Carreira maldita

Há na “Veja” de 10 de fevereiro matéria sobre Educação, enfocando a carreira de professor. Triste Brasil.

Dá conta de que os melhores alunos que terminam o ensino fundamental não pretendem seguir a carreira de professor. Mais: alguns pais chegam a proibir que se fale nisso em casa, como se essa fosse uma profissão maldita.

A conclusão mais grave é que os piores alunos optam pelo magistério, ou seja, o que já é ruim, fica pior.  Como alunos de mau desempenho não conseguem galgar outras profissões, não fazem pontos para Medicina, Engenharia, etc., ficam no magistério.

Maus professores, ou, em outras palavras, professores por falta ou incapacidade de melhor opção formarão os alunos de amanhã. Alunos precários, sofríveis, que ficarão sempre na rebarba da sociedade, nos empregos periféricos, braçais, na atividade marginal. E o ciclo se repete.

Esse é o quadro apresentado por Veja. Retornei ao assunto porque a revista faz referência à Coréia do Sul e à Finlândia como exemplos de excelência no ensino, onde, decididamente, ser professor é um status extraordinário, alçado só pelos melhores.

Já contei alguns episódios sobre a Coréia do Sul. A Finlândia não conheço ainda. Vale a pena repeti-los.

Fevereiro de 2006, éramos 4.500 pessoas em um ginásio de Seul, aguardando pela presença do Reverendo Moon. A mesa estava formada, só faltando mesmo o esperado casal, quando cessou toda conversa, o burburinho foi diminuindo até se poder ouvir uma pena cair ao chão.

Procurei a razão daquela mudança e, lá do fundo, vinha caminhando com dificuldade um ancião, cabeça totalmente branca, muletas, auxiliado por vários assistentes do evento. Em princípio pensei que seria Moon, que também já está em idade avançada. Mas, não. Aquele novo personagem era magrinho, digno, espigado, sem sinais da curvatura comum nessa idade.

Foi conduzido à mesa e, ao sentar-se, o ginásio inteiro curvou-se, fazendo reverência e depois o público irrompeu em demoradas palmas.  Quem seria aquele personagem tão admirado? Um governante? Um ministro? Um cientista? Um prócer religioso?

Não. Era apenas um professor primário, com milhares de ex-alunos espalhados pela Coréia do Sul. “Apenas” isso? Sim. Na verdade, onde pensei “apenas” era “tudo”. O professor na Coréia do Sul, especialmente, o que ensina crianças na primeira idade, é considerado herói, pois o País saiu da miséria em que estava após a guerra com o Japão investindo em educação.

Nessa “guerra” santa, quando, após a guerra, a Coréia optou por ter um Exército de Engenheiros e não uma brigada de tanques ou armamentos sofisticados, o Professor foi decisivo!

Quis saber mais e informaram-me que em qualquer solenidade em que se localize um professor no plenário, ele é conduzido à frente e reverenciado. Advogados, médicos, engenheiros são importantes na Coréia do Sul, mas não têm o mesmo privilégio.

No dia seguinte, pude constatar na Universidade Sun Moon que essa prática é nacional e não localizada. Embora fosse período de férias escolares, restaurante, laboratórios, bibliotecas da Universidade estavam lotadas de alunos estrangeiros. Quando os coreanos entram em férias, abrem as universidades para milhares de estudantes do mundo todo interessados em conhecer o sistema sul-coreano de ensino.

Diga-se de passagem, também no restaurante, quando entra um Mestre, todos se levantam e fazem uma reverência. Fiquei abismado com esse costume.

Nas férias, a universidade não para, pois espaço universitário vazio é custo impensável para aquele país. E, diga-se de passagem, muito bem aproveitado, pois nessas visitas, os estudantes de outros países são também “estudados”, filmados, entrevistados e acabam transferindo suas próprias experiências aos sul-coreanos.

Essas universidades estrangeiras são consideradas “universidades irmãs” da Sun Moon e esse status lhes garante um saudável intercâmbio cultural e científico que, bem utilizado, introduz qualquer país de terceiro mundo no concerto das nações desenvolvidas.

Entre elas, num grande painel eletrônico, descobri a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Orgulhoso, apertei o botão correspondente à UFMS e descobri que era a única Universidade que nunca mandara nenhum aluno ou professor à Coréia do Sul!

Talvez sejamos melhores do que a Rússia, o País de Gales, Inglaterra ou até mesmo África do Sul, que, anualmente, manda de 60 a 100 alunos para absorver conhecimentos dos sul-coreanos. Não pude evitar o pensamento de que ou somos muito auto-suficientes ou muito obtusos.

CONCLUSÃO

Lendo a matéria de “Veja”, verdadeira e preocupante, retorno à minha antiga sugestão, nunca observada por nenhum governante ou secretário de Educação que conheço: a carreira de professor deve ser estimulada não-só com salários melhores, mas com a possibilidade de progressão, vertical e horizontal, com benefícios indiretos (casa, transporte, reciclagem cultural e científica, bolsas de estudo para os filhos).

As universidades devem prover laboratórios, oficinas completas e possibilidade de intercâmbio para alunos e para professores, todos os anos, senão todo semestre!

Sobretudo, é preciso ver o professor como um herói, um formador de novos cidadãos e não um simples vomitador de fórmulas prontas, vendendo o almoço para comprar a janta, maltrapilho, sem futuro próximo ou remoto.

É bem verdade que os professores só reivindicam salários nominais. Suas greves são por migalhas. Só pensam no bolso, uma miopia dos partidos de esquerda, que só conseguem ver o Brasil em preto e branco, uma multidão de pobres-diabos pendurados no bolsa-família, na cesta-básica, no ticket-refeição.

O dia quem que pedirem para ir à Universidade Sun Moon, utilizando o status de Universidade-Irmã da Coréia do Sul, começarão a trilhar um novo caminho e terão, certamente, maior status entre nós.

Afinal, todos somos o que somos porque um dia tivemos um professor.

Anúncios

Uma resposta

  1. Realmente comovente, concordo com essa deferência ao professor, não que este seja melhor que outro profissional, mas porque precisa ser valorizado e ter orgulho do que faz. Ha´tempo já sei que o magistério está sendo exercido por pessoas que fizeram a licenciatura como última opção. Muitas coisas estão erradas e, com certeza, nossos governantes são completamente míopes. Excelente texto, João, obrigada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: