Cifras e Sonhos

Sylvia Cesco

Esta não é minha seara: pensar, falar e muito menos escrever sobre cifras e cifrões. Mas mantenho em meus recantos de mim mesma o sagrado lugar do sempre aprender  e confesso que é nas  semanas noelinas que este lugar se aflora com maior intensidade. Penso que é assim com outras pessoas também: nos tornamos mais tolerantes, mais pacientes para  ouvir o outro,  as nossas bem-querências estão mais disponíveis para esquecer a palavra mal falada, o gesto da indiferença, o meio riso disfarçado, a fina e  sutil  ironia de quem quer testar nossa sensibilidade…. Enfim, sempre vivencio os últimos dias de cada ano não como a época da colheita, mas como aquele “tempo propício,  profícua estação de fecundar o chão,” como canta Milton. E neste  cio da terra, há que semear os grãos. Se acolhidos, poderão frutificar, quem sabe?,  neste solo cerradense que temos por herança.

Feitos tamanhos prolegômenos ( brincadeirinha, não dê importância a este palavraço), passemos ao que se segue. Amanheci ouvindo falar num tal de Prêmio da Virada. A expressão me chegou numa roda de jovens amigos e amigas ( havia também dois casais já  amadurecidos pelos roçados da vida…). Assunto: o prêmio que será sorteado pela Caixa Econômica, (Econômica? Pressinto que este adjetivo qualificativo esteja na hora de mudar ),  no próximo dia 31 de dezembro.  Na roda que roda, a previsão está beirando a cifra dos 170 milhões de reais. Recorrendo aos meus gnomos e duendes que sempre me socorrem em ocasiões de grande ignorância da minha parte– e esta é uma delas- fui informada de que existe por aí um ou um grupo de brasileiros  predestinados ganhar a quantia- pasme- de mais de cem milhões de reais. Não tenho idéia do que isto seja. (E nem quero ter. Vai que eu caia em tentação de fazer uma aposta e ser possuída por sofrimentos ditados por números…Isso é lá pra quem tem garra…. sou frágil demais pra conviver com a angústia das possibilidades…).Mais de 150 milhões!  Nem sei porque me vieram à mente os juízeslalaus, o mágico cordão dos mensaleiros, os antigos ( e novos) políticos a quem “Deus costuma ajudar” ( não foi assim, nos idos 1993, com o baiano João Alves ?). Tentei intrincadas equações, puxei da estante meu velho alfarrábio do Ary Quintella, meu precioso e bem guardado volume de Admissão ao Ginásio, e outros tais. Não puderam me ajudar. Em nenhum deles vi qualquer quantia com tantos zeros. No meu tempo, acho que a matemática da maioria dos brasileiros, – e dos antigos  ferroviários, incluindo meu pai -, ainda era aritmética, e o os números  tinham um limite  de zeros.

Trouxe o passado ao presente, com música e futebol: quanto ganha o Rei para se apresentar uma vez por ano, ( e olha que lá se vão mais de duas décadas…),  sempre em imaculado terno branco, nas telinhas globais, com seu  surrado “são tantas emoções?” Tão surrado que RC já nem abre mais a boca: o terno e a platéia cantam por ele. Quanto ganham as joelmascalypsos para sacudir a cabeleira pra frente e pra trás, sempre de barriguinha de fora ( justiça seja feita: pra idade está bem saradona  Mas, como não existe mulher feia e sim pobre, deixa pra lá, que isto não faz parte desta escrivinhação). Ah, têm alguns luanssantanas, de oblíquo olhar capitulino,  ou loiros telós e suas delícias… Toda essa parafernália por certo não é matéria de poesia, como diz Manoel, mas de cifra.  E existem ainda os neymares, romários, messis, ronaldos, etc, etc, etc. Tudo matéria de cifra que não se decifra. E o que têm feito esses eleitos pelas ricas cifras para interferir na pobre realidade brasileira, criando empresas, gerando empregos, investindo  na qualificação de trabalhadores? Que eu saiba,  muitos mantêm programas assistenciais, ( alguns até educacionais), para crianças e jovens,  e dormem tranqüilos. Estão fazendo sua parte. Estão cantando, jogando, fazendo política e guardando dinheiro, investindo em si mesmos e familiares, e não  na geração de trabalho e renda para outros brasileiros, abrindo pequenos – ou grandes- negócios, que deveriam gerenciar cuidadosamente para que não fossem à bancarrota; ou seja, deveriam se fazer de trabalhadores,  contribuindo com a economia do país. Dirão que minha visão ainda é capitalista, pensando na abertura de novas empresas privadas.  Que seja. Depois dos modelos falidos de Cuba, União Soviética, Coréia do Norte, não dá pra ser complacente  com qualquer regime denominado erroneamente de comunista/socialista,  haja vista que essas ( e outras) nações citadas são mesmo totalitaristas da pior espécie.  Mas e o Prêmio da Grande Virada?  Ah, sim, voltemos a ele. Não teria como achar um meio de multiplicar esse prêmio, tornando-o em vários outros de  menores cifras para que mais e mais brasileiros também  ganhassem  e gerenciassem esses recursos de modo mais adequado à nossa realidade? Mais prêmios, menos cifras, mais ganhadores, mais sonhos realizados. Como vê, as vantagens são maiores. Ou será, como expliquei no começo, que  me meti em conversa para a qual não fui chamada? Perdão. É que alguém já disse certa vez:   “tive um sonho….”

 

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