Consumidor fica refém das fusões de empresas

São transações bilionárias, que se tornam importantes do ponto de vista dos negócios, significando mais faturamento para as empresas envolvidas. Só que o consumidor apenas observa os acontecimentos. As parcerias tendem a limitar o poder de escolha do brasileiro, já que essas fusões concentram mercado nas mãos de menos grupos. De acordo com o sócio-diretor da Go4! Consultoria de Negócios, Christian Majczak, quando há uma fusão, a tendência é que os preços aumentem. “As empresas fazem transações para intimidar a concorrência e por isso colocam o preço que bem entendem”, afirma ele.

Em 2008, ocasião da união entre Itaú e Unibanco, pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) mostrou que, das 35 tarifas cobradas por ambos os bancos, 26 delas eram maiores no Unibanco. Hoje, todas as cobranças foram igualadas para os clientes. O Itaú Unibanco não informa se, na média, as tarifas subiram ou diminuíram mas, segundo o Idec, desde 2008 a cesta de tarifas do Itaú teve um aumento de 7%.

É essa mudança nos preços que preocupa os consumidores. A designer de interiores Beatriz Campos, de 62 anos, é uma das pessoas que se mostram contrárias à união entre grandes empresas. “Se a fusão entre o Carrefour e o Pão de Açúcar acontecesse, o governo, ao permitir, estaria caminhando contra tudo o que um dia jurou defender: o povo.”

O Índice Nacional de Satisfação do Consumidor, verificado mensalmente pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), mostra que, no mês de julho, 15% dos internautas que comentaram as negociações da fusão entre as redes varejistas se mostraram contrários a essa parceria. A pesquisa monitora sites, blogs e redes sociais e em apenas um mês, 800 pessoas se expressaram sobre o assunto. “O que surpreendeu é que os internautas palpitaram sobre a ajuda do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)
no caso. A população está mais consciente”, diz Alexandre Gracioso, vice-presidente da ESPM e coordenador do indicador de mercado. O BNDES faria um aporte de R$ 4,5 bilhões de dinheiro público para concretizar o negócio.

Mas para o sócio-diretor comercial do Grupo Azo, consultoria especializada em varejo, Marco Quintarelli, as fusões estimulam o crescimento de outras companhias, que investem para não perder mercado. Ele afirma que, em um primeiro momento, as empresas que fizeram fusão passam por dificuldade. “Quem consumia Perdigão tem antipatia pela Sadia, que teve produtos retirados do mercado.”

A dona de casa Ana Carolina Escudeiro de Moura, 21, está casada há sete meses. Desde então, passou a prestar mais atenção aos preços. “Nunca vou no mesmo mercado. Gosto de variar para sentir as mudanças dos preços. Com as fusões, fico sem opção de mercado e sem opção de mercadoria.”

O presidente da Associação Brasileira do Consumidor (ABC), Marcelo Segredo, afirma que é exatamente esse o problema. “Os preços podem aumentar muito e não há ninguém que possa controlar isso.”

Segundo o diretor de Estudos e Pesquisas do Programa de Administração de Varejo (Provar) da Fundação Instituto de Administração (FIA), Nuno Manoel Martins Dias Fouto, as variações de preços dependem do comerciante e do cliente. “O Pão de Açúcar é uma empresa inteligente. Eles variam os preços dos produtos em lojas regionais.”

Já o especialista em fusões e aquisições da Guimarães & Vieira de Mello Advogados, Leonardo Guimarães, discorda. “As fusões agregam muito à economia do País, pois juntas as empresas fortalecem o mercado brasileiro ante outros países. Se o Pão de Açúcar tivesse comprado o Carrefour, todos os lucros ficariam no Brasil. Se fosse o contrário, o faturamento iria para a França.”

JORNAL DA TARDE, ECONOMIA, Carolina Marcelino

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TÁ RUSSO

Houve muito dizquedizque nesse affair Assembléia/Tribunal de Contas. Versões há para todos os gostos. Suplente a senador que gastou uma fortuna comprando votos, governador que mandou e desmandou manipulando o Legislativo, concorrente que teria aceito vantagens para desistir do pleito e outras tantas que não posso nem devo repetir.

