Jaburu

No livro “Retrato do Brasil”, ensaio sobre a tristeza brasileira, escrito em 1928, Paulo Prado cita uma carta de Capistrano de Abreu a João Lúcio d`Azevedo, com a seguinte pérola sobre o pássaro símbolo do Brasil:

“O Jaburu… a ave que para mim simboliza a nossa terra. Tem estatura avantajada, pernas grossas, asas fornidas e passa os dias com uma perna cruzada na outra, triste, triste, d’aquela “austera e vil tristeza”.

De tanto viajar, ver e ler exemplos de cidadania ao redor do mundo, quando retorno ao Brasil sinto uma tristeza de jaburu ao ver no que o meu país está se transformando.

Vi em San Diego, no Jardim Zoológico, uma funcionária que simplesmente se recusou a me vender um saquinho com broto de bambu para atrair a girafa para mais perto de mim, possibilitando-me uma boa foto. “Com o dia nublado, a girafa não sai do seu refúgio, nem mesmo pelos brotos de bambu”.

Insisti, dizendo que quando o sol mostrasse sua cara, a girafa viria até a cerca. Não houve conversa. Ela não me vendia a “isca” do animal pescoçudo.

No Brasil, um safado qualquer estaria gritando “vai um saquinho de broto de bambu aí, mano? A girafa já vai sair, olha lá, olha lá, tá saindo…”. Eu compraria e ficaria no prejuízo.

Em Seul, ao ver que os passageiros do ônibus simplesmente jogavam suas moedas num recipiente ao lado do motorista, sem nenhum cobrador para conferir ou checar se alguém passava sem pagar, perguntei: alguém sai sem pagar?

“Não”, responde o guia. “Aqui, desde criança, aprendemos que o ônibus é nosso, é público. Não tem sentido roubar de mim mesmo”.

Em Israel, após uma semana de tour, os passageiros se cotizam e reúnem 700 dólares para gratificar o guia. Este não recusa o presente mas vai até o balcão do aeroporto, preenche um formulário, coloca o dinheiro em um envelope e entrega a um agente do governo.

Curiosos, os turistas interpelaram o guia sobre aquele ritual, já que o presente era para ele, não para terceiros.

“Aqui as coisas não funcionam assim. Há vários guias como eu trabalhando neste mesmo instante. Minha mulher trabalha no governo. Meus filhos estudam em uma escola pública. Assim, não faz sentido eu receber um privilégio sem dividir com eles. A gratificação vai para um fundo que é dividido entre os demais guias”.

Na sueca Volvo, um belo domingo, os empregados se reúnem em assembleia e decidem baixar os salários por seis meses, até que a empresa recupere o ritmo de produção e vendas que vinha perdendo no último semestre. Senso prático, pois a continuar a queda as demissões seriam inevitáveis.

Esses são exemplos que me enchem de vergonha, uma vergonha de jaburu, quando me lembro do meu Brasil, engolfado em corrupção, num descalabro que põe de joelhos a uma das maiores empresas de petróleo do mundo, a serviço de uma quadrilha comandada pelo Palácio do Planalto.

O Partido que está no poder há 12 anos, indo para 16, tem seus principais líderes morando na penitenciária, funcionários do governo gastam o que querem em cartões eletrônicos, em despesas secretas (um decreto as tornam secretas!) que incluem academias de ginástica e salões de beleza.

Em Campo Grande, para fazer contraponto com os industriários da Volvo, professores das piores escolas públicas do país (que não tem Prêmio Nobel e cujos alunos ficam nos últimos lugares nas olimpíadas de Matemática e Ciências) pretendem, sob ameaça de greve, receber um piso salarial que, a meu ver, não merecem, e que o Município, por incúria de seus administradores, não tem orçamento suficiente para pagar.

