, sim.

Nesse sentido, é preciso reconhecer que não há investimento suficiente no ECAD, sendo ele a cara das sociedades que o mantêm. Se as sociedades não entenderem a necessidade desse investimento e da melhoria da arrecadação, o ECAD continuará ineficiente.

Finalmente, aqui vai um grãozinho não de veneno, mas de bom senso aos artistas brasileiros. O ECAD é seu instrumento principal de execução de seus direitos autorais. Se ele não serve, como está, reestruturem-no, fortaleçam seus músculos, em silêncio, em low profile, pois o inimigo – os partidários da música gratuita – conta com seu enfraquecimento, se possível, com sua destruição completa.

Essa lambança pelas redes sociais só é útil ao inimigo e não conduzirá a um bom destino.

Ao invés de combater o ECAD, atirando no próprio pé através das redes sociais, alimentando argumentos de políticos hostis aos seus interesses, urge que artistas saibam que a principal trincheira de seus direitos, a porta do formigueiro, é a administração inteligente de seu repertório apresentado ao ECAD. Ou seja: eles mesmos são a solução do problema!

O artista consciente, que informa corretamente seu repertório e não abre mão da arrecadação, não “negocia” a própria alma com promoters desonestos, garante a sobrevivência do compositor na outra ponta. Este, protegido pelo artista e executor da obra, tem tempo e inspiração para compor e produzir mais músicas de qualidade, alimentando o ciclo virtuoso entre composição e execução.

Nos Estados Unidos, onde os sindicatos se encarregam da arrecadação dos direitos autorais, salvo as exceções de sempre (o homem é o lobo do homem, já dizia Hobbes), os executores garantem o recebimento dos autores e por isso a arte terá vida longa por lá. A última coisa que se quer por aquelas bandas é que o governo interfira nesse meio, já que o Estado não produz, não compõe e, normalmente, é mero parasita a viver da arte alheia.

Aqui não é diferente, mas hoje, ao invés de os artistas se mobilizarem para melhorar a estrutura arrecadatória, usando a inteligência do formigueiro, onde cada um tem sua função mas todos protegem a rainha, que podemos definir como a obra musical, a produção cultural, saem batendo no ECAD, ajudando os que pretendem liquidá-lo.

É preciso defender o formigueiro, defendendo a família, organizando a máquina e evitando os operários descuidados que trazem de fora o veneno que a todos matará. Em silêncio, eficientemente, em reuniões próprias. O povo lá de fora não compreende a complexidade da questão autoral e agentes governamentais não são interlocutores confiáveis.

O ECAD tem a nossa cara, a cara das sociedades. Se ela é feia, precisamos melhorá-la, mas nunca combatê-la. A solução está em nós mesmos e não nas redes.

 

Aprendamos com as formigas.

Perguntar não ofende

O exercício da democracia presume um permanente aprendizado de todos os cidadãos, governantes ou governados.

Infelizmente, o retorno de figuras caricatas como Sarney, Renan Calheiros, Michel Temer, José Genoíno, Jader Barbalho e tantos outros traficantes do poder demonstra que o povo, na hora de eleger, de fazer escolhas, ainda tem muito a aprender.

Esses “eleitos” com base numa planilha de interesses – sempre escusos! – ficam quatro, mais quatro e tantos outros quatro anos gozando de mordomias impensadas aos seus próprios eleitores, adquirem fazendas, ilhas, imóveis e guardam dinheiro em paraísos fiscais. E, ano após ano, as amebas e os carneiros que votam neles, os reconduzem aos seus cargos mais do que privilegiados.

Quando saem, por decrepitude ou outra causa, colocam a filha, um parente, a mulher ou um apaniguado, capacho ou títere preparado para a ocasião.

A cada eleição, fazem, religiosa e eficientemente, sua parte: distribuem reles empregos (os melhores vencimentos ficam para eles mesmos e seus mais chegados), camisetas, chaveirinhos, folhinhas de parede e outras quinquilharias.

A verdade é que nunca fizemos determinadas perguntas antes de sairmos casa para depositar o nosso voto nas urnas.

Essas perguntas são, pelo menos, estas:

“Quem pode fazer leis por mim?”

Se estou votando para deputado ou vereador, no mínimo, o candidato deve ter alguma intimidade com a atividade parlamentar, com o múnus legislativo. Não precisa ser advogado, mas, ao menos, deve ter conhecimentos da Lei Orgânica (tem vereador que nunca e leu!) e, se não sabe diretamente fazer leis, que contrate bons assessores.

“Quem pode ordenar a ocupação do solo urbano?”

O que o candidato sabe sobre isso, sobre ocupações dos sem-teto, sem-terras, sem isso e sem aquilo. O que sabe sobre desafetação (mudança de destinação de uma área pública), planejamento urbano e assim por diante?

