Nelson Trad, deputado do Brasil

Quando era editor do Jornal O Mercado, em Campo Grande, dedicava-me a uma coluna sobre acompanhamento parlamentar, trabalho que me dava grande prazer.

Semanalmente, acessava o site da Câmara e pesquisava sobre o trabalho de nossos oito deputados, sobre os projetos apresentados, discursos proferidos, participação em comissões, viagens que faziam em missões oficiais.

Desde cedo, aprendi que não se pode ver o trabalho do deputado apenas sob o critério de quantidade  de projetos. Se assim fosse, o deputado Nelson Trad, então o mais antigo parlamentar a serviço de Mato Grosso do Sul, perderia feio para o deputado João Grandão, que foi o mais prolífico criador de factóides de nosso Estado.

Numa semana, o site da Câmara apresentava João Grandão como autor de 1.480 atos apresentados, enquanto Nelson Trad ostentava o aparentemente modesto número de 180 projetos.

Ao analisar a qualidade do trabalho, ficou evidente que João Grandão apresentava centenas de moções, pedidos à Mesa da Câmara, indicações a Ministérios ou simples peças congratulatórias sem nenhuma importância.

Quando um Ministro qualquer visitava a Casa, o deputado sul-mato-grossense solicitava do visitante uma informação irrelevante, sobre um projeto ou sobre algum requerimento antigo (asfaltamento de uma estrada, instalação de um Posto de Saúde, etc.). O requerimento era lido na data, o Ministro prometia que ia dar uma olhada e pronto, aquele “ato” era registrado em nome do João Grandão.

Na verdade, nenhum projeto importante, que eu me lembre, foi apresentado entre aqueles quase 1.500 registros.

Já no acerto de Nelson Trad eram, realmente, projetos de lei emendando o Código Penal, o Código de Processo Penal, alterando a Lei Anti-Tóxicos, tratando de prescrição de penas, enfim, era um legislador para todo o País.

Seus projetos eram poucos mas se incorporaram a diversos Códigos e seu trabalho se perpetua na História.

Sua participação em comissões importantes do Congresso incluíam sempre as Comissões de Direitos Humanos, o trabalho de sistematização de Códigos, harmonização de leis no Mercosul, reforma do ensino universitário  e assim  por diante.

Dos seus 180 projetos de lei, contabilizei pelo menos uns 60 que se converteram em leis importantes para o País.

Nas quatro vezes que o procurei no seu gabinete fui atendido em todas, mesmo que tivesse de retornar na parte da tarde porque ele estava em algum outro compromisso.

Hoje vejo seu filho, Fábio, exercendo o importante mister de relatar a reforma de um código importantíssimo para todos os brasileiros e sinto que a chama do velho Trad passou à próxima geração.

Afirmo, por aquele acompanhamento que fiz por dois anos, que Trad foi o mais importante de nossos deputados federais.

Assim como seu trabalho, sua perda é também uma perda para todo o Brasil.

 

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