Guizos falsos

Vejo com reserva o entusiasmo da comemoração que tomou conta nova administração municipal. No Midiamax de terça-feira o vereador Edil e o Prefeito Olarte aparecem festejando projeto de doação de área de 20 mil metros quadrados para instalação de uma fábrica de tablets.

A legenda da foto era “projeto de doação do terreno de mais de 20 mil metros quadrados foi entregue hoje à Câmara.”

A notícia diz que “se aprovado, o lançamento da obra de R$150 milhões já deve ocorrer na próxima quinta-feira”.

Maravilhoso. Esse entusiasmo é necessário numa administração que estava devagar.

O problema é que a doação de imóveis atrelada a projetos de investimento deve ser acompanhado de muita cautela, para evitar que tenhamos uma nova Kepler-Weber, que prometeu mundos e fundos para entrar em Campo Grande e deixou um clima de terra arrasada quando foi embora.

Edil sabe bem disso, pois estava presente na primeira festa, onde foram prometidos milhares de empregos, milhões de reais em investimentos sólidos e, certamente, sofreu a decepção de ver todo o projeto vir ao chão.

Na verdade, não estamos nós, cidadãos, interessados no “lançamento da obra”, pois para isso basta uma fitinha, uma tesoura, holofotes e sorrisos para fotos.

Queremos, sim, saber quanto será investido, de que forma, quando estarão disponíveis os empregos oferecidos, quem formará essa mão-de-obra especializada, sobretudo, em quanto tempo.

Uma vez, recebi de um deputado amigo a incumbência de consultar o staff do Reverendo Moon sobre a possibilidade de trazer para o Estado uma fábrica de frutas secas (desidratadas) ou de celulares (na época, nem havia a febre que hoje há nessa área).

Havia uma CPI na Assembleia e um acordo encerraria o processo.

Na Coréia do Sul disseram-me que a universidade sul-coreana poderia trazer sem muito problema um curso sobre desidratação de frutas (como fez no Egito). Quanto à montadora de celulares foram muito claros: a dificuldade estava na mão-de-obra especializada, de formação complicada e demorada.

Resumo da ópera: não tivemos nem uma coisa nem outra, mas a questão da mão-de-obra continua a mesma e não vejo diferença entre tablets e celulares.

Infelizmente, corremos o risco da cidade paulista de Jaguariúna, que atraiu uma montadora da Motorola e encheu a região de funcionários de… São Bernardo do Campo! Não havia um só pobre-diabo em Jaguariúna que soubesse pedir uma chave de fenda em inglês ou pudesse ocupar o tão sonhado emprego conquistado pelo ambicioso prefeito.

Vale dizer: a cidade precisou de milhares de moradias, inflacionou o mercado imobiliário, superlotou as escolas, deteriorou os hospitais e postos de saúde, aumentou a violência na periferia mas não aproveitou os empregos da indústria de ponta. Teve o ônus sem o bônus.

Numa escala muito, muito menor, mas não menos importante, uma indústria de polímeros que se instalou em Três Lagoas precisou de 7 químicos, com piso salarial de 5 mil reais. Mais de 300 candidatos se apresentaram e nenhum químico de Mato Grosso do Sul conseguiu a nota mínima para ocupar a vaga!

Esse é o quadro. A doação, nesse caso, foi mantida, já que a empresa cumpriu o que prometeu mas a nossa incapacidade educacional foi madrasta. É o que dá ter um ambiente universitário que se preocupa mais com greves e com salários do que com ensino de qualidade.

Qualquer doação de um imóvel de 20 mil metros quadrados deve ser acompanhada de um compromisso sério na implantação dos investimentos, com sanções, inclusive, para o caso de descumprimento ou atraso no cronograma.

Em suma, não quero saber quando será “lançada a obra”, não me interessa esse negócio de “pedra fundamental”, fitinha cortada, “falsos guizos da alegria” ou “palmas febris dos corações”. Quero mesmo é saber se essa fábrica é real, se a mão-de-obra será preparada aqui, se haverá alguma pena caso o investidor ponha a viola no saco e vá cantar em outra freguesia.

Com a palavra o vereador Edil e seus pares, que já viram esse filme e sabem que o mocinho morre no final.

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