Castigo

(Editorial de O Estado MS, 8/4/13)

Poucos foram os que não criticaram a posição da auxiliar de serviços domésticos que deixou aos cuidados de uma filha de dez anos o caçula, de seis, assassinado na última semana com requintes de crueldade e excesso de covardia. As crianças passavam parte do tempo sozinhas e estavam uma sob a responsabilidade da outra enquanto a mãe cometia o crime de trabalhar para alimentá-las. É possível dizer que com o salário de auxiliar de serviços gerais, a prioridade é o alimento.

O ofício destinado às pessoas que não têm qualificação mínima e nem profissão definida, garantia aos filhos uma infância mais confortável que a vivida pela mãe. Sozinha há dois anos, a mulher precisou enfrentar o mercado de trabalho porque o companheiro morreu e na partida repentina não ficaram economias, considerando que a família sempre teve apertos no orçamento.

A história é igual à de milhões de famílias de brasileiros. Mães saem cedo, deixam o destino dos filhos por conta de Deus e contam com a proteção Dele para o retorno. Não podem dar-se ao luxo de ficarem somente em casa, sozinhas ou tendo um companheiro ao lado. Algumas até conseguem, têm os programas “bolsas tudo”, porém outras só podem contar mesmo com a força do trabalho e a confiança na educação que destinam aos filhos.

A auxiliar de serviços gerais de Campo Grande que figura esse texto deu uma correta educação aos filhos. O mais novo não aceitou ver o pouco que a família tinha ser carregado de forma violenta por um ladrão adolescente e pagou com a única coisa que tinha, a vida. Não faltaram dedos em riste para apontá-la. Afinal, deixar os filhos sozinhos e tão pequenos para trabalhar é sim um delito inaceitável, mas não só para ela. No ponto responsabilidade, não faltaram omissões em relação ao garoto que, agora, só vai povoar a saudade da mãe e da irmã.

A criança não deveria estar em casa sozinha. Precisava estar em uma escola de tempo integral aprendendo e sendo preparada para um longo e promissor futuro. Dela sonegaram primeiro a presença da mãe, depois a educação e, por fim, a vida. O menino corajoso que não quis ver a casa assaltada precisava de uma proteção que vai além das barras da mulher que o pariu. Precisava da ação forte do Estado que não ofertou condições para que a mãe dele viúva trabalhasse. Carecia de um MP (Ministério Público) atuante que não cobrou da Justiça a ausência do serviço. Necessitava de uma Justiça menos morosa e mais equilibrada que não condena gestores omissos e corruptos. Faltou ao menino a aplicação de recursos por parte do Ministério da Educação, que prevê para um futuro distante o ensino integral.

Naquela casa, no bairro Itamaracá, morreram junto com Cauã muito da dignidade das crianças brasileiras que, assim como ele, também não têm direito a estar com as mães porque estas estão na labuta, na busca por alimentos. Delegar culpa à mãe é fácil, embora covarde, difícil é reconhecer que nas mãos do algoz que amordaçou e asfixiou o garoto estava um pouco da força de cada ente público. Enquanto a falta de educação imperar, outros morrerão e mais mães carregarão sozinhas, injustamente, a culpa.

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Povo não é lixo!

O povo de Campo Grande, MS, deve sentir-se, literalmente, um lixo.

É o que se depreende da audiência pública realizada na terça-feira, na Comissão Permanente de Meio Ambiente da Câmara Municipal, onde se manifestaram algumas entidades e até os catadores de lixo, diretamente interessados no assunto.

Alguns detalhes da licitação promovida pelo Poder Executivo Municipal podem ser resumidos em uma palavra e sem nenhum exagero: escândalo.

Primeiro, é escandaloso o prazo concedido pela Prefeitura ao concessionário: 25 anos, mais uma prorrogação de 10.

Basta imaginar que um jovem de 35 anos terá 70 quando terminar esse contrato, desfilando sob suas páginas e efeitos pelo menos duas gerações.

