O milagre de ser pai

Meu pai não está entre nós. Dentre seus muitos defeitos e virtudes, lembro-me de algumas surras, de algumas bebedeiras, mas, de fato, lembro-me com maior intensidade do dia em que tomei água de uma cacimba, em suas mãos.

E, num outro quadro muito caro, comi fruta-pão pela primeira e última vez, posto que nunca mais encontrei essa fruta. Ficou sendo, nas brumas do passado, a fruta de meu pai.

Anos depois, aos dez anos, fui resgatado de um orfanato por um bondoso japonês, Matsutoku Matsumoto, que, tomando minha mãe sob sua proteção, criou-me e a minhas irmãs, como pai sábio e generoso.
Mas hoje, não quero falar como filho.

Acordei bem cedo. Fui à cama de meu filho, Jr, um bebê hoje com 27 anos. Com aquela barba crescida. Ressonando. Aparentemente, em paz. Olhei-o, demoradamente, por meia hora, quarenta minutos, se tanto.

Fui a outro quarto, onde minha filhinha, Bruna, deveria estar. A cama vazia. Viajara logo cedo para compromisso profissional, em Cuiabá. Doeu. Costumo vê-los, sempre, reverenciando esses dois presentes que a vida me deu.

Tesouros que recebi para cuidar até o fim de meus dias. Na verdade, criados, formados, ela jornalista e advogada, ele um engenheiro de computação já em plena atividade, já indicam que minha missão está cumprida.

Hoje são eles que me cuidam, como se eu fosse um menino. “Tomou seu remédio?” pergunta Jr. “Não durma tarde”, diz Bruna. “Você foi fazer seus exames?”, ele de novo. “Quero passar um creme na sua pele, que está ressecada”, lá vem ela.

Somos uma família? Com certeza. O amor entre nós é algo impossível de descrever aqui ou em qualquer lugar, o calor que corre em nossas veias representa um sentimento que não cabe numa folha de papel.

Ligo para minha filha para ver se ela está bem, se chegou bem, se fez bom voo. Ouço que está tudo bem com ela. Meu filho acorda e me premia com o primeiro abraço do dia, um de muitos que ainda ganharei até o final de minha jornada.

Não importa o marketing que nos atazana pelo rádio, pela TV, pelos jornais e revistas. Não importa o que disseram sobre o Dia dos Pais.

Ver meu menino dormindo, diante de mim e sob meus cuidados, saber que minha filha está bem, ainda que distante, me diz que o dia dos pais acontece aqui, em meu lar, todos os dias.

Pensando nisso, constato que não há preço que pague essa gostosa sensação, o milagre e ato ao mesmo tempo, de ser, simplesmente, pai.

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2 Respostas

  1. TE AMO, MUITO
    MUUUUUITOO
    E NADA PODE MUDAR ISSO.
    JURU

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