Não adoto nenhuma das versões, por desconhecer qualquer prova que as abone.

Prefiro falar de coisas antigas e conhecidas.

Uma delas é minha posição radicalmente contra parlamentares fugitivos, assim ditos os que são eleitos pelo povo para uma missão ou cargo e se bandeiam, por pura e inegável ambição pessoal, para outros destinos.

Lamentável. Uma professora brilhante, com história e biografia impecáveis, exercendo muito mais do que uma simples liderança feminina, uma grande liderança política no Estado, vai à TV, em campanha, convence o povo humilde e até mesmo formadores de opinião a lhe darem o voto.

Elege-se, vai ao Senado, ocupa espaços nunca dantes oferecidos a mulheres de nosso Estado e, de repente, aceita abandonar o cargo, sem uma consulta sequer a seus eleitores, para acomodar-se no cemitério-de-elefantes que é o Tribunal de Contas (qualquer deles, já que não faço distinção, nesse quesito, entre Estadual ou Federal).

Não é uma crítica só à Senadora, mas também a vereadores bem votados que fugiram para a Assembléia Legislativa ou cargos menos vistosos. Há muitos por aí.

Fica registrada a minha decepção. Seja qual for a motivação da ora conselheira, seja a de dar a sua vaga ao senador Russo, seja a de se aposentar com uma pensão vitalícia, seja a de atender ao chamado do PMDB e seu ágil governador. Se verdadeira qualquer das hipóteses, é desleal, ilegítima, aética e de todo reprovável.

A verdade é que a troca não é vantajosa para o Estado, já que uma brilhante senadora, cujos discursos eu costumava acompanhar no pequeno ou no grande expediente do Senado, especialmente, quando o assunto era educação, onde seu domínio era incontestável, vai para uma Corte de Contas que nenhum trabalho útil presta ao contribuinte. Cercada de desconfiança, gera apenas imensas despesas.

Outra grande decepção foi a atuação da Assembléia, em cuja mão deveria estar o múnus de escolher o Conselheiro, e prestou-se, ao menos pelo espetáculo deprimente que se viu por TV e noticiário escrito, a um papel secundário e coadjuvante do Executivo.

Já é uma grande distorção (de novo, valendo para os dois níveis de Tribunais) que o Executivo aprove o nome de quem vai julgar suas contas no futuro, fato que torna todo Conselheiro do TCE uma pessoa dependente de senhor e feitor. Cão cuidando da linguiça, para ficar no dito das ruas.

Por isso mesmo, nunca acreditei em julgamentos do TCE e não vou mudar tão cedo.

Não é estranho, também, que o povo, humilde ou não, esteja tão descrente de política.

Para finalizar, repito que não compartilho as fofocas e versões que ouço nas calçadas. Por duas razões de peso. Uma, porque não tenho provas. Outra, porque a realidade – consubstanciada em desrespeito à vontade popular – é mil vezes pior do que a fofoca.

FMI valoriza mulher no seu dia

11/03/2003

O mundo comemorou no último sábado, dia 8, o Dia Internacional das Mulheres. Na mesma oportunidade, e conferindo importância ao evento, o Presidente de Banco Mundial, Mr. James D. Wolfensohn promoveu um encontro entre as administrações do Banco de Desenvolvimento Africano, Banco de Desenvolvimento Asiático, Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento e o Fundo Monetário Internacional, durante o qual se emitiu a seguinte declaração conjunta.

“Março, 7, 2003 – Nós, as administrações do Bancos Multilaterais de Desenvolvimento e do Fundo Monetário Internacional, afirmamos a importância de se promover a igualdade entre os gêneros e o incremento do poder feminino de modo a permitir às mulheres a obtenção de seus objetivos de desenvolvimento para o próximo milênio.