“Quem pode cuidar do meio ambiente?”

As decisões sobre mananciais, sobre recursos hídricos, sobre coleta, seleção e tratamento do lixo, sobre destinação dos resíduos urbanos da construção civil, dos restaurantes, dos hospitais serão tomadas pelo parlamentar. Mas… o que ele sabe sobre isso?

“Quem pode decidir matéria tributária?”

Se meu candidato vai decidir por mim a coleta, partilha e destinação dos tributos, quero saber se ele tem alguma ideia da importância do tema. Tem vereador que não sabe o que é fato gerador.

“Quem pode legislar sobre educação?”

Projetar os investimentos em educação significa a sobrevivência de uma cidade! Os parlamentares, não-raramente, querem saber apenas quanto ganharão de propina se os uniformes das escolas públicas forem fabricadas em Minas Gerais ou São Paulo. Basta ver o recente escândalo da merenda escolar, ocorrido sob as barbas dos parlamentares.

“Quem pode cuidar do Tesouro por mim?”

Quem pode administrar a fortuna arrecadada em impostos, com honestidade, seriedade, em meu nome e a meu favor? O governo federal faz trapaças com o cartão corporativo, o Senado faz lambanças com os cargos de confiança e todos, sem exceção, querem mamar nas tetas generosas da República.

“Quem vai fiscalizar o Executivo por mim?”

Não falo de trocar torpedinhos pelo Facebook sobre a administração municipal. Falo de fiscalização séria, com conhecimento de causa. Ao contrário, é a própria Câmara que chama o Tribunal de Contas para “fiscalizar” o prefeito! Atualmente, como se fosse um parquinho de diversões, a Câmara se dedica a “cassar” o prefeito (versão oficial) e a trocar favores e cargos com ele pelo voto no processo (versão subterrânea).

Há quatro ou cinco vereadores com seus mandatos por um fio, frequentando a Câmara sob liminares. Basta ao prefeito alegar inidoneidade e suspeição desses vereadores e o processo se alongará pelos próximos dez anos.

Assim, perguntar “quem vai cuidar da cidade enquanto eu trabalho”, “quem vai ordenar o trânsito”, quem “cuidará da saúde” ou quem vai “economizar recursos” por mim me dará uma boa pista de quem vai merecer meu voto. Não será qualquer pé-rapado, empurrado por acordos partidários, que há de me representar nas Câmaras ou na Assembleia.

Vamos aprender com os filósofos, para quem, cada povo tem o governo que merece.

 

Um país decente

Acabo de votar. 45. Daqui a pouco, teremos o resultado de mais um pleito eleitoral.

Meu voto, quero crer, significou uma declaração de que desejo um país melhor, evoluído, moderno, terra abençoada para viver, produzir e, sobretudo, ser feliz.

Penso que o Brasil ainda pode ser chamado de um país com esperança. Qualquer que seja o resultado das urnas. Mas ainda está longe de ser um país decente.

Um país decente é aquele em que os partidários de um candidato são fiadores de suas propostas, já que nenhum dos lados milita para a desdita dos demais.

Num país decente, os vencedores não são os que tornam quatro anos de mandato uma festa de comemoração e vingança, onde perseguir o adversário é a meta principal e perdoar os erros e as mazelas do eleito, o vírus da impunidade que a todos mata e anula, passa a ser um mecanismo de defesa.

“Estou com fulano para o que der e vier”, sou “cicrano até embaixo dágua”, “não abandono o presidente ou o governador tal mesmo que ele trapaceie, pois prometi  estar a seu lado na tempestade e no bom tempo” são frases em desuso num país decente.

Num país decente a oposição não é o lado que perde, lava as mãos e fica torcendo para o vencedor “quebrar a cara”, cair em desgraça, cometer erros que, afinal, vão prejudicar todos os brasileiros.

Num país que mereça esse nome, a oposição é fiscal das propostas do que venceu e torce para que elas sejam cumpridas, já que ao participar das eleições, todos, opositores e partidários, coonestaram o sistema, avalizaram o processo, tornaram possível a escolha de um dos contendores.

Num país decente, opositores e partidários não abandonam o candidato eleito à própria sorte ou, pior, ao próprio arbítrio, só voltando a discutir política nas próximas eleições. Participar de propostas, projetos, decisões e, sobretudo, fiscalizar a execução é fundamental na democracia de um país que mereça esse nome.

Terminado o pleito, assinada a posse, não é um partido, um homem ou uma mulher que assume o nosso país, mas um presidente, um gerente, um administrador escolhido para gerir o Tesouro Nacional, aplicar eficiente os recursos que vamos gerar com o nosso trabalho, cuidar da saúde, da segurança, do meio-ambiente, da economia, da educação e assim por diante.