O segundo ponto, este, a meu ver, absurdo, é o fato de se cobrar mais de mil reais para que uma entidade tenha acesso ao edital da licitação, valendo dizer que a defesa da cidadania ficou cerceada pelo preço da informação.

Diz a Constituição Federal que (art. 5º, XXXIII) “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado” e (XXXIV) “são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas: a)  o direito de petição aos poderes públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder; b)  a obtenção de certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal”.

Mas cumprir a Constituição foi o menor dos males do Município, nesse caso.

De forma estranha, a Prefeitura resolveu adotar o modelo de Parceria Público-Privada, instituto bastante utilizado por Aécio Neves em Minas Gerais, onde o Poder Público se associa à iniciativa privada para prestar melhores serviços à população.

O exemplo mais notório de PPP é o pedágio, em que a empresa privada administra um trecho de estrada, provendo manutenção e investindo em melhorias na rodovia e, em troca, recebendo pedágio diretamente do usuário. Quando feita honestamente, a PPP é um sucesso, já que a iniciativa privada costuma ser mais ágil e eficiente do que o corrupto setor público brasileiro.

Pois bem, o prefeito de Campo Grande deu ao edital o nome de Parceria Público Privada mas na cláusula 18 do contrato de concessão decidiu pagar o serviço integralmente com recursos do Tesouro Municipal, desnaturando a parceria público-privada.

Quando diz que o serviço será pago “por conta das Dotações Orçamentárias 0101 15 452 58 2064 33903709 FR: 01 – Recursos do Tesouro e 0101 15 452 58 2064 31903400 FR: 01 – Recursos do Tesouro” o que importa saber é que todos nós vamos moer nosso dinheiro de saúde, saneamento, segurança e tantos outros em custeio da coleta de lixo.

 

O art. 7º, § 3º, da Lei Federal 11.079, de 30 de dezembro de 2004, diz que “as concessões patrocinadas em que mais de 70% da remuneração do parceiro privado for paga pela Administração Pública dependerão de autorização legislativa específica”.

 

Ora, apesar desse texto claríssimo, e da evidência de que o pagamento ao concessionário será de 100% com recursos do Tesouro, essa lei não existe.

 

Tem mais, no entanto: os resíduos que têm valor comercial (papel, papelão, plástico, alumínio) ficam para o concessionário explorar no mercado.

 

No mundo todo, lixo, mais do que problema, é dinheiro grosso.
Só aqui nós daremos de presente esse insumo e ainda pagaremos uma nota preta (mais de bilhão de reais) pela concessão, ao longo de gerações.

 

O edital não se faz acompanhar dos projetos e do planejamento que uma concessão de tal magnitude envolve ou deveria envolver.

 

Recursos, áreas disponíveis, aumento populacional e expansão da tonelagem de resíduos que isso acarreta, efeitos no meio ambiente e muito mais.

 

Para terminar, verifiquei que, mesmo sendo a participação popular seja requisito indispensável, conforme a Lei Municipal 5.008/11, que incluiu entre as diretrizes do Programa de Parceria Público-Privada a “participação popular mediante consulta pública”, a população pouco foi ouvida nesse caso, o que, por si só, anula a licitação.

Na verdade, embora se tenha ouvido falar de uma pífia audiência pública, os projetos não foram publicados e oferecidos ao exame público.

A lei federal diz que a minuta do edital e do contrato devem ser publicados em diário oficial e jornais de grande circulação, onde se informe a justificativa para a contratação, a identificação do objeto, o prazo de duração do contrato, seu valor estimado, fixando-se prazo mínimo de 30 dias para recebimento de sugestões.

Só depois disso, será publicado o edital.

É simples de entender que uma licitação desse porte e pelo prazo de uma vida inteira interessa a todos os habitantes de uma cidade.

Quanto mais fechada a licitação, mais nebulosa. Quanto mais suspeita ou duvidosa, mais prejuízo trará ao povo em benefício de um ou dois grupos econômicos.

A audiência pública concluiu pela impugnação do edital.

Não se quer deixar o lixo sem licitação, já que isso interessa à população. O que não se pode permitir é que, justamente nesse processo, o povo seja tratado como lixo.

Como dizia Vieira…

(Artigo publicado em  24/06/86)                       

Segundo o padre Antônio Vieira, de quem se diz ser um dos maiores (senão o maior) oradores de nosso idioma, o responder é tão importante que até os rochedos respondem quando tangidos pelo mar. E em outra passagem célebre, disse Vieira que se o responder não fosse importante, Deus não teria feito os mudos também surdos, pois maior angústia não há do que ouvir e não poder dar resposta.

Vivemos num sistema em que a representação do cidadão comum se faz pelas casas legislativas, as Assembléias Legislativas, nos Estados; a Câmara Federal e o Senado, na esfera Federal; e as câmaras municipais, nas cidades.

Temos os três poderes da República (resultado de res publica, traduzida sem muita complicação como coisa pública ou coisa do povo), Legislativo, Executivo e Judiciário.

Nós, os cidadãos, somos o poder supremo, ou, no dizer dos utópicos e sonhadores, a fonte de todo o poder que se distribui entre as três entidades já citadas.

Nós, os cidadãos, repito, pagamos as contas, as internas e externas, os salário dos políticos, dos governadores, dos  presidentes, dos militares, dos funcionários públicos (até daqueles que, por trás dos balcões das repartições, nos tratam com má vontade e descaso).

Nós, os cidadãos, vivemos  sob o império das leis, as boas ou más. É bom que seja assim, pois, do contrário, teríamos a lei do mais forte, dos mais espertos, embora, às vezes tenho a impressão de que mandam no Brasil justamente os mais espertos.

Pois é. No sistema representativo, elegemos os parlamentares para fazer aquilo que, em bom latim, está plasmado em sua denominação: falar por nós, seus eleitores.

Como o voto é secreto, apesar de na inevitável manipulação que sofremos pelos meios de comunicação ele ser, muitas vezes, dirigido, nunca saberemos quem votou em quem. Isso faz com que fique socializado o mandato e cada um dos parlamentares seja, por dever legal e juramentado, representante de todos os eleitores de sua base eleitoral. Não vale dizer “sou deste, daquele partido”.

Quando alguém se lança candidato a um cargo eletivo, apresenta-se com suas virtudes a população e expõe-se de tal forma que, para ser eleito, só poderá sê-lo por um dos meios à disposição que mencionarei a seguir.

Suponhamos que o povo acredite nele. Ele tem um passado de trabalho, lutas, de grande dedicação a alguma causa. Ou, por outra sorte, ele tenha muito dinheiro e faça uma campanha onde, sem dúvida alguma, sua posição há de ser comprada e não conquistada. Ou, finalmente (embora conheçamos outras formas de se chegar à vitória eleitoral), ele seja indicado por alguém em quem o povo acredite, normalmente uma velha raposa da política ou um administrador bem sucedido e admirado por seus feitos.

De qualquer forma, o parlamentar tem um dever para com seus eleitores e muitos para com a nação, como um todo. Exceção feita àquele que adquire seu mandato por compra. Sejamos  justos: esse não nos deve nada. Fez apenas um negócio com aqueles que votaram nele. Ele pagou, foi eleito e os seus votantes receberam a paga por seu voto. Estão quitados.

O que fazer com os outros? Essa é a questão posta. O primeiro e indeclinável dever do deputado, do vereador ou senador é prestar contas de seu mandato. Constantemente. Periodicamente. Em resumo, dar respostas.

Isso não vem sendo feito. Por duas razões básicas conhecidas.

A primeira é, sem dúvida, a falta de interesse do cidadão em questionar seus parlamentares, seus servidores. Admiramos grandemente os oradores, os demagogos, os oportunistas, os que sempre estão nas manchetes. Parecem corajosos e quando aparecem nalgum lugar, tonitruantes, queremos que esteja falando por nós. Incorporamo-nos neles. Acorrem-nos à lembrança vários nomes, ligados a várias causas e não citaremos seus nomes aqui, pois é provável que também a sua mente os tenha captado a esta altura. Fiquemos apenas na tese, por enquanto.

