Inquisição em Brasília

O Conselho Nacional de Educação, aparelhado pelos “companheiros” e, sobretudo, seguindo a onda das quotas para negros, para índios, para minorias nas universidades, meteu os pés pelas mãos há algumas semanas e resolveu recomendar censura ao livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato.

Segundo o “Conselho de Sábios” da aldeia brasileira, o livro é racista porque, a certa altura, Monteiro Lobato diz “Tia Anastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.

Embora o Ministro da Educação, timidamente, tenha resolvido não acatar o parecer do “Conselho de Sábios”, o assunto tomou as manchetes e invadiu as redes sociais. E, a cada vez que o assunto era iluminado, mais trapalhadas o Conselho inventava.

Quando resolvi escrever este artigo, a solução encontrada pelos trapalhões era uma “nota explicativa”, uma espécie de tarja ou advertência, dizendo que este ou aquele livro contém expressões racistas mas que foram escritas em determinado contexto.

O nome é chique: contextualização.

E cada vez que o assunto é remexido, pior fica. Como contextualizar, por exemplo, esse texto de Monteiro Lobato? Será necessário explicar que “macaca” é um termo racista? Que “carvão” também é usado para se referir a negros? Será que irão dizer que “trepar” não é, ao contrário do que todo mundo imagina, fazer sexo mas, simplesmente, no sentido originário, subir, pura e simplesmente?

Já é bastante ridícula a posição do “Conselho de Trapalhões”, mas continuemos examinando o assunto. Primeiro, deixo bem claro, os trapalhões do Conselho não têm competência, nem legal, nem intelectual, de contextualizar “Caçadas de Pedrinho”, de Lobato, ou “Mein Kampf”, de Adolf Hitler.

Nem quero pensar em como eles contextualizarão “Os miseráveis”, de Hugo.

E se permitirmos tal aberração, logo vamos ter de explicar como o assunto “caçadas”, proibido pelo Ibama, veio parar num livro infantil?

Outro dia vi na TV um burocrata irritado porque o Conselho de Educação foi comparado ao Santo Ofício Inquisitório, que tanto queimava livros como mandava bruxas para a fogueira.

Pensando bem, não há exagero algum. Veja, por exemplo, leitor, o que o Santo Ofício fez constar na apresentação de Os Lusíadas, de Luís Camões! Diz o Alvará Régio da Edição de 1572:

“Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusiadas de Luis de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Asia & Europa, e não achey nelles cousa algűa escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessario aduertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade da nauegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hűa fição dos Deoses dos Gentios. E ainda que sancto Augustinho nas sas Retractações se retracte de ter chamado nos liuros que compos de Ordine, aas Musas Deosas. Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poetico não tiuemos por inconueniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salua a verdade de nossa sancta fe, que todos os Deoses dos Gentios sam Demonios. E por isso me pareceo o liuro digno de se imprimir, & o Autor mostra nelle muito engenho & muita erudição nas sciencias humanas. Em fe do qual assiney aqui”.

Assinava um tal Frei Bertholameu Ferreira, vendo-se na parte que destaquei acima uma afirmação disparatada, a de que “todos os deuses dos gentios são demônios”, posto que nem mesmo Camões afirmara que os deuses eram mesmo deuses!

Era apenas literatura, mas o velho Frei desandou a invertes os conceitos para impedir que as letras conspurcassem a alma dos leitores.

De acordo com um estudo na internet, “não se pode pensar em heresia porque não fazia sentido, em tempos de Contra-Reforma, acreditar nos deuses do panteão greco-romano, e a prova é a não censura dos inquisidores aos «Deoses dos Gentios». No episódio da Máquina do Mundo (estrofe 82 do Canto X), é o próprio personagem da deusa Tétis que afirma: «eu, Saturno e Jano, Júpiter, Juno, fomos fabulosos, Fingidos de mortal e cego engano. Só pera fazer versos deleitosos Servimos».

O fato é que as notas explicativas, tanto no Século XVI quanto hoje, beiram à insanidade, pois atraem mais luz ao que se quer esconder ou evitar. Agora todos começam a olhar a cor do aluno vizinho, começam a analisar os traços físicos, começa-se a pensar no assunto, já que a nota explicativa trouxe a lume o problema do racismo.

Mas não acusem Lobato de racista e sim as mentes pervertidas que trouxeram tal assunto à baila. De fato, não se pode comparar o Santo Ofício Inquisitório com o Conselho Nacional de Educação, sem ofender ao primeiro. Aqueles padres sabiam o que estavam fazendo na Santa Inquisição, enquanto os velhinhos do CNE só estão ali para o chá e para o jeton.

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