Serra ou Dilma terá em mim, após a posse, nem amigo, nem inimigo, apenas um cidadão atento, que ama o seu país e não chuta contra o próprio gol.

E que pensa, sinceramente,  que todos, ao final da contagem, somos responsáveis pelo resultado que emana das urnas.

Essa responsabilidade, distribuída entre perdedores e ganhadores, é que faz um país decente.

Candidatos conjugados

Desde 1989, venho repetindo, reeditando, remendando mas sempre divulgando um artigo escrito naquele ano, com o nome “Cândidos candidatos, conjugados em três tempos”.

Na verdade, a idéia é muito simples. Trata-se de analisar os candidatos que aparecem na TV em três tempos, passado, presente e futuro.

Afinal, como diz o Tribunal Regional Eleitoral, em propaganda muito oportuna, não se pode esperar quatro anos para corrigir uma escolha política equivocada. É muito tempo e o efeito nefasto poderá ser irreparável.

No painel da propaganda eleitoral aparecem candidatos novos, sem passado, cheios de idéias. Alguns, embora novos no trecho, trazem idéias ultrapassadas, senão estapafúrdias. O já não tão desconhecido Suel pretende corrigir falhas que só o mágico Merlin poderá fazê-lo. Ataca em seu horário a inflação “que corrói o poder aquisitivo” do trabalhador, a exploração da burguesia, seja lá o que isso quiser dizer.

O eleitor deve olhar os novos, os sem passado, e ver o que fazem no presente. Muitos são professores, balconistas, funcionários públicos, todos querendo um emprego melhor, o de vereador.

Projetos futuros? Todos querem corrigir o “que aí está”. Nada de novo. Querem combater os efeitos da violência, sem nenhuma idéia de como conseguir essa mágica.

Aí vêm os mais experientes. Olhe o seu passado, veja com quem eles andaram, o que fizeram até hoje, quais são suas realizações, se já ocuparam postos de mando, se foram executivos bem sucedidos. Devem ter um passado político!

Se foram políticos, que projetos apresentaram, o que realizaram? Muitos deles se esquecem do que fizeram e pensam que o povo também esqueceu. Todo mau político acha que o povo tem memória curta. Infelizmente, essa conclusão é verdadeira. Tanto assim que quase ninguém sabe em quem votou no último pleito.

Teruel, por exemplo, foi vereador. Então, quando fala em transporte coletivo mais caro do Brasil, deve saber que votou a tarifa cobrada, teve poder para fiscalizar o processo licitatório. Qual foi sua posição? O que fez para se contrapor à “tarifa mais cara do país”?

Como deputado, quais foram seus projetos para diminuir a violência no Estado? Quais foram suas iniciativas na área de incentivos fiscais de atração de indústrias para o Estado? Como prefeito ele será cópia do que foi como político.

Como político do PT, Teruel tem um passado ligado a Zeca do PT, para o bem e para o mal. Conta-se que ele está evitando a aparição de Zeca em seu programa político. O que haverá de contradição entre os dois? Qual foi o papel do candidato a prefeito quando era quadro de Zeca do PT?

Qual foi o empenho do candidato a prefeito petista no cabuloso e nebuloso episódio da verba para combate às erosões do Rio Taquari e de investimentos na preservação do Pantanal? No governo Zeca, do qual Teruel participava, o Estado perdeu por ineficiência total a verba que viria do BID, em torno de 200 milhões de dólares.

Sem responder a esses questionamentos sobre passado e presente, Teruel ou qualquer outro candidato não pode se candidatar a prefeito de uma cidade tão complexa e dinâmica como Campo Grande.

O seu projeto futuro fala em combate à violência, em transporte melhor e mais barato, em saúde de qualidade. Mas tudo isso esteve sobre o seu foco parlamentar no passado e no presente. Como será o futuro?

No que tange ao partido, foi um desastre. Nada do que se planejou em termos de orçamento participativo foi executado! E a máquina de governo foi transformada em cabide de empregos. Como atuará Teruel diante de um mau exemplo como esse?

Nelsinho tem se saído melhor nessa conjugação, por ter um passado parlamentar participativo e, especialmente, porque foi prefeito de uma das melhores administrações à frente da Capital.

Mesmo esforçado, há queixas nos postos de saúde, há assaltos nos ônibus municipais, há problemas ambientais graves. Há muito a fazer no futuro próximo.

Portanto, mesmo tendo sido um bom prefeito, para o próximo mandato o eleitor deve analisá-lo sob os tempos passado, presente e futuro. Só assim se pode vislumbrar o que será sua administração. Pense na cidade, pense na complexidade de uma capital, no transporte, nos postos de saúde, no trânsito.

Seja qual for a roupagem da mídia, da assessoria de comunicação do seu candidato, muito eficientes em vestir as propostas de colorido e sonoridade, conjugue-o nesses três tempos.

E, na hora certa, vote bem.