Mas… perguntar, inquirir, mandar-lhes carta, telegramas, reprovações ou até, por que não? um incentivo, isso não fazemos.

Não é nosso costume. O político ungido nas urnas é um deus especial, como também o são os grandes jogadores de futebol, os astros de telenovelas.

Oráculos, é o que são. Eles falam e pedras preciosas descem em cascatas cristalinas de seus discursos inflamados.

Só que respostas mesmo, prestações de contas sobre os que fazem com nosso dinheiro, com as mordomias que eles mesmos votam em seu favor, com imenso custo que pesa sobre nossos ombros, isso eles não dão. Nunca.

Mais uma eleição. Importantíssima, pois teremos uma assembléia, não obstante prostituída em seu sentido mágico e esperado, mas uma assembléia constituinte.

Vamos, desta vez, fazer um esforço. É claro que todos os políticos, antigos e estreantes, sonham fazer parte desse privilegiado grupo que nos dará leis que esperamos sejam permanentes, duradouras, pelo menos. Mas é inevitável, também, que só devem ir para lá os que saibam o que vão fazer no cargo. E, acredite leitor, poucos o sabem. Uns, que pensam que sabem, digamos, os veteranos, são responsáveis pelo que temos hoje e queremos destruir com a nova Constituição, isto é, o lixo, autoritário ou não.

Outros, os novos, os que sonham ter o seu primeiro mandato coincidindo com o mister constitucional, deslumbram-se com a campanha e praticam os mesmos métodos, os mesmos erros, as mesmas táticas, as mesmas armadilhas de seus antecessores e mestres.

Uma coisa me estimula este ano: não errar na escolha.

Perguntei, par escrito, aos senadores, aos deputados federais, aos deputados estaduais e aos vereadores* em que votamos nas eleições passadas, hoje nos cargos, algumas coisas simples, sobre sua atuação e sobre a forma como utilizaram o mandato recebido.

Fecharam-se em concha e não responderam. Apenas os senadores o fizeram, negando-me, é claro, qualquer resposta clara.

Nesses eu não voto e sugiro que você também não o faça.

Só nos falta examinar os novos nomes. Que venham, pois.

* Meu ofício foi dirigido a José Fragelli (que era presidente do Senado), Ulisses Guimarães (presidente da Câmara), Ghandi Jamil (presidente da Assembléia) e Francisco Maia (Câmara Municipal). Só Fragelli (senador aquidauanense) e Ulisses (o da Constituição Cidadã) me responderam: negando o direito de saber o que meus parlamentares faziam durante o mandato!

Homem público não tem sigilo

Como advogado, não me compete criticar uma decisão judicial que não me afeta. Especialmente, se houver outros advogados envolvidos.

Normalmente, o Judiciário aplica uma norma legal a um caso prático, sendo esse o seu trabalho principal.
Para esse mister, o juiz analisa o caso concreto, busca uma norma que se aplique ao mesmo e dá a decisão.
Até aí, o ato de julgar não envolve grande complexidade. Esta surge apenas quando não existe um caso
concreto, mas uma tese jurídica.

Aí, nem sempre, advogados, promotores e juízes agem com acerto, sujeitos à própria condição humana.
Quando se trata de interpretação equivocada, em que um juiz enuncia uma tese, e quando estou envolvido como cidadão, o comentário não viola nenhum dispositivo legal.

Antes, longe de pretender ser a versão final e perfeita, a minha interpretação sobre a decisão e sobre a causa em questão ajuda a lançar luzes sobre esse assunto e permitir o debate que a todos interessa.
Falo da decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, em ação proposta pelo militar aposentado José Magalhães Filho, pedindo informações sobre os vencimentos dos deputados estaduais.

Segundo o Tribunal a pretensão foi negada porque esbarra em “direito individual da pessoa”, no caso, o deputado estadual.