“A igualdade dos gêneros não é só um objetivo jurídico no direito da mulher, senão uma meta importante na redução da pobreza e da fome, na garantia de educação para todos, na redução da mortalidade infantil, na promoção da saúde materna, no combate à AIDS, à malária e a outras doenças, e assegurando, ainda, a sustentabilidade ambiental. A pesquisa e as experiências de campo mostram que promovendo a igualdade de acesso entre homens e mulheres aos recursos e oportunidades e manifestação de opinião aumenta-se a produtividade, acelera-se o crescimento econômico, facilita-se a redução da pobreza e melhora-se, indistintamente, o bem-estar de homens, mulheres e crianças. Esse equilíbrio entre os gêneros possibilita honrar as convenções e tratados internacionais, inclusive a Convenção para Eliminação de todas as Formas de Discriminação Contra Mulheres (Convention on the Elimination of all Forms of Discrimination Against Women – CEDAW)

“A igualdade entre os gêneros em nossas organizações não é só uma questão de justiça; ela fortalece nosso trabalho. A pesquisa e experiência organizacionais mostram que um ambiente de trabalho mais equilibrado contribui para diversificar as abordagens sobre os complexos problemas do desenvolvimento.

“Isto posto, afirmamos nosso permanente compromisso em promover a igualdade entre os gêneros em nossas organizações e no seu trabalho de assistência aos países membros.

Assinam: James D. Wolfensohn, Omar Kabbaj, Tadao Chino, Jean Lemierre, Enrique Iglesias e Horst Koehler

(Transcrição do artigo “International Women’s Day: Bank issues joint statement with MDBs, IMF”, publicado no site http://www.worldbank.org.
Tradução: J Campos)

MULHERES NOSSAS DE CADA DIA

Basta olhar ao lado e encontramos uma ou várias delas. São onipresentes, onipotentes e, sem dúvida, onissapientes. Refiro-me às mulheres que dominam a nossa vida. É delas que me lembro quando falo em poder e em ocasiões como esta, em que acabam de comemorar o Dia Internacional da Mulher.

Falar em mãe não vale, pois, além de já existir um Dia das Mães, todo mundo sabe como as mães exercem poder sobre nós. E a minha Dona Zilda, que considera moleza, sendo viúva duas vezes, criar oito filhos sem entregar, até hoje, nenhum deles ao time do Beira-Mar, é muito poderosa em sua humildade.

De qualquer maneira, correndo o risco de esquecer alguns nomes, lembro Maria da Glória Sá Rosa, que me ensinou teatro. Iraci Eudociack, que me deu as primeiras letras do antigo curso primário. As irmãs Castro Coimbra (Nair e Rita), que me entregaram as primeiras noções de História e Geografia. Edimê Pereira Santa Rosa, que meu deu aulas no Miguel Couto. Márcia, minha companheira de todas as horas. Minha filha Bruna, que herdou meu DNA romântico. E chega de nomes, antes que eu tome todo este espaço.

Nessas mulheres homenageio as mulheres nossas de cada dia, as que participam de nossa formação, as que nos constróem peça por peça.

MULHERES EMPRESÁRIAS

Dentro de alguns dias a Associação Comercial de Campo Grande estará dando seqüência à criação do seu Conselho da Mulher Empresária, que vai conferir o respeito que elas merecem na comunidade.

Sou suspeito para falar sobre isso, não-só porque propus a criação do Conselho no Estatuto da Associação, como penso honestamente que ninguém exerce mais poder do que as mulheres. Às vezes, elas não têm consciência disso, mas que o seu poder é real, isso não se discute.

Pense, por exemplo, que a mulher é quem faz contato com o padeiro, o leiteiro, o dono da banca de jornal, vai às reuniões do condomínio, cuida do vestuário e da alimentação de toda a família, da dor de garganta, do sarampo, diz o que quer do açougue, fala com o pastor da igreja ou com o padre da paróquia, fiscaliza as notas das crianças, sabe quanto se gasta de luz, telefone, água, gás e nenhum homem é homem o bastante de adquirir um carro ou comprar uma simples gravata sem consultá-la previamente.

Milhões de dólares em verbas publicitárias são gastas visando convencer a mulher a comprar isto ou aquilo, na banca predominam as revistas femininas, vitrines foram criadas para elas, em reconhecimento tácito de que o poder econômico está em suas mãos.

Nos bancos de dados como SPC, Serasa, elas são minoria, mostrando que são mais responsáveis do que os homens. Nos departamentos de crédito, as vendas sem avalista ou fiador são honradas quando feitas às mulheres.

