Airo, a melodia inacabada

“Se algum dia minhas cartas não chegarem mais, não lamente. Serei, como diz Hickmet, apenas uma melodia inacabada”. (Diários de Che Guevara)

Nos aeroportos, nenhum parente para lhe dar adeus. Na rodoviária, madrugada fria, milhares vão e vêm em busca de seu próprio destino, arrastando, sonolentos, suas malas, suas dores e esperanças aguardando a última chamada para qualquer lugar.

Alguns, tão solitários são, que o hospital precisa convocar a família para assisti-lo no último momento. Mesmo assim, não-raro, fazem a viagem final em companhia só do papa-defuntos.  Ou dos caça-inventários.

O que me move a escrever estes rabiscos é a sensação de que a história escorre pelo tempo e as coisas não mudam. Jimmi Hendrix, Billie Holiday, Lennon, Louis Armstrong, Elvis, Michael Jackson, Mahalia Jackson e tantos outros chegaram ao fim do corredor acompanhados do indefectível mordomo chamado Ninguém.

Pouco antes de empreender a viagem que ninguém evita, percorriam um caminho de luz, de brilho, de sons, de acenos e afagos de artifício. Suas músicas faziam a glória e a riqueza de milhões, de enormes grupos financeiros, de outros semi-deuses do show-business.

No fim, no fim, não tinham dinheiro para o último Tylenol.

Não conheci o cantor e compositor Airo Garcia Barcellos, 37 anos, que morreu no Hospital Regional Rosa Pedrossian, em Campo Grande. Mas era inevitável ser indiferente à sua música maravilhosa, que fez e ainda fará a alegria e a bonança de artistas como Bruno e Marrone (Toma Juízo e Choro, Choro), Daniel (Quem Diria, Eu), Edson e Hudson (Ela Encasquetou), Milionário e José Rico (Decida), Dois a Um (Tadim, Tadim), Gilberto e Gilmar (A Culpa é Sua), João Bosco e Vinícius (Enquanto o Inverno não Passar),  Grupo Tradição (Quem Mandou Largar de Mim) e tantos outros de que não me lembro agora. Uma delas, de que me lembro o refrão “a decisão é sua”, me foi apresentada pelo amigo e também imenso compositor Marco Aurélio.

O que se repete na história da música? A síndrome Hendrix, “o maior guitarrista de todos os tempos”, “grande compositor”, “performer”, “virtuose da guitarra”, figura obrigatória nos revivals de Woodstock, se repete. Tudo isso se transforma em um pobre-diabo afogado no próprio vômito, com um monte de urubus em busca da herança e dos despojos.

Airo Barcellos era filiado a entidades de classe dos músicos, recebia direitos autorais por suas músicas, pagava, com suas composições o décimo-terceiro e férias de muita gente boa e de músicos anônimos na estrada da fugidia e às vezes inconquistável fama.

Mas entrou no túnel sem volta sozinho, sem viola, sem choro, sem vela e sem os mesmos admiradores que lhe deram título na Câmara Municipal e lhe faziam mimos etílicos.

Outros compositores fazem músicas maravilhosas e são incensados em intermináveis noitadas.

Todos pagam tributo à vetusta (e misteriosa) Ordem dos Músicos do Brasil, todos alimentam a roda da fortuna das grandes gravadoras e dos artistas bafejados pela sorte e alguns até pela própria competência.

Contudo, numa dessas curvas que a vida nos apresenta, podem ser mais um rosto na multidão, um Vanderley Cardoso, uma Martinha, uma Ângela Maria, caçando níqueis em noites de uma seresta cada vez mais pálida e perdida no tempo.

Não conheci Airo Barcellos. Mas isso não tem a menor importância. Sua música me conquistou, na voz do meu amigo e Marco Aurélio. Isso ficará para sempre.

Registro aqui, apenas, como última homenagem a esse músico extraordinário, o alerta para que Socinpro, Abramus, Ecad, editoras em geral e, especialmente, a Ordem dos Músicos tomem tento e digam a seus filiados para que servem suas nababescas estruturas.

Como você vive e como você morre, a decisão é sua.