Finalmente, aumenta minha vergonha de jaburu, lembrar o grande calote do velho BNH, quando em todo o país, rolando a ladeira em sucessivas reformas monetárias (cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado…), as instituições financeiras tiveram de “anistiar”(na verdade, desistir de cobrar) as prestações da casa própria porque as prestações eram mais baratas do que as despesas de cobrança.

Naquele período (1980, por aí), Vila Sobrinho, Vila Alba, Cabreúva, Vila dos Ferroviários tinham prestações de 15 cruzeiros! Ou seja, os que foram contemplados com a casa própria não pagaram suas prestações, impedindo que milhões de outros brasileiros tivessem acesso ao mesmo benefício.

Vale dizer, a espinha dorsal de um sistema habitacional pressupõe que os contemplados paguem suas prestações para que outros imóveis possam ser construídos e distribuídos.

A grande vergonha do BNH, hoje repetida, em péssima lembrança, por EHMAS, AGEHAB, Novo Minas Gerais, entre outros, faz com que, a cada dia, eu me sinta mais jaburu do que nunca e minha “austera e vil tristeza” só aumenta com o noticiário nacional.

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Falta de vergonha

Por volta de 1986, foi extinto o BNH, falido por imensas patranhas, dilapidações, privilégios e má administração incurável.

Milhões de casas construídas com patrimônio dos trabalhadores e da sociedade civil foram distribuídas a apaniguados, serviram para fazer política rasteira e ufanista da época de chumbo (período da chamada revolução).

Mesmo com inflação galopante, os imóveis eram financiados a preço de banana, sem reajuste por décadas, o que significava dizer que o fundo de construção não era reconstituído, a dívida dos mutuários não era cobrada, os imóveis não eram recuperados.

Lembro-me de uma casa, ali pela Vila Sobrinho (nem sei mais se ainda existe esse nome), cuja prestação chegou a 9 reais, a dinheiro de hoje. Não pagava a emissão do boleto.

A solução foi anistiar os devedores, abandonando as casas nas mãos dos mutuários originais, que ganharam esse presente ou nas mãos dos invasores e “compradores” com seus contratos de gaveta.

Como sempre fazem, os políticos, diante da impossibilidade de corrigir suas maracutaias, ante o rombo inevitável, abandonam tudo para trás, com a simples assinatura de um decreto ou uma lei de anistia.

Não tinha mais dinheiro no fundo para construção, não podendo recuperar as casas, sem coragem de corrigir as prestações, extinguiram, simplesmente, o BNH e todos os demais brasileiros que não tinham casa ainda ficaram, da noite para o dia, sem dinheiro no Fundo de Garantia (onde os ratos de Brasília fizeram a festa por décadas), sem as casas largadas nas mãos dos inadimplentes e sem esperança de ter sua casa própria algum dia.

Guardei aquela imagem: Vila Sobrinho, a vila das prestações de 4 cruzeiros, de 8 cruzados novos, de 9 reais, o maior roubo político-financeiro de nossa história, até hoje impune, sem um político safado, ao menos, na cadeia.

Resolvi requentar esse assunto porque vejo nos jornais que a Companhia Municipal de Habitação pretende “anistiar” devedores que estão na posse das casas populares, permitindo aos inadimplentes que não paguem suas dívidas e ainda possam “transferir” seus imóveis. A preço de banana. Um filme antigo, triste, que se repete.

Do lado de cá, milhares de outros brasileiros, sem privilégio, sem viculação com os Rigos da vida, amargam pagando aluguel, sem esperança de ter sua  casa própria. Os que receberam casa, porque faziam parte de sindicatos de servidores e apaniguados políticos, cabos eleitorais ou, simplesmente, massa de manobra, deitaram e rolaram.

Não pagaram as prestações ridículas (hoje beirando meros 50 reais a 150 reais) e serão anistiados, nas nossas barbas, por um decreto, por uma caneta generosa.

Mais um Conjunto Minas Gerais, mais uma Vila Sobrinho, mais uma Mata do Jacinto… Mais um BNH, versão local.

Nem o governo é sério, nem nós temos vergonha na cara.