Uma das organizações mais poderosas dos Estados Unidos é a AWVL – American Women Voters League (Liga das Eleitoras Americanas), única entidade que conseguiu vencer o Clube do Bolinha existente na Suprema Corte Americana, onde duas juízas foram nomeadas em menos de 20 anos pela primeira vez na história da Corte.

Em Minas Gerais, os supermercados não aumentam um tostão em seus preços sem combinar com o Movimento das Donas de Casa.

É por isso que, com justiça, considero o dia 8 de março como uma data que, realmente, merece ser comemorada.

Retomando a chave da cidade

Desabam sobre a Câmara de Vereadores as reclamações (justas) do cidadão sobre os aumentos abusivos do IPTU. As acusações são contra o prefeito Nelsinho Trad, que tinha uma faixa de aumentos para trafegar – um exemplo: de 6 a 18%.

Nesse caso, a Câmara estabelece as alíquotas e o prefeito impõe o reajuste. Na prática, o vereador entrega a chave da cidade ao prefeito e deixa-o passear como bem entender.

Aí está o erro. O prefeito pode, por exemplo, usar o mapeamento do Google Earth, que “fotografa” uma casa de madeira com a mesma classificação de uma mansão. São ambas “edificações”.

Mas, quem outorgou ao GoogleEarth o direito de decidir que tipo de edificação será tributada com 6% ou com 18% ou que receberá 200% de aumento?

Por que não eleger a Câmara de Valores Imobiliários para avaliar os imóveis e as benfeitorias de uma região? Resposta fácil: porque os vereadores não regularam esse artigo da Lei Orgânica!

Basta aos nobres representantes do povo retomar a chave da cidade, por enquanto, e regular o artigo. O prefeito poderá, sim, ir de 6 a 18% desde que tenha critérios objetivos, confiáveis, para definir o tributo.

Enquanto isso não acontecer, o prefeito tratará a população com crueldade, é fato, mas estará cumprindo a lei lacunosa que lhe deram. Estará andando por uma rodovia não sinalizada.

Comparando, uma rodovia tem limite mínimo e máximo de velocidade, mas tem outros sinais, como parada proibida, lombadas, trechos intransitáveis, acostamento, vedação de carga perigosa, curvas fechadas e assim por diante.

O prefeito, não. Tem uma estrada que lhe serve para oprimir seus contribuintes. Deram-lhe – os vereadores – uma arma, munição e elegeram a vítima. O prefeito só tem de atirar.

Outro ponto que os vereadores não regularam, embora esteja na Constituição Federal: a capacidade contributiva do cidadão. O tributo não pode ser tão pesado que esgote a capacidade de pagamento do contribuinte.

Não adianta impor 200% de aumento sobre quem não teve 6% de aumento salarial ou que está, simplesmente, desempregado.

Nem serve ao cidadão o caminho do recurso administrativo, pois até que saia a decisão, ele estará inadimplente e sujeito às penas da lei.

É preciso fazer leis justas. É preciso agir com equilíbrio e não praticar a injustiça e convidar o cidadão a reclamar e recorrer. Papelada insana e previsível para resultado incerto.

É preciso retomar a chave da cidade, senhores vereadores.

Sampa, cidade-mãe

– O senhor vai precisar de um terno e de uma gravata.

Quem me falava era a dona da pensão, uma portuguesinha atarracada, de avental, que me sinalizava o que seria minha maratona em São Paulo, em busca de emprego.

Era uma segunda de Carnaval, no distante 1971, a cidade vazia (tanto quanto São Paulo pode ficar vazia), eu chegando sem ter um endereço de conhecido para procurar.

Então, fui à então famosa DUCAL, onde esperava sair com meu necessário equipamento de desempregado – um terno, ou, pelo menos, um blazer, e uma gravata.

Não consegui na DUCAL, mas no MAPPIN, em frente ao Teatro Municipal, na praça Ramos de Azevedo, consegui comprar em 10 prestações. Incrível que não precisei de nenhuma outra informação, apenas o endereço, rua Abolição, 75. Bastava atravessar o Viaduto do Chá.

