QUERO ou PRECISO?

Certa vez, pelos idos de 91, em uma de minhas primeiras viagens ao exterior, eu vagava pelos shoppings e vielas de uma capital européia procurando avidamente um notebook. Os preços eram estratosféricos mas lá estava eu, perguntando, anotando preços, marcas e pensando numa forma de passar o aparelho pela alfândega.

De repente, um estalo. Por que eu estava tão aflito por um produto que poderia comprar no Brasil, em Ponta Porã, em Foz do Iguaçu, já que os riscos seriam os mesmos e, ao menos, eu estaria mais perto para fazer uma reclamação em caso de disfunção do produto.

Cheguei ao hotel e preguei no espelho e em minha carteira, colando no próprio cartão de crédito a pergunta QUERO OU PRECISO? Foi interessante o impacto dali em diante. Até os blazers que eu queria comprar foram afetados. Na vitrine, o produto me chamava, mas eu tirava do bolso a carteira e lá estava: QUERO OU PRECISO?

De volta ao Brasil, por muito tempo, usei esse expediente com os meus filhos, embora, com eles, eu tenha também tentado uma estratégia diferente. Na carteira deles e espalhada pela casa eu preguei a frase: ELES ESTÃO FELIZES. Quem são eles? A Microsoft, a Nokia, Casas Bahia, Lojas Americanas. Acionistas, diretores, funcionários, ficam felizes da vida quando você, sem necessidade, resolve gastar 90, 100, 500 reais com algum badulaque, um celular novo, uma máquina fotográfica de última geração em 24 prestações.

Estamos sempre fazendo a felicidade de um grupo econômico, enquanto o nosso momento de prazer dura exatamente o tempo de abrir a embalagem, examinar o manual de instruções, amassar o papel de embalagem e jogar no lixo. Dali em diante, em suaves ou pesadas prestações, estamos pagando 13º salário, fundo de garantia, iates em Búzios e viagens de madames a Miami. Felicidade geral… deles!

Quando meu filho está na rua, com preguiça de almoçar em casa, resolve ir à praça de alimentação do shopping. Em casa, aquela comida desperdiçada e ele pagando um almoço extra, fazendo, de novo, a felicidade do dono do restaurante. Decisão impensada, para não falar no desperdício de comida.

QUERO ou PRECISO? Já funcionou esta semana. Fiquei tentado a comprar um aparelho para ler Blue-ray. Mas… isso é necessário neste momento? Já existem títulos suficientes nas locadoras? Quem vai ficar feliz se eu comprar? Ao imaginar o sorriso daqueles milhares de fornecedores, fabricantes, transportadores, trabalhadores, enfim, todos em uma grande indústria de Manaus, recuei e vou ficar sem esse luxo por mais alguns meses.

Nada tenho contra a felicidade deles, mas a minha é prioridade neste momento. Ganhar um real é difícil, gastar é muito, muito fácil. Então…

A conjugação dessas duas frases é um exercício incrível de cidadania e poder sobre suas próprias decisões. Tente você também.

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Uma resposta

  1. João, meu amigo
    Mesmo em reprise, “Quero e Preciso” de seus artigos. Inteligentes, sinceros, audazes, lúcidos, contundentes, questionáveis, mas sempre bem vindos para quem quer exercer o ato de pensar. Quem sabe um dia, a compilação desses artigos não possa virar um livro – não pela Fundação de Cultura com prazo pra pagar(?) mas sem prazo para a qualidade – mas por editores plenos de consciência, bom gosto e bom senso. Quem sabe!
    Abraço
    Euclydes

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