Ao escrever sobre a Casa São José, onde aprendi parte de meus ofícios, veio-me à memória um breve período em que fui aprendiz de pacoteiro. Infelizmente, então, estava aquém da idade para ser contratado.
Lojas Pernambucanas, uma loja emblemática e de que guardo algumas lembranças muito fortes, às quais o leitor mais antigo não ficará indiferente. Lembra-se das folhinhas de descolar, aquelas do bloquinho, com os domingos em vermelho? As fotos de garotas com pedaços de melancia, em cenas rurais, com suas camisas xadrez, chapéus de palha, bocas de carmim?
Essas folhinhas de descolar me fixaram uma das mais preciosas lições de minha vida, já registrada em algum post de twitter ou em algum texto antigo. Nunca vi minha mãe recolocar um dia de volta no bloquinho. Ia descolando e jogando fora. Segunda, terça, quarta, até chegar ao domingo vermelho.
A lição é que dia passado não volta. Não há engano na passagem do tempo.
Outra curiosidade sobre as Pernambucanas era sua publicidade em rochas, montanhas, pedras remotas pelo interior. Lá no alto da montanha, mesmo para quem passasse de carro e em boa velocidade, podia-se ler: Casas Pernambucanas… Eu ficava imaginando aqueles caras encarapitados com seus baldes de tinta e seus pincéis, fazendo um tipo de publicidade absolutamente eficaz naquele tempo.
Eu era o que se convencionava ser um “aprendiz”, aquele menino que deixavam por ali, fazendo de tudo, comprando cigarros, passando serragem molhada no chão, limpando banheiros e mirando seu sonho, ser pacoteiro para dobrar aquele papel de embrulho (especialmente, os pacotes de presente, com papel colorido), fazer aquelas dobras especiais, cortar o durex e selar o pacote…
Assim se aprendia naquele tempo, não tinha perturbação do Ministério do Trabalho com suas quotas de aprendiz impostas pelo governo, que sequer são cumpridas pelas empresas. Quotas para deficientes, para negros, para índios. Isso não é do meu tempo.
- Menino de 12 anos não pode trabalhar, tem de brincar.
À noite o moleque está fumando crack e assaltando, mas aí o Ministério já é outro. Aí o menino é “problema” social e não aprendiz.
Adorava aprender com os balconistas, uma categoria perto do semi-deus, a “bater” a peça de tecido, enrolando com aquele ritmo especial que se ouvia em toda a loja. Plact, plact, plact…
Não qualquer tecido, mas, de preferência, os mais encorpados, o piquê (das colchas), a gabardina, a peça de brim, especialmente o cáqui, roliço e macio. Seda era complicada, muito lisa, escorregadia. Não dava plact, plact.
Ficava embevecido, vendo o balconista desenrolar a peça de pano para mostrar ao freguês (ainda não havia cliente) e, depois, enrolá-la novamente, com seu plact, plact, plact.
Não era qualquer freguês que merecia esse desenrolar de metros e metros de uma peça. Não! Pelo trabalho que dava pegar aquelas peças lá no alto da prateleira, desenrolar, estender parte do tecido no ombro do freguês ou da freguesa, simulando o futuro vestido ou terno isso só era feito com “bois” e já explico.
Há dois tipos de freguês em lojas de tecidos. O “boi”, o cliente abonado, boiadeiro ou dono de fazenda, que vinha comprar muito, para a peonada e, normalmente, para a renca de filhos. Nos velhos tempos, era comum ter muitos filhos, ainda mais na fazenda, onde não faltava alimento.
O outro tipo é o “bola sete” (não me perguntem por que, eu era criança), aquela velhinha que vem comprar 30 cm de “morim” ou meio metro de “intertela” (entretela, aquele tecido duro, engomado, para forro de cintos e golas).
Coitadinha.
Vendedores e frentistas, ao verem um boiadeiro, chapelão e botas, atravessando a rua, gritavam “olha o boi”, garantindo a preferência no atendimento, o “vi primeiro” e, claro, a comissão mais aquinhoada do dia.
Quando a velhinha atravessava a rua, rumando para a loja, um vendedor gritava “bola sete” e o banheiro ficava lotado de vendedores em seu momento de “fumar um cigarrinho”. A velhinha vagava pela loja, como alma penada, em busca de um vendedor misericordioso que a atendesse ou de um projeto de pacoteiro…
Pois era justamente o futuro pacoteiro e, quiçá um dia, balconista, que tinha uma freguesa só para ele. Já que ninguém o fazia, eu me sentia um rei, mostrando as peças que a freguesa bola-sete queria. Pena que ela nunca me pedia para mostrar uma daquelas peças de tecidos duros, encorpados, caros, que me permitissem fazer plact, plact.
Definitivamente, esse som característico, plact, plact, plact, só ocorria com “bois”, nunca com “bola-sete”.
Quando eu aguentasse com uma peça daquelas, também iria fazer aquele som, com a mesma habilidade. Por enquanto, só a serragem no chão e o chão do banheiro eram meu mundo.
De vez em quando, expediente menos concorrido, um pacoteiro mais velho me permitia fazer pequenos pacotes, com aquelas dobras e o infalível durex. Creck, creck. Acho que a mística que me atraía para o pacote era aquele barulhinho do durex.
Uma de minhas mais emocionantes experiências desse período foi o dia em que fui atropelado por um pacote. Era uma compra de fazendeiro, com certeza, um fardo quadrado, com tecidos pesados e cobertores.
Envolvido em papelão e amarrado com barbantes fortes, o fardo era colocado em uma pequena plataforma de 40 x 40 cm, com rodinhas de rolimãs, puxada por uma corda.
Mais do que um trabalho, puxar aquele fardo naquele carrinho, imitando barulho de carro, era o sonho de qualquer menino de 11, 12 anos, que largava, momentaneamente, seu sonho de ser pacoteiro e balconista para ser “piloto” de pacote.
O problema é que o hotel destino da entrega ficava na Maracaju, abaixo da 14 de Julho. Quando atravessei a Cândido Mariano, deparei-me com uma imensa ladeira, que vai até a Maracaju. Qual não foi minha surpresa (e desespero) quando o pacote que estava sendo puxado me atropelou, passou por mim e disparou na ladeira rumo a Maracaju. E quem disse que eu consegui segurar a corda?
O que pude fazer foi correr atrás do fardo e presenciar, ladeira abaixo, a desesperante cena de cobertores, brins, casemiras e outras bugigangas espalhadas pelo cruzamento, em meio a restos de papel e barbante.
Fugi para casa, apeguei-me, aos prantos, com minha mãe, a primeira instância de todos os meninos, e ela me levou ao local do crime, onde bondosos lojistas já haviam recolhido os despojos do que fora o meu fardo desgarrado.
Não fui demitido. Provavelmente, porque na minha idade eu não podia sair pela rua entregando pacotes daquele tamanho, ainda mais pilotando um bólido movido a rolimãs. Ou pelo meu olhar de gato encurralado.
O fato é que, decididamente, minha carreira nas Pernambucanas já não tinha o mesmo encanto depois daquela proeza.
O ruído daquele pacote assassino atrás de mim e, depois, disparando à minha frente, substituiria, para sempre, os plact plact e creck creck que tanto me encantaram nas Lojas Pernambucanas, “uma em sua cidade, muitas pelo Brasil”.
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