A tese é: o cidadão tem direito a saber o vencimento do deputado? A interpretação do Tribunal foi equivocada por que desvirtuou a tese principal, transformando-a em “deputado tem direito a sigilo de seus vencimentos”.

Aí errou feio.

Ao tratar os vencimentos como salários, estes sim, protegidos com o sigilo, o Tribunal se esqueceu de que entre patrão e empregado não há sigilo! Tanto o patrão, que os paga, como o empregado, que os recebe, sabe de quanto se está falando.

Nunca houve dissídio, demanda, questão sobre esse fato: o sigilo é em relação a terceiros.

Ora, o contribuinte não é terceiro em relação ao homem público chamado deputado e sim, patrão, pagador, custeador de seus vencimentos.

É direito seu, sim, saber quanto de seus tributos está sendo pago ao servidor deputado. Salário não é, protegido não é.

Se algum sigilo existe, admito-o no que o deputado faz com seus vencimentos após recebe-los, se os gasta em viagens, motéis ou em causas menos nobres, isso, realmente, não interessa a ninguém.

O patrão, o povo, ali representado pelo solitário demandante, com quem me solidarizo, pode e deve saber quanto paga ao servidor.

Homem público não tem direito a sigilo quanto a essa informação. Ponto final. Se quer ser homem privado, que largue o mandato.

O que me incomoda, ou seja, o que não sai de meu subconsciente é a impressão de que os juízes estão protegendo o próprio sigilo, como me lembrou uma adolescente há dias. Vale dizer: se liberarmos os vencimentos dos deputados não poderemos proteger os nossos…

Não tenho certeza disso e, portanto, afirma-lo seria apenas uma ilação.

Como cidadão, patrão dos deputados, entendo que a interpretação do TJMS foi lamentavelmente equivocada e poderia ser evitada com um pouco mais de reflexão sobre o que é salário e o que é vencimento.

Nem tudo está perdido

Seis da matina, chega Isabel, minha empregada.

Na mão, alguns santinhos de um candidato a vereador, vizinho nosso. O motorista do vereador, que também estava chegando naquele horário lhe deu os santinhos.

Isabel está indignada. Diz que estamos naquele imóvel há dez anos e, tantos natais, tantos carnavais depois, nunca foi contactada pelo vizinho, nunca foi lembrada.

Tento defender meu amigo vereador, digo que ele já veio uma ou duas vezes à nossa casa. Ela está irredutível. Nunca foi lembrada pelo vereador, nem pelo vizinho. Para ele, ela sempre foi apenas “a empregada do vizinho”.

Volto a defender o vizinho. Digo à furiosa Isabel que aquele santinho, dado nas primeiras horas do dia, significa que ela não é só uma vizinha ou uma pessoa qualquer, mas uma eleitora, uma cidadã, uma pessoa importante para o candidato!

Sou vencido pelo comentário final: não quero ser lembrada como eleitora, mas como cidadã. Tenho problemas durante o ano todo e nenhum vereador quer saber se existo. Nas eleições, sou lembrada como eleitora?

“Tô fora!”, diz ela, abandonando-me sem mais nem menos e atirando os santinhos para temperar minha meditação em pleno café da manhã.

Quase chamei o meu amigo para acalmar a Isabel em sua explosão de cidadania. Achei melhor aguardar uma outra oportunidade, pois o constrangimento poderia ser maior.

Lamentavelmente, constato logo depois, o candidato de Isabel chega pelo rádio, todos os dias, cheio de promessas e bem-aventuranças.

Ouvindo a lenga-lenga do deputado-radialista, que também nunca veio conhecer Isabel, mas ganhou sua simpatia pelos milagres impossíveis que promete todas as manhãs, sou obrigado a amenizar meu entusiasmo.

Irmão do prefeito, o deputado-radialista finge estar furioso com a administração municipal, fala gatos e lagartos, diz que vai fazer e acontecer. Isabel acredita. Sua expressão não deixa dúvidas: “E olha que ele é irmão do prefeito!”