Comprei um blazer xadrez, uma camisa com uns detalhes (listras) enrugadinhas e uma gravata verde escuro. Nada combinando com nada.

Abri o famoso “Estadão” (que só era pródigo em oferta de empregos na quinta-feira, quando vinha com um caderno especial de meio kg mais ou menos) e saí à luta. Como tinha formação em contabilidade, fui atrás de um emprego nessa área, primeiro.

Gerle, Serpro e tantas outras empresas de recrutamento. Fichas e fichas preenchidas com minhas esperanças e nada.

A cada retorno, o pouco dinheiro encurtando, a comida encolhendo (passei do virado à paulista para o ovo cozido, coberto com farinha de quibe, o pacote de biscoito de água e sal…) e a coisa ficando feia.

Uma semana, particularmente apertada, resolvi optar entre comer ou pagar a passagem de ônibus. A escolha foi fácil. Ônibus, claro! Dolorido mas prático.

Enfim, comecei a trabalhar na Planad, uma empresa de administração de consórcios de equipamento odontológico (Planad-Atlante-Dabi, os odontólogos mais antigos conhecem a marca). Dessa época vêm meus conhecimentos desse casamento sem amor chamado consórcio.

Depois, fui migrando, Torneiras CRE, Casa Publicadora Batista (uma editora evangélica) e, finalmente, quando o desespero já estava no pescoço, passei no teste da Abril Cultural.

Meu teste era sobre Garrastazu Médici, então presidente da República da famigerada Revolução. Trazia esse nome em todas as possibildades, com acento, sem acento, com um z, com dois z, com s, Médici com e sem acento e assim por diante. Eu ia corrigindo, riscando, trocando. Enfim, voltei pra pensão esperando o resultado daquela maratona.

Meses depois, quando eu já estava procurando emprego até de estivador, entregador de supermercado, lavador de carro… chegou a resposta, no envelope onde a primeira coisa que notei, coração disparado, foi a arvorezinha da Abril.

Celso Simões, um português (o que, em São Paulo, não é qualquer novidade), me entrevistou.

Lá fui, com meu blazer xadrez, minha camisa enrugada e minha horrível gravata.

Ao atravessar aquele imenso salão, cheio de desenhistas, com aqueles cabelos de Tropicália, coletes, camisetas com caveiras, ouvi assovios e piadas até chegar à sala de Simões.

Depois da entrevista,  ele foi curto e objetivo:  você passou no teste, mas esse tipo de revisão que você faz não existe mais. Estamos entrando no mundo da fotocomposição e o linotipo, onde certamente você aprendeu, está nos últimos dias. Mas, ao menos, mostra que você conhece Português.

Despedi-me e me virei para sair. Antes de deixar o recinto, Simões me alertou:

– Quando voltar aqui, deixe esse terno e gravata em casa.

Enfim, conto esses episódios para homenagear São Paulo, a universidade da vida que me transformou em homem feito, acostumado à dureza e à ternura de minha cidade-mãe.

A hora de Marina

Noto que Marina Silva, pela sua biografia, por ela mesma divulgada, de mulher simples, humilde, pobre, seringueira, que veio para a cidade grande, alfabetizou-se já com certa idade e acabou vencendo com grande sacrifício, tende à indecisão.

Sua bandeira sempre foi o meio-ambiente, o “futuro de nossos filhos”, a preservação da natureza para garantir “um mundo melhor”. Ok. Parecem obviedades, mas foi com essa bandeira que 20 milhões de brasileiros se identificaram.

Quando Marina diz que vai consultar suas bases e, principalmente, os segmentos sociais !com quem fizemos alianças”, está jogando o assunto para decisão coletiva. Parece democrático e até justificável que assim seja.

Mas o tempo urge. Isso a leva a uma certa indecisão pessoal, que beira à perigosa saída da liberação dos eleitores para votarem em candidatos de sua preferência. É sobre esta hipótese que desejo refletir um pouco aqui.

