Refletindo sobre a tragédia do Rio, onde três prédios desabaram, soterrando vidas e esperanças, aproveitei para fazer o segundo artigo sobre “construtores de almas”, que trata de ensinamentos passados por nossos antigos mestres e que nos ajudam a viver.
Um abençoado sargento Adônis, ao cair da noite em uma campanha (nas matarias da região de Amambai) do Exército, levou-nos a uma encosta e dividiu nosso grupo de combate em dois.
Um ficou no topo do pequeno monte e o resto ao sopé. O de baixo devia bater com a baioneta nos cantis determinado número de vezes. O que ficava no topo deveria contar e anotar quantas batidas ouvira.
Em outro exercício falávamos em voz baixa para ver se os soldados de cima conseguiam ouvir alguma coisa.
Depois invertia (batidas no topo e os de baixo tentavam ouvir) e o objetivo do exercício era aferir os efeitos da propagação das ondas sonoras em aclives e declives. Nunca esqueci os resultados.
Nossas batidas e nossas conversas lá no sopé eram perfeitamente audíveis no topo do monte, enquanto que nada ouvíamos quando o som vinha de cima para baixo.
Na prática, dizia Adônis, o inimigo ouve todo o ruído que fazemos de acordo com a nossa posição num acidente geográfico.
Mostrava, também, que o brilho do metal em noite enluarada ou uma brasa de cigarro no breu da noite orienta um tiro perfeito do inimigo. A morte no prazer de uma tragada.
O bom sargento falava, embora sem profundidade, o essencial. O som se propaga em ondas e, nessas ondas, leva o prazer da música ou o desastre de um desabamento como o que ocorreu no Rio.
Ao lado dos prédios já combalidos pelo tempo estava sendo reformado o teatro municipal, ao som infernal de bate-estacas, retroescavadeiras e britadeiras. O som produzido, levado por dias, semanas, meses pelas “ondas” de que nos falava o velho Adônis, foi fatal à estrutura dos prédios. Isso não foi ainda confirmado mas estou apostando nessa causa.
Já contei isso, mas vale o repeteco. Quando meu filho me dizia que “passara por pouco”, que “faltara apenas um décimo” para a nota máxima, que “errara apenas uma pergunta” eu sempre ressalvava que essa justificativa servia para a vida acadêmica, mas na vida real as coisas são diferentes.
Na vida real “um décimo” significa a perda de uma nave espacial, “um grama a mais” pode explodir um laboratório ou um “décimo a menos” de tal insumo torna o remédio ineficaz ou, pior, um veneno que mata milhões de pacientes.
Por um pequeno erro de latitude e longitude um avião perdeu-se na floresta amazônica, matando 49 pessoas. O piloto, distraído por um jogo da seleção brasileira, escolheu o rumo 0,270 (que o levaria à Venezuela… se tivesse combustível!) e não 0,027 rumo a Marabá, seu destino final.
A vida não perdoa os pequenos erros. O engenheiro que reformou o Teatro Municipal do Rio deveria avaliar o efeito de suas batidas e, especialmente, da movimentação de terra na proximidade de velhos prédios, sujeitos a desabamentos pelo uso centenário.
Essas pequenas lições só nos chegaram através de nossos antigos mestres, aqueles que ensinam com prazer e com eficiência. Aqueles que descobrem a centelha de curiosidade nos alunos (ao menos em alguns deles) e planta a sabedoria em terreno fértil.
Uma noite, chamado à coordenação do Colégio Dom Bosco, em pleno mês de junho, fui avisado pelo Mestre Estanislau que não deveria retornar no segundo semestre. “Você não leva jeito para curso científico e só vai ter decepções. Volte no ano que vem e reservarei uma vaga no Curso de Contabilidade”. Com raiva, lágrimas nos olhos, revoltado e humilhado, tive de fazer o que me era ordenado. No outro ano, retornei, e compreendi que Estanislau me resgatara de uma amarga experiência no Científico (onde minha nota máxima de matérias exatas era 2,5) e me reconduzira a um excelente Curso contábil, onde fui o primeiro da classe durante os três anos.
Só um Mestre poderia interromper o desastre certo e redirecionar o meu destino.
Mestres como Adônis, Araci Eudociack, Plínio Chaves, Pietro Falco, Luiza Morelo (que ensinava noções de filosofia a crianças), Estanislau Panatier, Orlando Mongelli (que me deu gosto pelo Português e por Teatro) e tantos outros.
Onde estiverem, saibam que seu esforço, até agora, foi regiamente recompensado.
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