A reação de Isabel pelos santinhos recebidos é justa. Isso me levou a pensar que nem tudo está perdido no Brasil. Mas continuo com um pé atrás ao ver que um sacripanta, simulando ser Deus, pelo rádio, conquista a alma e o voto de minha indignada cidadã.

Então, fico com o meio termo. Nem tudo está perdido mas ainda precisamos subir muitas colinas para chegar perto do ideal.

Prometi-me, este ano, que não serei mais omisso, já que as realidades descritas por Isabel estão diante de mim, diuturnamente, e eu nada faço para ao menos esclarecer as coisas.

Posso fazer a minha parte e farei.

Mas, que me perdoe o amigo e vizinho, mas que foi divertido, isso foi.

Milhões de órfãos

Um candidato se apresenta ao voto popular, pede votos, promete um programa de trabalho e no fim recebe 1 milhão de votos. Vira senador.

Toma posse, freqüenta o Senado por seis, oito meses, um ano e vem outra eleição. Lá vai ele em busca de um mandato para governador, prefeito, abandonando o mandato que lhe foi conferido.

Abandonando suas promessas. Deixando o trabalho no início, quando muito, ao meio. Alguns nem satisfação oferecem aos eleitores! Simplesmente passam o bastão para o suplente, não-raro uma figura descolorida, sem passado, sem futuro e com um presente de aprendiz.

Um milhão, quinhentos mil, duzentos mil eleitores são desrespeitados, são oferecidos como moeda, como quirera, como lixo ao suplente. “Aí vai, companheiro. Tome conta desse espólio, desse rescaldo de incêndio, desses despojos de guerra”, diz o parlamenta fujão.

Uma tristeza. Infelizmente, já vimos esse filme em todos os partidos. O próprio Serra já teve seu capítulo de fuga.

Lamentavalmente, a Justiça Eleitoral não veda esse comportamento desonesto, vergonhoso. Os eleitores são surpreendidos e, pior, quanto mais expressiva é a votação, mais o candidato se qualifica a alçar outros voos.

É claro que em matéria eleitoral, no Brasil, não se deve mesmo pedir ética, posto que é matéria desconhecida dessa corja lobotomizada de Brasília. Mas o tema serve para reflexão, no momento.

No Espírito Santo, um senador com 1 milhão de votos disputa a cadeira de governador. Deixou o mandato para uma irrelevante, desconhecida, inexpressiva suplente, que não sabe para que veio nem para onde vai.
Ganhou na loteria e não tem idéia de quem é esse contingente de 1 milhão de almas, de órfãos. De prático, sabe ela que ninguém lhe deu um mísero voto daquela fenomenal cesta de sufrágios. Maria-ninguém.

Quando haverá respeito pelo eleitor? Quando deixaremos de ser apenas essa massa de manobra que, de quando em quando, comparece às urnas para dar um emprego qualificado e bem remunerado a um grupo de sanguessugas, de aproveitadores, de gente rosada, bem alimentada à nossa custa?

Pelo andar das coisas vai demorar até criarmos vergonha na cara e fazermos uma mobilização contra esses safados que nos enganam, que nos empulham, que nos fazem de trouxas a cada eleição.

Não digo que alguém, de boa índole, bom administrador, uma vez eleito para um cargo parlamentar, não possa lograr ser governador ou prefeito. É possível e até desejável em alguns raros casos.

Defendo, ao menos, nesses casos, um plebiscito. Certamente que um milhão de eleitores que votaram nesse deputado ou senador não lhe negarão a vaga de governador. Pode até ser que o desejem lá. O problema é que eles não consultam, sequer avisam que vão fazer essa patranha.

O partido tal decidiu que a vaga é do Zé da Silva e pronto.
A democracia e seus cargos de governo são vergonhosamente loteados, como se fossem bananas de feira.

A verdade é que, a cada eleição, sinto-me menos cidadão.

Em troca, todo político me parece, a cada dia, um crápula indigno de confiança.

A noite dos miseráveis

Escrito em 12/09/2003

Zero hora. Do 15º andar, contemplo Campo Grande, já adormecida como uma cidade que sempre copiou mais São Paulo do que o Rio de Janeiro. Aqui a vida noturna dura uns 15 minutos na sexta-feira e uma meia hora no sábado, se tanto.

Olho para o alto da avenida Mato Grosso e, sem poder vê-lo, procuro imaginar o casario chique do bairro Carandá Bosque, ou, virando um pouco o olhar para a direita, tento pensar no que estão fazendo os magnatas do bairro Vendas ou do velho Cachoeira.

Acabo de ouvir o relato de uma noite de cão, que denominei, por falta de algo mais inspirado, a noite dos miseráveis.

Alguém foi bafejado pela desdita de precisar levar um parente acidentado, com algumas fraturas sérias, à vetusta Santa Casa, por volta das 17, 18 horas, por aí. Por mais que ali estivesse um jovem com alguns ossos quebrados, precisando de socorro, teve de ficar no corredor dos aflitos, onde a dor é o único sentimento humano que se divide entre velhinhos de 90 anos, crianças, jovens, pessoas pobres e desvalidas que Deus não tendo outro lugar pior para depositá-los, fê-los brotar no patropi mesmo.

Naquele corredor, diz minha confidente, ocorre o milagre da abreviação da vida, ou seja, se você tem de sofrer intensamente a dor, o abandono, o descaso, a impiedade, pelo menos que a vida lhe seja o mais curta possível.

Ali está uma criança, três ou quatro anos, no máximo, com um membro qualquer fraturado, seguro a pinos. Chegou no dia anterior e ali ficou jogado numa enxerga. Mãe e filho, aparentemente, já haviam chorado tudo o que podiam mas o pior foi saber que aquela criança estava ali, naquela trincheira de guerra, sem se alimentar desde que chegou. Pela movimentação, ele teria de ficar por ali mais um dia ou dois, ao que se sabe. Ia continuar sem alimento por quanto tempo ainda? A resposta estava com Deus.

Gemidos, urros, um cheiro nauseabundo de sofrimento e desdém, funcionários sonolentos cruzando pra lá e pra cá, de má vontade alguns, outros apenas cumprindo sua parte de mais-valia.

No olhar de cada um daqueles moribundos pode-se ler a incerteza sobre o seu destino. Voltar para casa, àquela hora, impossível e ainda que pudesse, perderia o lugar no corredor da morte. Ficar ali é uma loteria sem fim, mas pelo menos se pode contemplar o vai-vem dos que sofrem.

Minhas reflexões já invadem 30 minutos da manhã seguinte e preciso dormir, pois tenho também a minha sina. Meus desafortunados personagens ainda estão lá, mendigando atendimento de alguma alma caridosa e tentando furar a fila dos desesperados.

Antes de dormir, assalta-me uma dúvida: será que o Prefeito médico já fez uma visita ao corredor do infortúnio? Será que os médicos políticos que esbanjam felicidade e bem estar pela TV já passaram pelo corredor da morte, especialmente, depois das 24 horas?

Na verdade, nenhum programa partidário ou de governo quer tratar, a sério, desse verdadeiro caos chamado SUS. E, para infelicidade dos brasileiros de segunda e terceira classe, nenhum político que se preze fica sem Unimed, serviço médico da Assembléia, da Câmara ou até mesmo médico particular.

Minha amiga, não. Nem seu parente moribundo. Em seu último telefonema, fico sabendo que a cirurgia terá de esperar outro dia, pois será preciso um especialista de ante-braço, que o hospital, desafortunadamente, naquele horário, não tem. E esperaram das 17 horas de ontem até agora para dizer isso?

Espero que ela e seu jovem acidentado sobrevivam a mais uma noite dos miseráveis e, amanhã, ainda sobre alguma lágrima para chorar, pedindo a Deus que da próxima vez os faça nascer no Canadá.

JOÃO CAMPOS, advogado em Mato Grosso do Sul