É claro que os 20 milhões de brasileiros votaram por três razões evidentes. Votaram por repelir o PT, votaram por repelir o PSDB, votaram por adoção das bandeiras de Marina Silva e Chico Mendes. Basicamente, isso. Alguns poucos votaram por gostar da idéia de uma mulher, de verdade, na Presidência, e Marina tem esse perfil, frágil mas inteligente.

Liberar os eleitores, feita essa observação, pode até ser razoável, pois a divisão continuará na mesma proporção.

O problema é que todos, absolutamente todos os 20 milhões que votaram em Marina, lembram-se com sangue nos dentes a demissão da Ministra Marina por Dilma Roussef. Claro, Lula poderia ser mais homem e demiti-la pessoalmente, tal era o grau de amizade entre eles. Mas preferiu dar o facão para Dilma, a mesma que pediu a cabeça da amazonense.

Esse povo, dificilmente votará em Pacdilma.

Além do que, na memória desse importante eleitorado, está ainda a imagem de Pacdilma atropelando a legislação ambiental para obter licenças de usinas (Monte Belo, Jirau, etc.).  Por trás de tudo, Zé Dirceu e Lulinha (o filho) manipulando tudo para controlar grandes empresas.

O que ressalta à vista é que Marina não pode perder a chance de liderar, de exercer seu carisma, de aconselhar um dos lados, pois ao líder não é permitido omitir-se em momento tão importante. Esse momento é único. Líder tem lado, não fica no muro.

Por fim, o mesmo conselho que dei a alguns amigos do Partido Verde de Campo Grande, vale enormemente agora. Maria deveria exigir dois ministérios para o PV. O de Meio Ambiente, onde balançam as bandeiras tão caras para Marina Silva, pelas quais ela é mundialmente conhecida. O PSDB ganharia muito com essa concessão.

O outro, o das Cidades, onde estão as bolsas-famílias. Aí o PV poderia desenvolver um grande trabalho social, ajudando o PSDB efetivamente.

Senhora MARINA, é hora de decidir. Sua chance de entrar para História.

Sindicato não pode defender interesses conflitantes de associados

Quando há conflito de interesses entre grupos de associados de um sindicato, este perde a legitimidade para representá-los judicialmente em ação. Esse foi o entendimento manifestado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em recurso do Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Contas do Espírito Santo contra julgado do Tribunal de Justiça daquele estado (TJES). No caso, o sindicato queria manter direito de representar parte da categoria em mandado de segurança coletivo.

O sindicato impetrou mandado de segurança para garantir que os associados recebessem o auxílio-alimentação em pecúnia. Entretanto, parte dos sindicalizados preferia receber a vantagem via cartão eletrônico. O TJES considerou que, devido ao conflito de interesses, o sindicato não teria legitimidade para representar apenas um grupo de seus associados. Também apontou não haver evidência de que os que preferiram receber o benefício via cartão o fizeram apenas para evitar que houvesse desconto do IRRF e INSS.

No recurso ao STJ, a defesa do sindicato alegou que a legitimidade de órgãos de classe é garantida pela Constituição Federal. A Carta Magna garantiria a capacidade de os sindicatos defenderem direitos coletivos e individuais da categoria que representa. Afirmou ainda que a jurisprudência do próprio STJ seria no sentido dessa possibilidade. Por fim, apontou que essa jurisprudência permitiria que só parte de uma classe fosse abrangida.

No seu voto, a ministra Maria Thereza de Assis Moura, relatora da matéria, apontou que o entendimento do STJ é que os sindicatos têm legitimidade para atuar como substituto processual e defender na Justiça direitos pessoais individuais dos seus filiados relacionados aos seus fins institucionais. Apontou, também, que a Súmula n. 630 do Supremo Tribunal Federal garante às entidades de classe a faculdade de impetrar mandado de segurança, mesmo que só para o interesse de parte das respectivas categorias.

Entretanto, ela ponderou, no caso haveria conflito de interesses entre os filiados, fato admitido pelo próprio sindicato. Não seria, portanto, apropriada a impetração do mandado para a resolução da questão, já que os interesses de parte da categoria seriam contrariados. Com essa fundamentação, a Sexta Turma negou o recurso do sindicato.
(Fonte: Processo RMS 23868, STJ)